Rodrigo Constantino parece não ter conseguido aceitar o resultado das urnas na Bahia. Em vez de fazer uma crítica política aos governos ou aos candidatos derrotados, o comentarista decidiu atacar uma população inteira.
Após o primeiro turno das eleições, Constantino publicou um vídeo nas redes sociais no qual chamou a Bahia de “câncer do Brasil”, classificou Salvador como “um lixo” e afirmou que os baianos, “com todas as boas exceções”, seriam “uma vergonha para o Brasil”.
Também disse que, durante uma passagem pelo interior do estado, teria visto pessoas em bares durante uma segunda-feira e concluiu: “Ninguém quer trabalhar.”
A fala não ficou restrita à arena política. Ao generalizar o comportamento de milhões de pessoas a partir de experiências pessoais e de sua revolta com o resultado eleitoral, Constantino cruzou uma linha que autoridades agora estão investigando.
Não é crítica política. É ataque a um povo
Não é aceitável é transformar a escolha política de uma população em argumento para desqualificar os próprios cidadãos.
Constantino não se limitou a dizer que discordava do voto dos baianos. Ele atacou a Bahia como território, Salvador como cidade e os baianos como povo.
E há uma diferença enorme entre dizer “discordo do voto dos baianos” e afirmar que milhões de pessoas são uma vergonha, que não querem trabalhar ou que vivem em um suposto estado “câncer” do país.
É justamente essa generalização que colocou o caso no radar das autoridades.
Polícia investiga possível xenofobia
A Polícia Civil da Bahia instaurou procedimento para apurar as circunstâncias e eventuais responsabilidades relacionadas às declarações. O caso é tratado como possível xenofobia, e as diligências estão sob sigilo.
O Ministério Público da Bahia também anunciou uma força-tarefa para apurar possíveis crimes de xenofobia relacionados ao período eleitoral, incluindo manifestações feitas nas redes sociais.
Nesta quarta-feira (7), a OAB da Bahia foi além e apresentou notícia-crime à Polícia Federal contra Constantino. A entidade pediu a apuração de possível prática de discriminação contra a população baiana e citou, em tese, o artigo 20, § 2º, da Lei nº 7.716/1989.
Ou seja: aquilo que Constantino pode tentar vender como “opinião” já está sendo analisado pelas instituições responsáveis por investigar possíveis crimes.
Quando o preconceito vira desculpa para a derrota
As declarações vieram depois do resultado eleitoral na Bahia, onde Luiz Inácio Lula da Silva teve maioria dos votos. Constantino também direcionou críticas ao governador Jerônimo Rodrigues e aos senadores Jaques Wagner e Rui Costa, todos ligados ao campo político que ele combate.
A sequência é emblemática: perde politicamente, não aceita a escolha dos eleitores e passa a atacar o lugar e as pessoas que fizeram aquela escolha.
É uma velha tentativa de transformar o eleitor em inimigo.
Se o eleitor não vota como determinado grupo político gostaria, deixa de ser cidadão com direito a uma escolha e passa a ser tratado como ignorante, preguiçoso, inferior ou responsável pelos problemas do país.
Isso não é debate democrático. É desprezo pela democracia.
E depois vem a tentativa de recuar
Com a repercussão negativa e a investigação policial, Constantino passou a tentar explicar as próprias palavras.
Em nova manifestação, afirmou que não teria dito que a Bahia era um lixo, mas que Salvador seria um lixo, fazendo comparação com outras cidades. Também tentou apresentar a expressão “câncer do Brasil” como uma crítica política ao PT e disse estar protegido pela Primeira Emenda dos Estados Unidos.
O problema é que a gravação existe.
E não há malabarismo retórico capaz de apagar o que foi dito.
Se a intenção era criticar o PT, bastaria atacar o PT. Se a intenção era criticar Jerônimo, Wagner ou Rui Costa, bastaria criticar Jerônimo, Wagner ou Rui Costa.
Mas Constantino escolheu outra coisa: generalizar.
Escolheu colocar milhões de baianos no mesmo saco e associá-los a uma caricatura de preguiça, incompetência e vergonha.
A Bahia não precisa aceitar o preconceito de ninguém
A Bahia é muito maior do que o resultado de uma eleição e infinitamente maior do que a opinião de um comentarista político.
São milhões de brasileiros que trabalham, estudam, empreendem, cuidam de suas famílias, produzem cultura, ciência, arte e riqueza.
São trabalhadores rurais, comerciantes, professores, médicos, enfermeiros, policiais, empresários, artistas, pescadores, servidores e milhões de pessoas que levantam todos os dias para construir suas próprias vidas.
Reduzir tudo isso à frase “ninguém quer trabalhar” não é apenas uma análise política ruim. É uma caricatura preconceituosa de uma população inteira.
E talvez seja justamente essa a parte mais grave do episódio: Constantino não demonstrou apenas raiva do voto baiano. Demonstrou uma disposição preocupante de desumanizar quem vota diferente.