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DEBATE DA GLOBO: A HISTÓRIA MOSTRA QUEM ERROU DE VERDADE.

Política

Emissora afirma que decisões judiciais inviabilizaram o confronto de 2026, mas o próprio acervo da Globo mostra que a empresa já tomou decisões unilaterais sobre debates e adotou critérios diferentes em eleições anteriores.

A TV Globo tenta atribuir às decisões judiciais o fracasso do debate presidencial que estava marcado para esta quinta-feira (1º), mas a crise também colocou sob os holofotes um problema que a própria emissora prefere não revisitar: a história dos debates presidenciais da Globo é marcada por decisões editoriais arbitrárias e regras que mudaram de acordo com os interesses eleitorais.

O debate de 2026 acabou cancelado depois de uma sequência de decisões judiciais? NÃO!

Lula foi o primeiro a dizer que não participaria por saber que o debate perderia o foco.

Tiveram decisões judiciais? SIM!

O TSE proibiu a Globo de exibir o púlpito vazio de Luiz Inácio Lula da Silva e também impediu que os demais candidatos simulassem perguntas ao presidente ausente. Partindo pelo princípio da coerência, medida acertada.

Paralelamente, uma decisão do ministro Gilmar Mendes autorizou a participação de Renan Santos, do Missão. Decisão acertada. Antes, o ministro Kássio Nunes Marques, indicado por Bolsonaro e presidente do TSE, negou a participação de Renan Santos no debate da Globo.  Renan Santos era o terceiro da lista de candidatos mais bem cotados pelas pesquisas.

A Globo ignorou isso. Simplesmente de forma arbitrária excluiu Renan Santos do debate. Por quê na Sabatina Renan Santos participou, sabendo que o critério era o mesmo, e no debate não foi chamado?

Romeu Zema também havia sido incluído no debate por decisão judicial. E, Zema tinha muito menos votos. E, a Globo aceitou. Nem questionou. Por quê aceitar Zema e não Renan Santos?

Depois disso, Flávio Bolsonaro desistiu de participar, e a Globo cancelou o programa, alegando que as decisões judiciais haviam alterado as regras previamente estabelecidas.

Flávio Bolsonaro simplesmente ‘desmaiou’ antes debate porque seria engolido por Renan Santos. Seria esmagado com a série de denúncias.

O problema é que a emissora não pode apresentar a Justiça como única responsável por uma situação que possui precedentes envolvendo decisões da própria Globo. A Globo errou, mas ela nunca admite. 

1994: Globo decidiu não fazer o debate

O próprio Memória Globo registra que a emissora decidiu não promover o debate presidencial de 1994.

Naquele ano, a legislação eleitoral determinava que, para haver debate, todos os oito candidatos deveriam ser convidados, com a possibilidade de realização em diferentes dias mediante sorteio ou acordo.

A Globo considerou o mecanismo inadequado e optou por não realizar o debate.

Ou seja: quando as regras eleitorais não atendiam ao formato que a Globo considerava adequado, a emissora simplesmente não realizou o debate.

E há um detalhe político importante daquele episódio: Lula era um dos principais concorrentes de Fernando Henrique Cardoso.

A chance de Lula causar um estrago na candidatura de FHC era altíssimo. A própria documentação histórica da Globo registra que Lula reclamou da ausência de um debate que permitisse ao eleitor comparar os candidatos.

A Globo não realizou o debate porque ela entendeu que seria prejudicial ao FHC.

1998: a história se repetiu

Quatro anos depois, novamente não houve debate presidencial na Globo no primeiro turno.

O próprio acervo da emissora explica que havia 12 candidatos e que a legislação impunha regras para garantir a participação de todos. A Globo considerou inviável o modelo e novamente não realizou o debate.

Dessa vez, Fernando Henrique Cardoso, candidato à reeleição, também se recusou a participar de debates ou a negociar um acordo.

Lula e Ciro Gomes chegaram a defender publicamente a realização do debate e criticaram a ausência de um confronto entre os candidatos.

A narrativa atual de que uma decisão judicial simplesmente “impediu” a Globo de realizar seu debate não é nada acertada. 

E a regra do púlpito e Padre Kelmon?

É justamente aqui que a discussão de 2026 ganha ainda mais força.

A Globo sustentava que a manutenção do púlpito vazio para candidatos ausentes fazia parte das regras previamente acordadas.

Mas essa regra não foi aplicada de maneira uniforme em todas as eleições.

Quando Lula estava concorrendo com todos os outros, a Globo foi lá e tirou o púlpito.

A regra do púlpito vazio teve tratamento diferente em 2018, quando Jair Bolsonaro não participou do debate por estar hospitalizado após o atentado que sofreu durante a campanha.

Em 2022, entretanto, Bolsonaro não deixou de participar do debate da Globo. Ele esteve presente no último debate do primeiro turno, ao lado de Lula, Ciro Gomes, Simone Tebet, Soraya Thronicke, Felipe D’Avila e Padre Kelmon.

Que, por sinal, foi o mais épico dos debates presidenciais. Vou além, foi o melhor de todos os tempos.

O Debate mais engraçado que entrou pra história.

Em outubro de 2018, Jair Bolsonaro não participou do último debate presidencial do primeiro turno realizado pela TV Globo. A justificativa apresentada pela campanha foi médica: após o atentado sofrido em Juiz de Fora, sua equipe médica não teria autorizado a participação no confronto com os demais candidatos.

O detalhe que marcou aquela noite, porém, foi outro: enquanto o debate acontecia na Globo, Bolsonaro estava na TV Record concedendo uma entrevista exclusiva.

Já em outros debates daquele ciclo, quando Lula não compareceu, organizadores chegaram a manter um púlpito vazio para registrar a ausência do petista? Qual a coerência?

Essa diferença é importante porque desmonta uma comparação simplista: não houve, em 2022, um debate da Globo com Bolsonaro ausente equivalente ao episódio de 2026.

A crise de 2026 não pode ser analisada apenas como uma disputa entre a emissora e o Judiciário.

Há responsabilidades distribuídas.

A Justiça tomou decisões que alteraram as condições do debate. Lula decidiu não comparecer de forma antecipada. Flávio Bolsonaro também desistiu aos 49 do segundo tempo. Ficou com medo de ser destruído por Renan Santos. E a Globo, diante da nova configuração, decidiu cancelar o programa por causa de audiência.

O monopólio realmente acabou. E as mídias alternativas venceram esse confronto direto por audiência.

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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