O Brasil registra uma onda de mobilizações em defesa da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e contra a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
Neste domingo (11), a programação anunciada pelo PT prevê 145 atos em 72 cidades, distribuídas por todos os estados brasileiros, segundo informações publicadas pela Rádio Itatiaia. A mobilização ocorre a duas semanas do segundo turno, marcado para 25 de outubro.
A movimentação contrasta com a estratégia de Flávio, que cumpre compromissos com prefeitos, vereadores e lideranças políticas. Do outro lado, estudantes, sindicatos, movimentos sociais e apoiadores de Lula buscam ampliar a presença nas ruas e transformar a disputa eleitoral em um debate sobre democracia, direitos sociais, educação pública, soberania nacional e condições de vida dos trabalhadores.
ESTUDANTES E TRABALHADORES OCUPAM AS RUAS
A mobilização não começou neste domingo. Desde 7 de outubro, manifestações vêm sendo realizadas em diferentes regiões do país. No Rio de Janeiro, milhares de pessoas participaram de uma caminhada pelo centro da cidade, com palavras de ordem contra a possibilidade de um novo governo da família Bolsonaro.
Na quinta-feira (8), houve atos em pelo menos 13 estados e no Distrito Federal. Estudantes se reuniram em universidades, praças e espaços públicos para defender a educação pública, a democracia e a manutenção de direitos sociais. A União Nacional dos Estudantes (UNE) convocou as manifestações e declarou apoio a Lula no segundo turno.
As mobilizações também chegaram a estados como Bahia, Minas Gerais, Paraná, Ceará, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Sul, Paraíba, Amapá, Sergipe, Tocantins e Mato Grosso do Sul. A agenda inclui assembleias, plenárias e outras atividades organizadas por entidades estudantis e movimentos sociais.
A dimensão nacional desses atos mostra que a disputa não se limita aos eventos organizados pelas campanhas oficiais. Há uma mobilização de setores da sociedade que procuram influenciar o debate eleitoral a partir de suas próprias pautas e preocupações.
A IMPRENSA ESTÁ DANDO O TAMANHO QUE OS ATOS MERECEM?
A cobertura jornalística dessas manifestações merece ser examinada com atenção. Enquanto agendas, declarações e articulações de candidatos recebem espaço no noticiário eleitoral, a dimensão dos atos populares também precisa ser apresentada ao público com informações sobre participantes, cidades, reivindicações e organização.
Não basta registrar a existência de uma manifestação. É necessário informar onde aconteceu, quem participou, quais bandeiras foram levantadas e qual é a dimensão real da mobilização.
Quando protestos realizados em dezenas de cidades não recebem destaque proporcional à sua abrangência, o eleitor perde informações importantes para compreender o cenário político.
A acusação de que veículos de comunicação estariam deliberadamente omitindo os atos para beneficiar Flávio Bolsonaro, entretanto, exige uma comparação sistemática entre a cobertura dos diferentes candidatos e das manifestações.
Há, contudo, uma questão legítima a ser investigada: se o espaço editorial concedido às mobilizações populares corresponde à dimensão dos acontecimentos.
O QUE ESTÁ EM JOGO NO SEGUNDO TURNO
Os manifestantes levantam bandeiras que vão além do apoio eleitoral a Lula. Entre as pautas estão a defesa da universidade pública, o fim da escala 6×1, a preservação de direitos trabalhistas e a resistência ao avanço da extrema direita.
Parte das críticas a Flávio Bolsonaro está relacionada às propostas de ajuste fiscal e redução de gastos públicos defendidas pelo candidato. Para os setores mobilizados, é necessário esclarecer como eventuais cortes afetariam políticas sociais, serviços públicos e a vida dos trabalhadores.
O debate também envolve a memória do governo Jair Bolsonaro, especialmente a pandemia de Covid-19, os cortes na educação e os conflitos com instituições democráticas.
Os atos expressam o receio de manifestantes de que a eleição do filho do ex-presidente represente a continuidade dessa orientação política.
Flávio, por sua vez, tenta consolidar o apoio do campo conservador e ampliar sua base eleitoral. A disputa entre os dois candidatos entra, assim, em uma fase decisiva, na qual a capacidade de mobilização nas ruas e a comunicação com eleitores indecisos podem ganhar importância.
O ELEITOR TEM DIREITO À INFORMAÇÃO COMPLETA
A democracia exige que manifestações de diferentes posições políticas sejam noticiadas com critérios jornalísticos consistentes. O tamanho dos atos, a presença de participantes, as reivindicações e as consequências políticas devem ser apurados sem que a preferência editorial de um veículo substitua os fatos.
Se 145 atos estão previstos em 72 cidades, essa dimensão merece ser conhecida pelo público. Cabe à imprensa verificar os números, acompanhar as manifestações e ouvir organizadores, participantes, especialistas e representantes das campanhas.
O desafio do jornalismo não é proteger candidatos nem esconder mobilizações que contrariem interesses políticos. É permitir que a sociedade conheça o que acontece no país e tire suas próprias conclusões.
Ignorar a força de uma mobilização seria um erro jornalístico; O eleitor brasileiro tem direito a uma cobertura ampla, equilibrada e transparente.