O servidor público do Estado de São Paulo paga todos os meses para ter acesso à assistência médica do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo, Iamspe. Atualmente, a contribuição do servidor para o Iamspe é de 2% sobre a remuneração, descontada mensalmente em folha. Há também contribuição para dependentes/agregados em situações específicas, com regras próprias.
O Radar Brasileiro mostra a situação precária vivida pelos servidores públicos do Estado de São Paulo. Hoje, são mais de 1,7 milhão de usuários.

Mesmo assim, o sistema que deveria garantir atendimento ao funcionalismo chegou a 2026 pressionado por filas, falta de profissionais, necessidade de créditos suplementares e investimentos considerados insuficientes por entidades representativas e parlamentares.
O problema não é pequeno: o Iamspe atende cerca de 1,7 milhão de usuários, entre servidores estaduais e dependentes. O Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), principal unidade do sistema, é referência em média e alta complexidade e realiza milhões de atendimentos. Mas vive uma crise velada e escondida pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
A crise, portanto, não afeta apenas funcionários públicos. Ela atinge uma população equivalente à de uma grande cidade brasileira.
O rombo/dívida que os documentos permitem mostrar
Um documento da própria Alesp registra uma estimativa de R$ 10 bilhões de dívida do Tesouro Estadual com o Iamspe, referente à diferença histórica entre o que o Estado deveria ter aportado e o que efetivamente teria colocado no instituto. O mesmo documento registra que, até aquele momento, o governo estadual havia investido apenas R$ 2,5 bilhões.
O documento informa que, entre 1997 e 2018, os servidores haviam colocado R$ 12,5 bilhões no Iamspe, enquanto o governo estadual havia colocado R$ 2,5 bilhões, resultando numa diferença de R$ 10 bilhões. Mas, abaixo você vai ver que a gestão Tarcísio deixou o IAMSPE em situação crítica.
Quanto Tarcísio colocou no Iamspe?
Nos dados da Alesp:
- 2023: Tesouro → R$ 252,9 milhões; servidores → R$ 2,051 bilhões.
- 2024: Tesouro → R$ 525,3 milhões; servidores → R$ 2,130 bilhões.
- 2025: Tesouro → R$ 366 milhões; servidores → R$ 2,2 bilhões.
Isso dá, para 2023–2025, aproximadamente:
Tarcísio/Tesouro: R$ 1,14 bilhão
Servidores: R$ 6,38 bilhões
Ou seja, os servidores colocaram aproximadamente 5,6 vezes mais dinheiro que o Tesouro nesse período.
O dinheiro existe no orçamento — mas o investimento é outra história

Os números orçamentários ajudam a entender a dimensão do problema.
Para 2025, a proposta orçamentária do Iamspe previa R$ 2,578 bilhões para o instituto.
Já a dotação específica para a administração do Iamspe era de aproximadamente R$ 186,6 milhões na Lei Orçamentária de 2025.
Para 2026, a ação de administração do instituto recebeu previsão de aproximadamente R$ 250,6 milhões, sendo R$ 59,2 milhões para pessoal e R$ 191,4 milhões para outras despesas correntes.
Mas o orçamento global não significa que todo esse dinheiro seja investimento em estrutura hospitalar.
É justamente aí que aparece uma das maiores fragilidades do Iamspe.
Em 2024, investimento no HSPE chegou a ser previsto em apenas R$ 10
Durante a discussão do orçamento de 2024, documentos apresentados à Alesp e obtidos pelo Radar Brasileiro apontaram uma situação particularmente grave: a previsão de investimento específico no HSPE/Iamspe chegou a ser de apenas R$ 10.
O valor provocou reação de entidades representativas dos servidores. Documento que acompanhou a discussão orçamentária registrou que, enquanto havia aumento expressivo dos recursos destinados à rede contratada, o investimento previsto no HSPE/Iamspe despencava de R$ 50 milhões em 2023 para R$ 10 milhões em 2024.
Ou seja: o problema não era necessariamente falta de bilhões no orçamento geral do instituto, mas a insuficiência de recursos efetivamente direcionados para modernização, equipamentos e estrutura própria.
A situação foi tão questionada que parlamentares apresentaram emendas para colocar dinheiro adicional diretamente no hospital.
Uma delas propôs R$ 50 milhões adicionais para o HSPE, retirados da verba de publicidade institucional. Outra propôs R$ 100 milhões.
Em 2025, novas emendas voltaram a defender ampliação dos recursos para o hospital, com propostas de R$ 60 milhões e R$ 10 milhões adicionais.
Diferença entre as contribuições dos servidores e os recursos do Tesouro durante a gestão Tarcísio expõe quem sustenta a assistência médica do funcionalismo paulista
O servidor público estadual de São Paulo é descontado todos os meses em folha para financiar o Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe). O dinheiro não é opcional para quem está vinculado ao sistema: a contribuição é retirada diretamente da remuneração.

Os números mostram a dimensão dessa participação.
Durante os primeiros anos do governo Tarcísio de Freitas, os servidores colocaram muito mais dinheiro no Iamspe do que o Tesouro estadual, no caso, o próprio governador.
Entre 2023 e 2025, a diferença entre as contribuições do funcionalismo e os recursos destinados pelo governo ao instituto chegou a aproximadamente R$ 5 bilhões, segundo dados apresentados em documentos da Assembleia Legislativa.
Isso ajuda a explicar por que o desconto aparece todos os meses no holerite do servidor: o próprio funcionalismo é a principal fonte de financiamento do sistema de assistência médica.
Servidor paga — e paga muito mais
A comparação é direta.
Em 2023, os servidores contribuíram aproximadamente R$ 2,05 bilhões para o Iamspe, enquanto o Tesouro estadual destinou cerca de R$ 253 milhões.
A diferença naquele ano ficou próxima de R$ 1,8 bilhão.
Em 2024, as contribuições dos servidores chegaram a aproximadamente R$ 2,13 bilhões, enquanto os recursos do Tesouro ficaram em torno de R$ 525 milhões.
A diferença foi de aproximadamente R$ 1,6 bilhão.
Em 2025, os servidores contribuíram aproximadamente R$ 2,2 bilhões, enquanto o governo destinou cerca de R$ 567 milhões.
A diferença ficou novamente próxima de R$ 1,6 bilhão.
Somando os três anos, a diferença chega a aproximadamente:
R$ 5 bilhões
É a diferença acumulada entre o dinheiro arrecadado dos servidores e os recursos provenientes do Tesouro estadual.
Mas o resultado revela algo importante: quem mais financia o sistema são os próprios servidores.
Por que o dinheiro é descontado do salário?

O Iamspe funciona por meio de contribuição dos servidores.
O desconto é feito diretamente na folha de pagamento e representa a principal fonte de receita do instituto.
Ou seja, quando o servidor olha o holerite e vê o desconto do Iamspe, aquele dinheiro não está indo para uma conta genérica do Estado.
Ele é destinado ao financiamento da assistência médica oferecida pelo instituto.
O sistema atende servidores, aposentados, pensionistas e seus dependentes, chegando a aproximadamente 1,07 milhão de usuários.
É uma estrutura equivalente à população de uma grande cidade.
O servidor coloca bilhões. O Estado coloca uma fração
Os números ajudam a dimensionar a diferença.
Em 2025, por exemplo:
Servidores: aproximadamente R$ 2,2 bilhões
Tesouro estadual: aproximadamente R$ 567 milhões
Na prática, para cada R$ 1 colocado pelo governo, os servidores colocaram aproximadamente R$ 3,88.
É uma diferença que dificilmente pode ser ignorada quando se discute a situação financeira do Iamspe.
O servidor não está apenas utilizando o serviço.
Ele é, em grande medida, quem financia a existência do próprio sistema.
E o desconto continua
A contribuição do servidor não termina quando o orçamento anual é aprovado.
Ela continua sendo retirada mês após mês.
É justamente essa arrecadação recorrente que permite ao Iamspe pagar profissionais, hospitais credenciados, exames, consultas, medicamentos, procedimentos e manter a estrutura do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE).
Por isso, a discussão sobre o financiamento do instituto não pode ser separada do salário do funcionalismo.
Quanto menor o salário, menor a capacidade de contribuição.
E, ao mesmo tempo, quanto maior a contribuição acumulada do servidor, maior é a expectativa de que o sistema ofereça atendimento adequado.
A crise chegou ao quadro de médicos
Em 2026, o problema ganhou uma dimensão ainda mais preocupante: a perda de profissionais.
Segundo dados divulgados pelo próprio Instituto durante mobilização de trabalhadores, 576 servidores aderiram ao Programa de Demissão Incentivada, entre eles 151 médicos e 114 oficiais administrativos.
O número foi levado ao plenário da Alesp. Em maio, parlamentares denunciaram a saída de 151 médicos do Iamspe e alertaram para os efeitos sobre especialidades e atendimento.
A situação é especialmente delicada porque não se trata simplesmente de funcionários administrativos. A saída de médicos atinge diretamente a capacidade de atendimento.
Há relatos de impacto em áreas como cardiologia e pediatria.
O governo, portanto, enfrenta um paradoxo: precisa ampliar o atendimento ao servidor justamente quando perde parte da força de trabalho responsável por realizar esse atendimento.
Falta de enfermeiros e técnicos

Além dos médicos, entidades que acompanham a situação do HSPE apontam déficit de profissionais de enfermagem.
Um levantamento citado em denúncia pública aponta aproximadamente 1.000 cargos vagos de médicos e número semelhante de vagas não preenchidas entre enfermeiros e técnicos de enfermagem.
E a fila?

O próprio sistema do Iamspe reconhece a existência de fila de espera para consultas, exames e procedimentos. Em portaria publicada em abril de 2026, o instituto estabeleceu mecanismos para acompanhar essas filas.
A necessidade de criar mecanismos específicos para acompanhamento mostra que a demanda não é episódica.
Em 2023, servidores já relatavam espera de até cinco meses para consultas com especialistas e aproximadamente dois meses para exames de sangue.
Em 2024, o próprio Iamspe passou a orientar usuários a solicitar formalmente consultas e exames que estivessem sem vagas ou em fila, com agendamento posterior de acordo com a ordem cronológica e critérios de equidade clínica.
Em 2025, o governo criou um canal de WhatsApp justamente para solicitação de consultas, exames e retornos médicos.
E uma denúncia acompanhada pelo Ministério Público citada em 2025 apontava cerca de 8 mil pessoas na fila para cirurgias complexas.
O HSPE possui cerca de 700 leitos, mas a capacidade não acompanha toda a demanda. Estudo publicado pelo próprio Iamspe aponta que, em determinados serviços, a procura supera a capacidade instalada, fazendo pacientes aguardarem para conseguir atendimento
O retrato de 2026
1,3 milhão — usuários do Iamspe.
402 — leitos apontados para o HSPE em referência recente.
151 — médicos que aderiram ao programa de demissão incentivada, segundo dados divulgados por entidades.
114 — oficiais administrativos que também aderiram ao programa.
R$ 226,6 milhões — soma de quatro créditos suplementares identificados para o Iamspe entre dezembro de 2025 e maio de 2026.
R$ 2,58 bilhões — orçamento global previsto para o Iamspe em 2025.
R$ 250,6 milhões — orçamento previsto para a ação de administração do Iamspe em 2026.
R$ 10 — valor que chegou a constar como investimento específico no HSPE/Iamspe na proposta orçamentária de 2024, segundo documentos da discussão na Alesp.
5% — último reajuste geral concedido ao funcionalismo pelo governo Tarcísio, em 2025.
6% — reajuste geral anterior, concedido em 2023.
Se o servidor é quem coloca a maior parte do dinheiro, por que ainda precisa enfrentar filas, falta de profissionais e uma estrutura que há anos pede investimentos?
É essa conta — e não apenas o tamanho do orçamento — que ajuda a revelar a situação do Iamspe em São Paulo.