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COINCIDÊNCIA, NÉ? KÁSSIO NUNES MARQUES QUER TIRAR BOLSONARO DA CADEIA

Política

Ministro avalia libertar Jair Bolsonaro após o segundo turno por meio de liminar; decisão beneficia diretamente o político responsável por sua indicação e interessa ao projeto de Flávio Bolsonaro.

Kassio Nunes Marques está adotando uma postura que levanta uma grave acusação de parcialidade ao se preparar para analisar, logo depois do segundo turno, um pedido que pode devolver a liberdade a Jair Bolsonaro — justamente o ex-presidente que o indicou para o Supremo Tribunal Federal.

Não se trata de uma decisão qualquer.

Kassio chegou ao STF por escolha de Bolsonaro. Agora, segundo a apuração acompanhada pelo Radar Brasileiro, o ministro avalia conceder uma liminar para libertar o ex-presidente, condenado a 27 anos e três meses de prisão pela trama golpista.

O homem que indicou Kassio ao STF pode ser beneficiado diretamente por uma decisão do ministro.

E isso precisa ser dito com todas as letras: a circunstância coloca a imparcialidade de Kassio sob questionamento público.

A coincidência que ninguém pode fingir que não existe

Kassio Nunes Marques foi indicado por Jair Bolsonaro em 2020. Agora, o ministro poderá decidir justamente sobre a liberdade de seu antigo padrinho político.

E o momento da decisão não poderia ser mais significativo.

A intenção relatada é julgar o pedido logo depois do segundo turno. Kassio ainda avalia a possibilidade de uma decisão liminar, embora o cenário mais provável seja que o caso seja levado ao plenário do STF.

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro já declarou que pretende conceder indulto ao pai caso seja eleito presidente. Segundo a apuração, Flávio conta com uma decisão judicial que permita a Bolsonaro estar livre para acompanhá-lo em uma eventual subida da rampa do Palácio do Planalto.

Ou seja, há uma sequência impossível de ignorar:

Bolsonaro indicou Kassio.
Kassio pode decidir sobre a liberdade de Bolsonaro.
Flávio promete indulto ao pai se chegar à Presidência.
E uma eventual decisão de Kassio poderia antecipar esse objetivo.

Isso não é detalhe.

É exatamente o tipo de situação que exige o máximo de independência e transparência de um ministro do Supremo.

Kassio já diz que vê “exageros” na condenação

O quadro fica ainda mais contundente porque, segundo a apuração, Kassio já teria dito a auxiliares que considera que houve “exageros” na condução do processo contra Bolsonaro.

Entre os pontos que o ministro questionaria estão o direito de defesa e o rigor da pena. Ele também teria afirmado que sua decisão poderá provocar uma “comoção nacional”.

É uma posição jurídica que o ministro tem o direito de defender.

Mas é justamente por isso que ela precisa ser examinada com rigor.

Quando o ministro que foi indicado pelo réu passa a defender publicamente, segundo relatos, a existência de excessos no processo que condenou esse mesmo réu e se prepara para analisar um pedido capaz de libertá-lo, a suspeita de parcialidade deixa de ser uma discussão abstrata.

Torna-se uma questão institucional.

E Flávio está esperando

O episódio também se conecta diretamente à campanha presidencial.

Flávio Bolsonaro prometeu conceder indulto ao pai caso seja eleito. O problema é que essa prerrogativa só existiria depois de uma eventual posse.

Antes disso, uma decisão judicial favorável poderia colocar Bolsonaro em liberdade.

Segundo a apuração, o próprio Flávio conta com essa possibilidade para que o pai possa acompanhá-lo na subida da rampa do Planalto.

É impossível afirmar, com base apenas nessas informações, que Kassio esteja recebendo ordens de Flávio. Só que as evidências mostram isso.

Mas é perfeitamente legítimo questionar por que uma decisão judicial de Kassio produziria exatamente o resultado político que interessa ao projeto de Flávio.

E é obrigação do Supremo responder a essa dúvida com fundamentos jurídicos, não com silêncio.

O Supremo não pode ser tratado como extensão de projeto familiar

Kassio Nunes Marques não recebeu uma cadeira no STF para defender Jair Bolsonaro.

Recebeu para exercer a magistratura.

A indicação presidencial termina quando o ministro toma posse. A partir dali, sua obrigação é com a Constituição, com as leis e com a independência do Judiciário.

Por isso, se Kassio decidir libertar Bolsonaro, terá de explicar detalhadamente por que uma condenação de 27 anos e três meses deve ser suspensa e quais elementos jurídicos justificam uma medida liminar.

A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, defendeu a manutenção da condenação e afirmou que ela foi baseada em um “vigoroso conjunto probatório”.

Não basta dizer que houve “exageros”.

É preciso demonstrá-los.

Não basta alegar prejuízo à defesa.

É preciso apontar concretamente onde ocorreu a violação.

Não basta questionar o rigor da pena.

É preciso explicar juridicamente por que a pena deveria ser revista.

A questão não é Bolsonaro ter direito de recorrer

Bolsonaro tem direito de recorrer e apresentar sua defesa.

O problema é outro.

Quem deve decidir?

E, principalmente:

Em quais circunstâncias?

Os fatos já são suficientemente graves para justificar o questionamento.

Kassio precisa provar que a decisão é jurídica — e não política

Se Kassio Nunes Marques decidir pela liberdade de Bolsonaro, sua decisão será inevitavelmente examinada à luz de sua história com o ex-presidente.

E quanto mais favorável for a decisão, maior será a cobrança para que seus fundamentos sejam incontestáveis.

O Supremo não pode depender da confiança cega da população.

Precisa demonstrar que suas decisões são tomadas sem amizade, gratidão, pressão política ou interesses eleitorais.

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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