A candidatura de Flávio Bolsonaro ganhou um objetivo que vai muito além da disputa pelo Palácio do Planalto: tirar Jair Bolsonaro da prisão.
É essa a questão que passou a ocupar o centro da estratégia do candidato. A eleição deixa de ser apresentada apenas como uma escolha sobre os rumos do Brasil e passa a ser utilizada por Flávio como uma espécie de mandato político para tentar reverter a situação judicial do próprio pai.
O resultado do primeiro turno fortaleceu esse discurso. Flávio terminou a primeira votação à frente de Lula, e a campanha passou a ter nas mãos um argumento político poderoso: milhões de votos foram depositados em uma candidatura que assumiu publicamente o compromisso de buscar uma solução para Jair Bolsonaro.
Flávio pode apresentar o resultado das urnas aos ministros do Supremo como demonstração de que existe uma parcela expressiva do eleitorado que deseja uma mudança na situação de Bolsonaro.
A votação, nesse discurso, deixa de ser apenas um resultado eleitoral e passa a ser utilizada como instrumento de pressão sobre a Corte.
Mas existe uma diferença fundamental entre receber votos e obter autorização constitucional para interferir em uma decisão judicial.
Uma eventual vitória presidencial não significaria que o presidente eleito poderia simplesmente determinar a libertação do pai. Qualquer medida de indulto, anistia ou outro mecanismo jurídico estaria sujeita aos limites constitucionais e, dependendo do caso, à análise do próprio Supremo.
A candidatura e o pai
qual é o projeto de Flávio para o Brasil além da promessa de resolver a situação de Jair Bolsonaro?
A centralidade da questão familiar é evidente na própria estratégia eleitoral.
O candidato transformou a situação do pai em um dos principais elementos de sua campanha. E, ao fazer isso, cria uma conexão direta entre três coisas que deveriam ser analisadas separadamente: a eleição presidencial, o futuro do país e o destino judicial de Jair Bolsonaro.
A lógica política é clara: conquistar a Presidência, construir força no Congresso e utilizar esse capital político para tentar mudar a situação do ex-presidente.
Isso não significa que o eleitor necessariamente enxergue seu voto dessa maneira. Mas é possível identificar na campanha uma prioridade explícita: a promessa de agir em favor de Jair Bolsonaro caso Flávio chegue ao poder.
O primeiro turno como argumento de pressão
É justamente por isso que o resultado de 4 de outubro ganhou importância na estratégia.
Flávio pode dizer: recebi milhões de votos; minha candidatura chegou ao segundo turno; existe uma parcela gigantesca da sociedade que quer mudança.
O problema é transformar esse resultado em argumento para uma questão que pertence também ao campo constitucional.
Voto não substitui decisão judicial
E uma eleição presidencial não transforma automaticamente uma promessa de campanha em ordem para o Supremo.
Fachin e os demais ministros terão de lidar, portanto, não apenas com a disputa jurídica, mas com uma pressão política que tende a crescer durante o segundo turno.
O país em segundo plano?
Uma eleição presidencial deveria responder a perguntas sobre emprego, renda, saúde, educação, segurança, infraestrutura, desenvolvimento econômico, custo de vida e política externa.
Mas, quando o principal compromisso político apresentado é resolver a situação judicial do próprio pai, surge uma questão legítima para o eleitor:
Flávio Bolsonaro quer governar o Brasil ou quer chegar ao poder para tirar Jair Bolsonaro da prisão?