O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, voltou a reconhecer publicamente que houve planejamento para um golpe de Estado no fim do governo Jair Bolsonaro. Na mesma tentativa de golpe havia também o intuito de assassinar o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, o vice, Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes.
A declaração foi dada nesta quarta-feira (7), durante entrevista ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha.
“Discutiram de dar o golpe, mas não deram o golpe. E daí?”, afirmou Valdemar, segundo registros da entrevista.
O dirigente ainda tentou minimizar a gravidade do planejamento, argumentando que planos podem ser elaborados e abandonados posteriormente.
A declaração ganha uma dimensão ainda maior quando Valdemar é questionado sobre o futuro.
Perguntado se poderia garantir que uma articulação semelhante jamais aconteceria em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, a resposta foi:
“Sei lá.”
Na sequência, Valdemar tentou recuar da possibilidade, dizendo que “nunca, jamais” uma nova tentativa seria cogitada. Mas a resposta inicial ficou registrada e provocou repercussão justamente porque veio do presidente do partido que lançou a candidatura de Flávio.
Futuro golpe com Flávio
A declaração coloca uma questão que não pode ser tratada como detalhe de campanha: se houve planejamento para romper a ordem democrática em 2022, quais garantias existem de que isso não voltará a acontecer?
Valdemar não respondeu de maneira categórica quando a pergunta foi colocada em relação a Flávio Bolsonaro. Ao contrário: respondeu “sei lá” antes de tentar afirmar que uma nova articulação jamais aconteceria.
Isso ocorre justamente em um momento em que Flávio Bolsonaro vem defendendo mudanças na Constituição e propostas de alteração na relação entre os Poderes.
O jurista Pedro Serrano, professor da PUC-SP, afirmou que determinadas propostas apresentadas por Flávio, especialmente as relacionadas ao STF, podem representar ameaça ao equilíbrio entre os Poderes e atingir cláusulas pétreas da Constituição.
Essa é uma avaliação jurídica atribuída ao professor, não uma conclusão judicial de que Flávio esteja planejando um golpe.
Valdemar já havia feito a mesma admissão — e depois recuado
Não é a primeira vez que o presidente do PL reconhece a existência de um planejamento golpista.
Em setembro de 2025, Valdemar afirmou que havia ocorrido “planejamento de golpe”, mas posteriormente recuou e disse que havia usado a palavra “planejamento” de forma equivocada, preferindo falar em “movimento”.
Agora, porém, a declaração voltou a ocorrer de forma explícita: Valdemar afirmou que integrantes do grupo bolsonarista discutiram dar um golpe depois da derrota eleitoral de 2022.
O ponto central é que isso não é mais apenas uma discussão abstrata sobre manifestações ou insatisfação política. Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão por crimes que incluem tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
E quando a pergunta chega a Flávio, vem o “sei lá”
É justamente aí que a fala de Valdemar ganha peso político preocupante.
O presidente do PL sabe que o candidato do partido é filho de Jair Bolsonaro e representa a continuidade do grupo político que comandou o país entre 2019 e 2022. Ainda assim, quando perguntado se um novo planejamento semelhante poderia ocorrer em um eventual governo de Flávio, não ofereceu uma garantia imediata.
“Sei lá.”
Depois veio a tentativa de contenção: “nunca, jamais”. Mas a sequência das respostas deixa uma pergunta inevitável para o eleitorado: por que a primeira resposta não foi simplesmente “não”?
Não é possível ignorar o contexto.
O próprio presidente do PL admite que houve planejamento golpista no passado e, diante da possibilidade de repetição sob o candidato que hoje representa o bolsonarismo na disputa presidencial, responde que não sabe.
E a democracia?
quais serão as garantias institucionais para impedir que uma eventual derrota eleitoral seja novamente contestada por mecanismos de ruptura?
A resposta não pode depender apenas de declarações feitas depois que uma crise começa.
A democracia brasileira já passou por uma tentativa de ruptura após as eleições de 2022, segundo a condenação judicial de Jair Bolsonaro e outros envolvidos.
O que está em discussão agora é se as forças políticas que participaram daquele período estão dispostas a estabelecer, de maneira inequívoca, que eleições serão respeitadas, que a Constituição será cumprida e que nenhuma força política poderá utilizar o Estado para permanecer ou retornar ao poder pela ruptura institucional.
“Sei lá.”
É essa frase que agora exige explicações.