Assim que o jornalista Lauro Jardim divulgou o vídeo que mostra Alexandre de Moraes e sua esposa desembarcando de uma aeronave ligada a Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro correu para a internet com a ajuda do seu marqueteiro, Duda Lima, que paga funcionário em dinheiro vivo, para transformar as imagens em munição política.
Só tem um pequeno problema: o nome de Daniel Vorcaro também aparece no rastro de Flávio Bolsonaro. Aliás, em tudo.
E, é justamente isso que o candidato parece esconder atrás do barulho.
Flávio quer transformar Vorcaro em escândalo quando o banqueiro aparece relacionado a Moraes. Mas, quando as perguntas chegam à sua própria porta, o discurso muda.
Quem precisa explicar a relação com Vorcaro também é Flávio.
O MESMO VORCARO QUE FLÁVIO USA CONTRA MORAES

Não é uma associação inventada por adversários.
Documentos de investigação da Polícia Federal apontaram que Flávio participou de negociações com Vorcaro relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro.
Segundo os documentos divulgados, Flávio aparece em interlocuções com o banqueiro sobre recursos para o projeto.
Então fica a pergunta que Flávio tenta convenientemente evitar:
se Vorcaro é motivo suficiente para cobrar explicações de Moraes, por que não é motivo para Flávio explicar as próprias conversas e negociações com o banqueiro?
Não dá para querer o privilégio de fazer perguntas sem aceitar responder às suas.
E O DINHEIRO QUE ENVOLVEU O IRMÃO NOS ESTADOS UNIDOS?
A história fica ainda mais espinhosa quando entram em cena os recursos destinados ao projeto e a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
As investigações levantaram questionamentos sobre a movimentação e a destinação dos valores relacionados ao Dark Horse, incluindo recursos que teriam sido enviados para os EUA.
É aí que o discurso de Flávio começa a perder o verniz.
Se há recursos, existem transferências.
Se existem transferências, existem destinatários.
E se existem destinatários, é obrigação de quem participou das negociações explicar o caminho do dinheiro.
E O APARTAMENTO?

Como se não bastassem as perguntas financeiras, surgiu outro episódio envolvendo Flávio.
Flávio Bolsonaro ficou hospedado em São Paulo em um apartamento na Vila Nova Conceição que havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.
A questão não é fazer uma acusação automática a partir de uma hospedagem.
A questão é muito mais simples:
quem ofereceu o imóvel, por que Flávio ficou ali e qual era a relação entre todos os envolvidos?
Essas perguntas existem.
E Flávio precisa respondê-las.
NA HORA DA SABATINA, FLÁVIO NÃO APARECEU
E há uma ironia difícil de ignorar.
Flávio Bolsonaro desistiu de participar da sabatina da Record.
A emissora havia preparado uma entrevista justamente para colocar o candidato diante de perguntas e temas espinhosos da campanha.
Não existe comprovação pública de que a desistência tenha ocorrido especificamente para evitar perguntas sobre Vorcaro. Portanto, seria irresponsável afirmar isso como fato.
Mas o contraste está posto:
quando aparece uma imagem contra Moraes, Flávio corre para o microfone. Quando o assunto são as perguntas que cercam sua própria campanha, o silêncio aparece.
IMORALIDADE 2
O vídeo divulgado por Lauro Jardim pode e deve ser objeto de esclarecimentos.
Moraes precisa explicar as circunstâncias dos voos, assim como as demais pessoas envolvidas devem apresentar suas versões e documentos.
Mas Flávio Bolsonaro não pode transformar o caso em um tribunal de mão única. Aliás, de mão solta, ele entende muito bem, segundo a PF.
Essa é a parte que o candidato não consegue apagar com postagem, vídeo ou discurso.
Porque existe uma diferença entre explorar uma notícia e responder às próprias perguntas.
Flávio escolheu explorar.