A live de Flávio Bolsonaro realizada na noite de quinta-feira (1º), no mesmo horário em que estava previsto o debate presidencial da TV Globo, ganhou um elemento que vai muito além da disputa eleitoral: o nome do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra foi utilizado entre as palavras-chave associadas à transmissão.
Ao noticiar a morte do coronel, o portal publicou a manchete “Morre Brilhante Ustra, ex-chefe de órgão de repressão na ditadura”. A escolha da palavra “Brilhante”, que fazia parte do nome de Ustra, cria uma dupla interpretação: para quem lê rapidamente, o termo pode soar como um adjetivo, transmitindo a ideia de alguém “brilhante”, excepcional ou admirável.
Mas, quando se olha para a trajetória de Ustra, a ironia é evidente. De “brilhante”, no sentido positivo da palavra, ele não tinha nada.

A informação foi revelada nesta sexta-feira (2) e chamou atenção porque Ustra não é apenas uma figura ligada à ditadura militar. Ele comandou o DOI-Codi de São Paulo entre 1970 e 1974 e foi reconhecido pela Justiça como responsável por práticas de tortura contra integrantes da família Teles.
A Comissão Estadual da Verdade registra que, sob seu comando, ocorreram centenas de casos de tortura e dezenas de mortes no DOI-Codi.
As hashtags ou tags utilizadas no YouTube funcionam como palavras-chave para identificar e contextualizar uma transmissão.
No caso da live de Flávio, Ustra apareceu ao lado de termos como Bolsonaro, Lula, comunismo, direita, esquerda, Dilma, Karl Marx, Rede Globo e Olavo de Carvalho.

A utilização do nome foi apontada publicamente a partir da análise dos metadados da transmissão.
O episódio reacende uma questão histórica que acompanha o campo político ao qual Flávio pertence: a forma como setores do bolsonarismo tratam a memória da ditadura e de seus agentes.
Ustra ganhou notoriedade política depois de ser publicamente elogiado por Jair Bolsonaro. Durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, o então deputado federal dedicou seu voto à memória do coronel.
O peso do nome Ustra
Não se trata de uma figura histórica qualquer.
Segundo documentos das comissões da verdade, Ustra comandou um dos principais centros de repressão política da ditadura em São Paulo.
A Comissão Estadual da Verdade registra pelo menos 502 casos de tortura e mais de 40 assassinatos ocorridos no DOI-Codi sob seu comando. Em 2012, uma decisão judicial de segunda instância reconheceu Ustra como torturador em processo movido pela família Teles.
Por isso, a presença de seu nome nas palavras-chave da transmissão de um candidato à Presidência da República provoca reprovação sobre a mensagem política associada à escolha.
É importante registrar: a utilização da palavra-chave é um fato documentado.
A live aconteceu depois que Flávio desistiu de participar do debate da Globo, após decisões judiciais alterarem as regras originalmente previstas para o programa. Durante a transmissão, o candidato atacou decisões da Justiça Eleitoral e pediu concentração de votos em sua candidatura.
No meio dessa disputa de audiência, entretanto, foi uma palavra aparentemente secundária nos metadados da transmissão que chamou atenção: Ustra.
O nome de um coronel que foi reconhecido judicialmente como torturador acabou associado à comunicação digital de um candidato que disputa a Presidência da República.