Cury fica em silêncio, Kassab libera bancadas, Renan rejeita Flávio e Zema anuncia apoio: como os outros candidatos entram no segundo turno
Com quase 9 milhões de votos somados entre Cury, Renan Santos e Caiado, além dos votos de Zema e dos demais candidatos, os presidenciáveis derrotados passam a ser observados pela capacidade de influenciar suas bases na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro
Com a definição do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), as atenções se voltam agora para os candidatos que ficaram pelo caminho e para o destino de seus eleitores.
Juntos, Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado somaram cerca de 8,7 milhões de votos, enquanto Romeu Zema acrescentou mais de 326 mil. Os demais candidatos também reuniram aproximadamente 260 mil votos.
Os números ainda estavam em atualização na noite deste domingo, mas já dão a dimensão do eleitorado que não escolheu nenhum dos dois finalistas no primeiro turno.
A posição de cada candidato, entretanto, é diferente.
Augusto Cury decide pelo silêncio
O escritor Augusto Cury (Avante), que terminou o primeiro turno com cerca de 3,45 milhões de votos, decidiu não declarar apoio a Lula nem a Flávio Bolsonaro.
Em pronunciamento neste domingo, Cury afirmou que vai se manter em silêncio em relação à disputa do segundo turno.
“Eu me silencio completamente em relação àqueles que estarão no segundo turno”, afirmou.
Cury também disse que os dois candidatos poderão aproveitar as propostas apresentadas por sua campanha durante o primeiro turno.
A decisão coloca o candidato em uma posição de neutralidade formal, embora seus quase 3,5 milhões de votos tenham peso relevante na composição do segundo turno.
Kassab deixa bancadas e diretórios livres
No PSD, a decisão foi diferente.
O presidente nacional do partido, Gilberto Kassab, anunciou que a legenda adotará neutralidade no segundo turno e deixará diretórios estaduais, parlamentares e lideranças livres para escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro.
A decisão significa que não haverá uma orientação nacional obrigatória para os integrantes do PSD.
Kassab havia acompanhado Ronaldo Caiado durante a votação do primeiro turno e, depois da apuração, manteve a posição de não fechar apoio partidário a nenhum dos dois finalistas.
Caiado termina com mais de 2,6 milhões de votos e conversa com Kassab antes de decidir
Ronaldo Caiado (PSD) terminou a disputa com aproximadamente 2,6 milhões de votos, ficando na quinta colocação.
Após o resultado, Caiado afirmou que pretende conversar com Kassab antes de anunciar qualquer posicionamento sobre o segundo turno.
“Neste momento, vou guardar a minha coerência, mas jamais vou me pronunciar sem antes estar reunido com o presidente do meu partido, Kassab”, afirmou.
Durante a campanha, Caiado apresentou-se como uma alternativa ao confronto direto entre petismo e bolsonarismo. Depois de votar em Nova Crixás (GO), afirmou ter encerrado o primeiro turno com a sensação de missão cumprida e destacou uma campanha que classificou como “de mãos limpas”.
A decisão de Kassab de liberar as bancadas, portanto, abre espaço para que o próprio Caiado defina sua posição independentemente de uma orientação nacional do PSD.
Renan Santos mantém distância de Flávio Bolsonaro
O caso de Renan Santos (Missão) é diferente.
Renan terminou o primeiro turno com aproximadamente 2,67 milhões de votos e construiu durante a campanha uma posição crítica tanto em relação a Lula quanto a Flávio Bolsonaro.
Em entrevista ao UOL/Folha, Renan afirmou que não apoiaria Flávio em um eventual segundo turno e fez críticas duras ao candidato do PL.
Mais recentemente, também circulou nas redes sociais uma informação falsa de que Renan teria declarado apoio a Lula. A checagem do UOL Confere apontou que isso não aconteceu: Renan manteve sua posição de não apoiar nenhum dos dois candidatos e afirmou que votaria nele próprio nos dois turnos.
Assim, entre os candidatos que terminaram o primeiro turno com votação relevante, Renan é um dos que apresenta maior resistência declarada a uma adesão automática a Flávio.
Zema caminha para o apoio a Flávio
O candidato do Novo, Romeu Zema, terminou o primeiro turno com aproximadamente 326 mil votos.
Diferentemente de Cury, Caiado e Renan, Zema já havia sinalizado durante a campanha uma aproximação com o campo de Flávio Bolsonaro.
Candidatos do Novo chegaram a declarar apoio a Flávio ainda no primeiro turno com autorização de Zema.
Após o encerramento da votação, a expectativa era de que Zema formalizasse o apoio a Flávio para o segundo turno.
A posição de Zema, portanto, tende a colocar parte do eleitorado do Novo no campo do candidato do PL, embora voto de candidato derrotado não seja automaticamente transferido para outro concorrente.
E os demais candidatos?
Os outros nomes da disputa tiveram votações bem menores.
Samara Martins (UP) terminou com cerca de 123 mil votos. Hertz Dias (PSTU) ficou na faixa de 43 mil, enquanto Clariana Barão (DC) teve aproximadamente 40 mil.
Edmilson Costa (PCB) recebeu pouco mais de 22 mil votos, Wilson Grassi (Democrata) cerca de 17 mil, e Rui Costa Pimenta (PCO) aproximadamente 15 mil votos.
Esses candidatos, individualmente, têm uma quantidade menor de votos, mas representam correntes políticas bastante distintas. Por isso, eventuais manifestações de apoio no segundo turno deverão ser analisadas principalmente pelo conteúdo político de cada candidatura, e não apenas pela quantidade de votos.
O que está em jogo agora
A primeira fotografia do segundo turno mostra, portanto, cinco comportamentos diferentes entre os principais candidatos derrotados:
- Augusto Cury: não apoia nenhum dos dois e decidiu permanecer em silêncio;
- Gilberto Kassab/PSD: neutralidade partidária e liberdade para bancadas e diretórios;
- Ronaldo Caiado: ainda não definiu apoio e pretende conversar com Kassab;
- Renan Santos: mantém posição contrária a Flávio e não declarou apoio a Lula;
- Romeu Zema: caminha para o apoio a Flávio Bolsonaro.
A soma dos votos desses candidatos ultrapassa 9 milhões, mas isso não significa que esse eleitorado esteja politicamente agrupado.
A própria pesquisa Datafolha divulgada na véspera da votação mostrava comportamentos diferentes entre os eleitores dos candidatos: entre os eleitores de Cury, 39% diziam preferir Flávio no segundo turno e 30% Lula; entre os de Caiado, eram 44% e 27%, respectivamente; e entre os de Renan, 51% e 19%.
O levantamento também registrava parcelas relevantes de branco/nulo nesses grupos.
O segundo turno, marcado para 25 de outubro, começa assim com uma questão central: quanto das bases dos candidatos derrotados seguirá as orientações de seus antigos candidatos e quanto fará uma escolha independente entre Lula e Flávio Bolsonaro.