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EXCLUSIVO: DINHEIRO VIVO NAS CAMPANHAS DE FLÁVIO E TARCÍSIO TEM CHEIRO E RASTRO

Política

O Radar Brasileiro descobriu o esquema de pagamento em dinheiro vivo por meio de um integrante da campanha dos dois candidatos, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Dinheiro vivo e silêncio: denúncia aponta pagamentos semanais em espécie nas campanhas de Flávio e Tarcísio. Engajadores relatam entrega de dinheiro em hotel no Morumbi, dizem ter sido desencorajados a emitir nota fiscal e citam suposto “caixa 2”; pagamentos seriam coordenados por integrantes ligados à equipe de Duda Lima.

Uma denúncia recebida pelo Radar Brasileiro aponta para um esquema de pagamentos semanais em dinheiro vivo a pessoas contratadas para atuar como engajadores das redes sociais das campanhas de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, e Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição ao Governo de São Paulo.

Segundo os relatos encaminhados à reportagem, os pagamentos ocorrem todas as sextas-feiras, no final do dia, em um hotel da rede Ibis localizado na região do Morumbi, em São Paulo.

Outros relatos apontam para pagamentos que teriam ocorrido nas instalações da F.A.R.O. Propaganda e Publicidade e da RP Propaganda, empresas ligadas ao publicitário Eduardo Rodrigues de Lima, conhecido como Duda Lima.

Filial F.a.r.o Propaganda e Publicidade LTDA – R. Dep. Euvaldo Lodi, 145 – Retiro Morumbi
Informações Cadastrais
  • CNPJ: 09.383.641/0003-09 (Esta unidade é uma filial; a matriz fica em São José dos Campos/SP)

  • Situação: Ativa

  • Capital Social: R$ 500.000,00

  • Atividade Principal: Produção cinematográfica, de vídeos e de programas de televisão

Contato

  • Telefone: (11) 2500-0193

Entre as imagens enviadas ao Radar Brasileiro há fotografias que mostram dinheiro em espécie, enquanto mensagens atribuídas a pessoas que trabalham na estrutura digital das campanhas descrevem a forma de pagamento e levantam a suspeita de que os recursos não seriam contabilizados oficialmente na campanha.

Segundo um coordenador de mídia da campanha de Flávio Bolsonaro,  os pagamentos seriam coordenados por uma pessoa ligada à estrutura de campanha de Duda Lima, marqueteiro que assumiu a comunicação da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro no fim de julho.

A ligação entre Duda Lima e a campanha de Flávio é pública. O publicitário foi anunciado como responsável pela comunicação do candidato e sua empresa, a F.A.R.O. Propaganda e Publicidade, aparece entre os principais fornecedores da campanha.

Segundo dados divulgados a partir da prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral, a empresa recebeu mais de 13 milhões de reais (R$ 13.100.000) da estrutura eleitoral de Flávio. No dia 2 de setembro o valor total da F.A.R.O. já havia chegado a R$ 15,6 milhões, mostrando que os números mudam conforme novos lançamentos são feitos.

“Campanha FlávioTarcísio S/NF”

Um print apresentado ao Radar Brasileiro mostra um grupo de WhatsApp identificado como “Campanha FlávioTarcisio S/NF”, segundo os denunciantes.

De acordo com os relatos, o grupo reúne pessoas envolvidas na atuação digital das duas campanhas e teria relação justamente com a dificuldade de formalização dos pagamentos.

As fontes dizem que, quando questionavam sobre a possibilidade de receber como prestadores de serviço, por meio de MEI ou CNPJ, eram informadas de que não deveriam emitir nota fiscal.

Uma das pessoas que procurou o Radar Brasileiro resumiu a situação da seguinte maneira:

“Vem numa sacola preta. Daí tem um envelope pardo, com o dinheiro contado. A gente confere e guarda. Eu tenho consciência tranquila que eu trabalhei pra receber. Agora, se é de Caixa 2, de onde vem, deixa o problema pra eles. Eu quis emitir nota. E a **** falou que o ‘esquema’ é assim mesmo.”, disse uma das fontes com quem o Radar Brasileiro conversou.

A declaração, segundo a fonte, foi dada depois de uma tentativa de formalizar a prestação de serviços.

O Radar Brasileiro preserva a identidade da pessoa que fez o relato e também da funcionária identificada apenas pela inicial, por receio de retaliações profissionais ou peserseguição.

Dinheiro entregue em espécie

Os relatos descrevem uma rotina que, caso confirmada, chama atenção por fugir do padrão de rastreabilidade exigido para as despesas eleitorais.

Segundo as pessoas ouvidas, o pagamento seria realizado presencialmente e em dinheiro vivo. Os valores seriam entregues individualmente aos colaboradores que atuam na mobilização e no engajamento de conteúdos nas redes sociais.

Os pagamentos se estendem da mesma forma aos fotógrafos, auxiliares de produção, equipe de cerimonial, ajudantes de estúdio, camareira e copeira.

A frequência relatada é semanal: sexta-feira, no fim do expediente.

Há ainda um detalhe que aparece de forma recorrente nos depoimentos: trabalhadores que não possuem carro ou motocicleta precisariam retornar para casa utilizando transporte público depois de receber o dinheiro.

Segundo os relatos encaminhados à reportagem, alguns escondem as cédulas dentro das roupas ou em outras partes do corpo durante o deslocamento.

O que diz a legislação eleitoral

A legislação eleitoral determina saber a origem do recurso, a forma de pagamento e a contabilização da despesa.

A Resolução TSE nº 23.607 determina que gastos eleitorais de natureza financeira sejam, como regra, realizados por cheque nominal cruzado, transferência bancária identificada, débito em conta, cartão de débito ou Pix.

Existe uma exceção para pequenos gastos: a campanha pode constituir um Fundo de Caixa, mas o saldo máximo deve corresponder a 2% dos gastos contratados, os recursos precisam ter passado previamente pela conta bancária específica da campanha e o saque deve ser realizado mediante cartão de débito ou cheque nominativo.

Além disso, cada despesa individual de pequeno vulto não pode ultrapassar meio salário mínimo, sem possibilidade de fracionamento.

A própria resolução estabelece que a remuneração ou gratificação de qualquer espécie paga a quem presta serviço à candidatura é gasto eleitoral.

Também determina que as despesas com pessoal sejam detalhadas, incluindo a identificação das pessoas contratadas, locais de trabalho, horas trabalhadas, atividade executada e justificativa do preço.

Suspeita de caixa 2

A principal suspeita apresentada pelas fontes é de que o dinheiro entregue aos engajadores não passaria pela contabilidade oficial das campanhas.

O chamado caixa 2 eleitoral, em termos gerais, corresponde à utilização de recursos ou realização de despesas de campanha que não são devidamente registrados na prestação de contas.

A regulamentação do TSE determina que recursos de origem não identificada não podem ser utilizados por candidatos ou partidos e devem ser recolhidos ao Tesouro Nacional.

As contas oficiais das campanhas

O TSE disponibilizou em setembro os dados da prestação de contas parcial das eleições de 2026, incluindo receitas, despesas e movimentações declaradas pelas candidaturas. O banco de dados oficial também reúne documentos fiscais e extratos bancários das campanhas.

No caso de Tarcísio, os dados disponíveis até o fim de setembro indicavam aproximadamente R$ 25 milhões em despesas contratadas, com cerca de R$ 18,7 milhões já pagos. Serviços de terceiros representavam aproximadamente R$ 10,2 milhões da despesa contratada.

A campanha de Flávio, por sua vez, também aparece entre as candidaturas que movimentam valores expressivos na eleição presidencial. A F.A.R.O. Propaganda e Publicidade, pertencente a Duda Lima, figura entre os maiores fornecedores declarados, com um pagamento de R$ 13,1 milhões registrado na prestação parcial consultada.

Flávio Bolsonaro e o histórico de movimentações em espécie

O caso também chama atenção por causa do histórico financeiro envolvendo Flávio Bolsonaro.

Reportagens baseadas em documentos de investigações anteriores registraram o uso de dinheiro vivo pelo senador em diferentes situações. Em 2022, o UOL informou que Flávio havia movimentado mais de R$ 3 milhões em espécie, incluindo pagamentos de despesas pessoais, funcionários e impostos.

Em 2020, a Folha de S.Paulo também publicou levantamento sobre a utilização de dinheiro vivo por integrantes da família Bolsonaro em campanhas eleitorais anteriores. Segundo a reportagem, Jair Bolsonaro e seus filhos realizaram doações em espécie para campanhas entre 2008 e 2014. A matéria ressaltou, porém, que transações em espécie, isoladamente, não configuram crime.

Mais recentemente, reportagem da Folha voltou a registrar questões envolvendo dinheiro vivo em operações financeiras de Flávio no período investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. O caso das chamadas “rachadinhas” foi encerrado depois da anulação de provas pelos tribunais superiores, embora reportagens posteriores tenham apontado questões financeiras que permaneceram sem esclarecimento público. Flávio nega irregularidades.

Tarcísio já teve contas de 2022 aprovadas com ressalvas

Também existe um antecedente relacionado à prestação de contas de Tarcísio de Freitas.

Na análise das contas da campanha de 2022, o TRE-SP apontou, entre outras irregularidades, depósitos em espécie em desacordo com a regulamentação eleitoral, além de omissão de despesa e problemas relacionados à comprovação de gastos com publicidade. As contas foram aprovadas com ressalvas, com determinação de recolhimentos ao Tesouro Nacional.

O Radar Brasileiro procurou as duas campanhas e até o fechamento desta reportagem ninguém respondeu aos questionamentos. 

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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