O Radar Brasileiro recebeu informações sobre uma possível articulação envolvendo prefeitos de cidades do Nordeste para dificultar a oferta de transporte público gratuito no fim de semana do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro de 2026.
Segundo os relatos recebidos pela reportagem, a mobilização envolveria integrantes da base política do Partido Liberal (PL) e poderia comprometer o deslocamento de eleitores até os locais de votação. A ordem teria partido da base central da campanha do candidato Flávio Bolsonaro, em São Paulo.
O Radar Brasileiro conseguiu a informação de que no dia 11 de outubro Flávio Bolsonaro se reuniu com prefeitos e vereadores da grande São Paulo. E que, está mesma reunião se estendeu de forma on-line com prefeitos das bases do Nordeste do País. A ordem da cúpula do PL foi disparada para toda base aliada.
De acordo com as informações que chegaram ao Radar Brasileiro, prefeitos teriam recebido sinal verde de integrantes da legenda para alegar problemas mecânicos em ônibus e vans ou atribuir a redução dos serviços a uma possível greve de motoristas.
A reportagem também recebeu relatos sobre atrasos de condutores em municípios de pequeno porte, situação que, caso se repita no dia da eleição e comprometa a oferta de transporte, poderá prejudicar o acesso da população às urnas.

Transporte gratuito é obrigação prevista nas regras eleitorais
A legislação eleitoral estabelece que o poder público deve assegurar transporte coletivo urbano gratuito nos dias de votação, com frequência compatível com a praticada nos dias úteis. A garantia vale para o primeiro e o segundo turno e deve atender os eleitores sem distinção partidária.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esclareceu que a redução injustificada da oferta habitual de transporte público no dia da eleição pode configurar crime eleitoral. A regra está prevista no artigo 88 da Resolução nº 23.759/2026, que também determina que a gratuidade seja oferecida sem discriminação entre eleitores.
A norma é clara: o transporte deve funcionar para todos, independentemente de preferência política. Uma eventual estratégia para reduzir deliberadamente a circulação de ônibus ou vans com a finalidade de dificultar o comparecimento de determinados grupos de eleitores poderá motivar investigação e responsabilização dos envolvidos, conforme as circunstâncias e as provas reunidas.
A orientação oficial pode ser consultada no Manual do Eleitor publicado pelo TSE.
Falhas em ônibus e atrasos de motoristas entram no radar
Um dos pontos que a reportagem busca esclarecer é a possibilidade de problemas operacionais serem utilizados como justificativa para a redução do serviço durante o fim de semana eleitoral.
As informações recebidas pelo Radar Brasileiro mencionam duas hipóteses: a alegação de defeitos mecânicos em veículos e a possibilidade de paralisações ou atrasos de motoristas.
Em cidades menores, nas quais a população pode depender de poucas linhas ou de um número reduzido de veículos, a interrupção de viagens pode representar um obstáculo significativo para quem precisa chegar à seção eleitoral.
Em 2022 aconteceu situação semelhante
Alexandre de Moraes proibiu operações da PRF relacionadas ao transporte de eleitores. Na véspera da votação, em 29 de outubro de 2022, o então presidente do TSE determinou que a PRF não realizasse operações relacionadas ao transporte de eleitores até o encerramento do segundo turno.
As fiscalizações continuaram e houve denúncias de atrasos. Reportagens documentaram centenas de fiscalizações de ônibus, com concentração expressiva no Nordeste. A atuação da PRF foi investigada sob suspeita de uso político da estrutura pública.
Houve investigações e responsabilização judicial. As investigações sobre a atuação de integrantes do governo Bolsonaro e da PRF avançaram nos anos seguintes. Em 2025, o STF condenou Silvinei Vasques e Anderson Torres por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado, entre outros desdobramentos do caso.
Suspeita de prejuízo ao eleitorado de Lula
A principal suspeita relatada ao veículo é a de que uma eventual redução do transporte teria como efeito dificultar o deslocamento de eleitores que apoiam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), especialmente em municípios nordestinos.
A gratuidade e a regularidade do transporte não podem ser condicionadas à preferência eleitoral dos passageiros, e a apuração deverá verificar se houve orientação política, execução coordenada ou alguma tentativa de selecionar quem teria acesso ao serviço.
1º Turno sem transporte em Caruaru, Garanhuns e Petrolina
Uma representação apresentada à Procuradoria Regional Eleitoral apontou falhas na oferta de transporte público gratuito durante o primeiro turno das eleições de 4 de outubro de 2026, em Pernambuco. Segundo a denúncia, o sistema metropolitano operou com 1.308 ônibus, menos da metade da frota habitual de aproximadamente 3 mil veículos, além de falhas na divulgação de linhas e horários.
A representação também cita dificuldades relacionadas à cobertura da gratuidade no interior, mencionando municípios como Caruaru, Garanhuns e Petrolina. A entidade denunciante afirma ainda que milhares de eleitores podem ter sido prejudicados pela insuficiência do serviço. As alegações, porém, não comprovam que as falhas tenham sido provocadas deliberadamente ou coordenadas por grupos políticos.
O episódio reforça a necessidade de fiscalização sobre a oferta de transporte nas eleições, para garantir que todos os eleitores possam chegar às urnas sem obstáculos.
Radar Brasileiro acompanhará a apuração
A denúncia exige investigação e transparência, sobretudo porque o acesso ao local de votação é condição essencial para o exercício do direito ao voto.
Caso sejam identificados indícios concretos de redução deliberada do transporte público para impedir ou dificultar o comparecimento dos eleitores, os fatos poderão ser encaminhados ao Ministério Público Eleitoral e à Justiça Eleitoral para análise.
O Radar Brasileiro continuará apurando a possível articulação da base da cúpula do candidato Flávio Bolsonaro.