Em 2021, Iranilda Leopoldina, pensionista de 51 anos, morava com os dois filhos no bairro Jacintinho, periferia de Maceió, e sustentava a família com apenas um salário mínimo. Para economizar na conta de luz, mantinha a casa praticamente no escuro durante a noite. Na cozinha, precisava fazer um frango durar três dias e acrescentava água à carne para aproveitar o molho.
Na mesma região, o carpinteiro Cícero da Silva, de 51 anos, vivia com a esposa, dois filhos e um neto. Com as contas cada vez mais caras, a família deixou de passar roupas para economizar eletricidade. A carne bovina praticamente desapareceu das refeições. Já o zelador Robson Feitosa, de 57 anos, precisava fazer serviços extras como eletricista para complementar a renda, mas nem assim conseguia escapar do aperto financeiro.
Essas histórias, registradas pelo UOL em junho de 2021, retratam a realidade enfrentada por milhões de trabalhadores durante o governo Jair Bolsonaro: famílias que trabalhavam, recebiam salários ou aposentadorias, mas precisavam cortar despesas básicas para sobreviver.
A inflação oficial chegou a 10,06% em 2021. No ano seguinte, apesar da desaceleração do índice geral para 5,79%, os preços dos alimentos continuaram disparando. Em 2022, a alimentação dentro de casa ficou 13,23% mais cara. A cebola aumentou 130,14%, a batata-inglesa 51,92%, o leite longa vida 26,18% e o pão francês 18,03%.
Para quem tinha renda limitada, esses aumentos significavam muito mais do que números em uma pesquisa. Significavam menos comida, refeições mais simples e a necessidade de escolher quais contas pagar.
O empobrecimento chegou à mesa dos brasileiros

Em setembro de 2022, uma reportagem do UOL mostrou como a inflação estava mudando a alimentação das famílias. O consumo de frango nas refeições havia caído 11%, enquanto crescia a procura por produtos industrializados mais baratos: linguiça, hambúrguer congelado e salsicha.
Em Campo Grande, o estudante Dannihyure Souza, de 20 anos, precisava fazer trabalhos ocasionais para conseguir se alimentar. Com apenas R$ 150 a R$ 200 mensais para comida, deixou de comprar carne bovina, frango, verduras e legumes. Passou a consumir mais alimentos industrializados e, quando faltava dinheiro, dependia de refeições oferecidas por amigos e do restaurante universitário.
Em São Paulo, o publicitário Leandro Souza, de 30 anos, passou a frequentar supermercados quase diariamente para procurar alimentos em promoção, especialmente carnes próximas da data de vencimento. Em uma ocasião, comprou aproximadamente 15 bandejas de carne moída com desconto e congelou tudo para consumir posteriormente.
A dificuldade também atingia famílias com crianças. A confeiteira Cristiane Aparecida da Silva, de 33 anos, sustentava quatro filhos enquanto o marido estava desempregado. Com as vendas de bolos, trufas e pães de mel em queda, precisava visitar até três supermercados por dia em busca dos menores preços. Para alimentar a família, passou a comprar mais linguiça e hambúrguer.
O quadro era ainda mais grave para quem já vivia na pobreza. Em junho de 2022, um levantamento da Rede PENSSAN revelou que 33,1 milhões de brasileiros enfrentavam a fome. Eram 14 milhões de pessoas a mais em insegurança alimentar grave do que em 2020. Seis em cada dez domicílios apresentavam algum grau de dificuldade de acesso à alimentação.
Os números evidenciam a dimensão das dificuldades enfrentadas pela população durante a gestão de Jair Bolsonaro e a importância de avaliar a eficácia das políticas adotadas naquele período para proteger as famílias mais pobres.
Nem os pequenos comerciantes escaparam
O aumento do custo de vida também atingiu quem dependia de pequenos negócios para sobreviver.
Em maio de 2022, a empresária Gislene Moneratto, que trabalhava com a venda de churros em São Paulo, relatou que a garrafa de óleo de cozinha havia passado de R$ 7 ou R$ 8 para R$ 13. Para manter o negócio funcionando, precisou reajustar o preço do churros de R$ 8 para R$ 10.
O pasteleiro João Carlos Nakasama, que trabalhava em feiras na zona leste paulistana, também foi obrigado a aumentar seus preços e reduzir a margem de lucro. Já o pipoqueiro Ronivon Amaro preferia ganhar menos a fazer novos reajustes, temendo perder os clientes.
Nas lojas populares, o cenário não era diferente. A família do comerciante Arcolus Nunes precisou retirar a referência a R$ 1,99 do nome de uma unidade. Em 2021, o lucro da loja principal caiu 66%, e três dos dez funcionários foram demitidos.
A crise produzia um círculo difícil de romper: os comerciantes pagavam mais pelas mercadorias, enquanto os consumidores tinham menos dinheiro para comprar. O resultado era a combinação de preços altos, queda nas vendas e redução da renda.
O ajuste de R$ 250 bilhões e os gastos sociais
A discussão sobre as prioridades de um eventual governo Flávio Bolsonaro ganhou novos contornos em outubro de 2026. Reportagem da Folha de S.Paulo revelou que integrantes de sua equipe econômica estudam um pacote de ajuste fiscal de aproximadamente R$ 250 bilhões, equivalente a cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB).
Entre as medidas examinadas estão limitar os reajustes das aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) à inflação, retirando desses pagamentos os aumentos reais vinculados ao salário mínimo, e alterar os pisos constitucionais de saúde e educação.
Hoje, os recursos mínimos destinados a essas duas áreas estão vinculados à arrecadação federal. A mudança em discussão substituiria essa regra por correções baseadas na inflação, impedindo que os investimentos mínimos acompanhassem automaticamente o crescimento das receitas públicas.
O efeito seria especialmente desastroso para a população que depende do SUS, da escola pública e dos benefícios previdenciários e assistenciais. Mesmo sem cortes nominais imediatos, a limitação do crescimento das despesas poderia reduzir a capacidade de ampliar serviços e melhorar os benefícios ao longo dos anos.
Uma questão fundamental permanece sem resposta: como economizar R$ 250 bilhões sem comprometer o financiamento de serviços e benefícios essenciais? A resposta exige demonstrar quais despesas seriam reduzidas, quanto cada medida economizaria e quais garantias impediriam que a população de menor renda fosse atingida.
A preocupação não se limita ao valor do ajuste. Envolve a distribuição de seus custos. Quando se discutem mudanças nas regras da Previdência, do BPC, da saúde e da educação, estão em jogo recursos que sustentam diretamente a vida de milhões de famílias.
Entre as promessas econômicas e a realidade dos trabalhadores
A candidatura de Flávio Bolsonaro recebe apoio de setores empresariais e financeiros interessados em maior contenção das despesas públicas, redução da dívida e mudanças na atuação do Estado.
Essas prioridades podem produzir efeitos positivos sobre indicadores econômicos, mas não garantem melhores condições de vida para a sociedade em geral. A redução dos gastos públicos também pode ter consequências graves sobre serviços essenciais e sobre a renda de quem depende de benefícios sociais.
É justamente essa distância entre os indicadores financeiros e o cotidiano das famílias que precisa ocupar o centro do debate.
Para quem vive com um salário mínimo, a aposentadoria não é apenas uma despesa no Orçamento da União. É o dinheiro usado para comprar comida e pagar contas. Para uma família que depende da rede pública, os recursos destinados à saúde representam consultas, exames, medicamentos e atendimento hospitalar. Na educação, significam escolas, professores, alimentação escolar e oportunidades para os filhos.
A experiência de 2019 a 2022 evidencia como essas condições podem se deteriorar quando a renda perde valor diante da inflação.
Um programa econômico que promete equilíbrio fiscal precisa garantir que não vai transferir o peso desse equilíbrio justamente para as famílias com menor capacidade de suportá-lo. Também precisa explicar como pretende combater privilégios e despesas ineficientes sem reduzir a proteção oferecida aos mais vulneráveis.
O Brasil que não pode ser esquecido
No Natal de 2022, a aposentada Jaci Maria de Jesus, de 62 anos, moradora do Campo Limpo, na periferia de São Paulo, precisou substituir o peru por frango assado e reduzir a comemoração familiar. A cebola estava custando R$ 10,90 o quilo nos mercados da região.
No Jardim Ângela, Dilza Moreira Dantas, de 57 anos, desempregada desde a pandemia, percorria vários supermercados em busca de promoções. Segundo seu relato, o quilo do pé de galinha, que antes custava R$ 2, havia chegado a R$ 9,90.
A monitora escolar Mara Rubio, de 40 anos, desistiu de organizar a ceia de Natal em casa. Com os alimentos caros, decidiu passar a data na residência de parentes, acompanhada do filho.
Essas histórias representam uma parte da memória econômica do país que não pode desaparecer do debate público.
Flávio Bolsonaro já declarou diversas vezes que seguirá o mesmo projeto econômico do governo de seu pai. Assim, a discussão sobre o ajuste fiscal acrescenta uma preocupação concreta: o futuro dos recursos destinados à população que mais depende dos serviços públicos.
O país conhece o custo humano de uma crise em que famílias precisam escolher entre comprar carne, pagar o gás ou manter a luz acesa. Também conhece a dificuldade dos pequenos comerciantes quando os preços aumentam e os clientes deixam de consumir.
Por isso, não adianta promessas de austeridade, eficiência e crescimento. É necessário saber quem se beneficiará das mudanças, quem assumirá seus custos e quais garantias existirão para proteger a renda, o emprego e os serviços essenciais.
Nada disso foi esclarecido pelo senador agora candidato. É como se Flavio exigisse uma carta branca do eleitor para cortar onde quiser.
Entre 2019 e 2022, milhões de brasileiros enfrentaram fome, carestia e perda do poder de compra. As propostas econômicas em discussão para 2027 recolocam uma pergunta decisiva: quem pagará a conta do ajuste?
A resposta não pode ser encontrada apenas nos números do mercado financeiro. Ela precisa considerar a realidade de quem trabalha, depende da aposentadoria, utiliza os serviços públicos e já sabe o que significa chegar ao fim do mês sem dinheiro suficiente para viver.