O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi ao estúdio da TV Globo, nesta quinta-feira (27), para enfrentar uma das entrevistas mais aguardadas da corrida presidencial de 2026.
Durante cerca de 40 minutos, Lula foi sabatinado pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli e encarou uma sequência de perguntas sobre investigações envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o escândalo do INSS, o senador Jaques Wagner, economia, contas públicas, educação e segurança.

E, ao contrário da estratégia de simplesmente reagir às perguntas, Lula decidiu disputar o controle da entrevista.
O presidente respondeu aos questionamentos mais sensíveis e, em diversos momentos, devolveu as perguntas aos entrevistadores, contextualizando os temas e apresentando sua própria narrativa sobre os acontecimentos.
O tom chamou atenção principalmente no início da sabatina, quando a entrevista ficou concentrada durante vários minutos em denúncias e investigações.

Em determinado momento, Lula ironizou a intensidade da abordagem:
“Eu acho que é a hora de falar porque eu estava parecendo que eu estava no Ministério Público.”
A frase marcou uma mudança no ritmo da entrevista. Logo depois, Renata Vasconcellos mudou o eixo da conversa e passou para temas econômicos.
Lula não se escondeu das perguntas mais difíceis
Um dos principais testes para o presidente foi justamente o caso envolvendo seu filho. Lula foi questionado sobre as investigações da Polícia Federal e não tentou impedir que o assunto avançasse.
“Eu não sou do Ministério Público, eu não sou delegado, eu não sou juiz. Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro”, disse.
Ao defender Lulinha, afirmou que acredita na inocência do filho, mas deixou uma condição clara: caso seja comprovada alguma irregularidade, ele deverá responder perante a Justiça.
“Se o Fábio cometeu qualquer ilícito ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro.”
Em outro momento, foi ainda mais direto:
“Ele não será protegido por ser meu filho, meu irmão, nada. Não haverá da parte da presidência da República um milímetro de movimento para proteger meu filho.”
A resposta permitiu a Lula deslocar o debate da acusação política para uma defesa do funcionamento das instituições. A mensagem central foi de que a Polícia Federal e a Justiça devem investigar livremente, sem interferência do Palácio do Planalto.
“Eu não vou afastar delegado da Polícia Federal, eu não vou fazer qualquer movimento pelo meu filho. Ele sabe que a Marisa [Letícia, ex-primeira-dama] morreu por conta da falsa acusação que foi feita a mim na Lava Jato. Portanto, ele tem obrigação de não ter feito o erro.”
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Lula respondeu sobre o chefe de gabinete, o Marcola
O presidente respondeu que o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, errou ao manter esse tipo de relação com a lobista Roberta Luchsinger e disse que o episódio leva suspeitas para dentro do Palácio do Planalto.
“Não é adequado, é totalmente errado. E o Marcola sabe do erro que ele cometeu, porque não é esse o papel do chefe de gabinete”, afirmou Lula.
“Eu não conheço essa moça, nunca vi essa moça na minha vida, nunca conversei com essa moça, ela nunca esteve próxima de mim”, disse Lula sobre a lobista Roberta Luchsinger.
Presidente reage a perguntas sobre Jaques Wagner
Outro assunto delicado foi o senador Jaques Wagner (PT), citado em investigações relacionadas ao Banco Master.
Lula não se esquivou da pergunta e assumiu publicamente a defesa do aliado.
“Até agora não está provado que o Wagner tenha relações com o Banco Master.”
Na sequência, apelou ao princípio da presunção de inocência:
“As pessoas são inocentes até que se provem ao contrário.”
Lula ainda afirmou:
“Tenho consciência que o Wagner é honesto.”
O presidente, portanto, não tratou o tema como uma ameaça a ser evitada. Ao contrário, apresentou sua posição diante das câmeras e deixou que o debate avançasse.
INSS: Lula tenta transformar crise em demonstração de ação do governo
A fraude envolvendo aposentados e pensionistas também esteve entre os temas mais explorados pelos entrevistadores.
Lula reconheceu a gravidade do caso, mas procurou estabelecer uma diferença entre a ocorrência das fraudes e a reação do governo.
“A quadrilha foi montada em 2019, foi descoberta por nós e foi desmontada por nós.”
O presidente também afirmou:
“Não tem um aposentado que foi roubado que não foi devolvido o dinheiro.”
Ao ser questionado sobre a demora na suspensão de contratos sob suspeita, Lula argumentou que uma investigação dessa dimensão exige tempo e destacou o trabalho da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União.
Quando a entrevista parecia perder o rumo, Lula aproveitou
O momento mais simbólico da sabatina ocorreu quando a condução da entrevista começou a produzir uma sequência de perguntas sobre diferentes episódios de investigação.
A partir dali, a entrevista mudou de assunto e passou a tratar de economia, contas públicas, educação e segurança.
Foi justamente nesse movimento que Lula conseguiu mudar o terreno da conversa.
O presidente passou de investigado politicamente a candidato apresentando argumentos sobre seu governo. Em vez de permanecer exclusivamente na defensiva, passou a falar sobre resultados, políticas públicas e sua visão para um eventual novo mandato.
Lula não apenas respondeu: conseguiu conduzir a conversa para o terreno em que se sentia mais confortável.
Um Lula diferente do “paz e amor”
A postura também chamou atenção pela combatividade.
O presidente recuperou episódios da Lava Jato e criticou o que considera erros cometidos pela imprensa durante aquele período.
“A imprensa brasileira comprou a mentira, vendeu a mentira e nunca pediu desculpas.”
E completou:
“Não esqueço do power point mentiroso contra mim.”
Lula falou que vai zerar a fila do INSS semana que vem
Lula falou que não vai vender os Correios
Lula passa segurança ao responder todas as perguntas
Mais do que uma entrevista de perguntas e respostas, a participação no Jornal Nacional funcionou como uma espécie de primeiro grande teste de comunicação direta de Lula com o eleitorado depois do início da campanha.
O presidente havia ficado fora do primeiro debate presidencial da campanha, realizado pela Band no domingo (23). A presença na Globo representou, portanto, uma mudança de estratégia e colocou Lula diante de uma audiência nacional em um dos espaços de maior visibilidade da televisão brasileira.
A imagem que ficou foi a de um presidente disposto a jogar o jogo da entrevista em campo aberto.
Se os entrevistadores entraram na sabatina determinados a colocar Lula contra a parede, o petista encontrou uma maneira de sair da posição exclusivamente defensiva.
E foi justamente aí que Lula respondeu às questões, contestou premissas, recolocou temas no contexto político que lhe interessava e, quando percebeu que a condução começava a ficar repetitiva, pressionou os próprios entrevistadores a mudar de assunto.
No fim, a entrevista que poderia ter sido uma longa sessão de perguntas sobre crises e investigações acabou se transformando também em uma vitrine para Lula apresentar sua versão dos fatos e defender seu governo.
Para um candidato que disputa a reeleição e que chegou à sabatina sob forte pressão política, a noite serviu para mostrar que Lula continua sabendo fazer aquilo que talvez seja uma de suas maiores especialidades eleitorais: transformar uma pergunta difícil em uma oportunidade para falar diretamente com o eleitor.