Uma reportagem exclusiva do site PlatôBR, assinada pelo jornalista Rodrigo Rangel, colocou no centro da campanha presidencial de 2026 uma série de registros atribuídos a Alexandre Santini, ex-sócio e antigo amigo de Flávio Bolsonaro.

O material reúne mensagens, fotografias, comprovantes e relatos que apontam para uma rede de relações envolvendo festas privadas, garotas de programa, presentes de alto valor e atuação política em favor de interesses privados.

Os elementos centrais apresentados pelo PlatôBR foram analisados pelo Radar Brasileiro, que confirmou a existência dos registros mencionados na reportagem e a dimensão das relações descritas no material.

O caso ganhou repercussão justamente porque reúne diferentes episódios da trajetória de Flávio Bolsonaro: sua antiga sociedade em uma franquia da Kopenhagen, as investigações sobre as chamadas “rachadinhas”, relações com empresários e lobistas durante o governo Jair Bolsonaro e, agora, registros de uma vida privada que teria sido mantida longe dos olhos do público.
Uma espécie de “PPP” particular
O conjunto de informações descrito pelo PlatôBR apresenta uma engrenagem informal de relações que misturava negócios, influência política, despesas pessoais e interesses privados. Principalmente, o final teria que ter orgias com garotas de programa de luxo.

Não se trata de uma PPP — Parceria Público-Privada — formal, nos termos jurídicos de uma concessão pública. A expressão pode ser usada, no sentido político da reportagem, para descrever uma relação em que interesses empresariais, contatos no poder público e benefícios pessoais aparecem próximos uns dos outros.
Parte desse circuito passava por uma casa no Lago Sul, em Brasília, descrita como um “bunker” frequentado por pessoas interessadas em resolver pendências junto à máquina federal. Entre os personagens citados está o advogado Alan Belaciano, amigo de Flávio Bolsonaro e responsável, segundo os documentos apresentados, por despesas e presentes destinados ao senador.
Um dos exemplos mais chamativos é um Rolex Submariner Date de ouro branco, comprado em fevereiro de 2022 por R$ 305 mil. A nota fiscal estaria em nome de Belaciano, mas mensagens e registros apresentados por Santini indicariam que o relógio era destinado a Flávio Bolsonaro.

O material também menciona equipamentos para uma academia instalada na residência de Flávio, com despesas superiores a R$ 90 mil, além de outros pagamentos que teriam sido realizados por pessoas próximas ao senador.
Flávio já havia afirmado anteriormente, segundo o PlatôBR, que os equipamentos haviam sido comprados por um “amigo de longa data” como uma espécie de empréstimo pessoal.

Festas privadas e a crise no casamento
Outro núcleo da reportagem envolve a vida privada do candidato.
Alexandre Santini teria organizado encontros privados com garotas de programa nos quais Flávio Bolsonaro estaria presente. Mensagens atribuídas a Santini mostram conversas com uma agenciadora para combinar encontros em hotéis de luxo, inclusive no Grand Hyatt, no Rio de Janeiro.

O material publicado pelo site também relata que Santini teria levado fotos e mensagens à mulher de Flávio, Fernanda Bolsonaro, desencadeando uma crise no casamento do senador.
A reportagem afirma ainda que, posteriormente, Flávio teria enviado mensagens ao ex-sócio reconhecendo ter cometido “muitas escolhas erradas” e dizendo que não pretendia repetir os erros com sua família.
O episódio é apresentado pelo PlatôBR como parte de uma disputa entre os antigos sócios. Santini cobrava de Flávio um suposto acerto financeiro depois do fim da sociedade na loja de chocolates e teria utilizado os registros que guardava como instrumento de pressão.
Em 2023, segundo a reportagem, ele encaminhou uma notificação extrajudicial cobrando R$ 1,4 milhão.

O dinheiro e a antiga história das rachadinhas
A relação entre Flávio e Santini não começou agora.
Os dois foram sócios de uma franquia da Kopenhagen no Rio de Janeiro, negócio que acabou entrando no radar das investigações sobre o suposto esquema de “rachadinhas” no antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio.
O Ministério Público do Rio de Janeiro sustentou, durante as investigações, que a estrutura empresarial poderia ter sido utilizada para lavagem de dinheiro. Flávio sempre negou as acusações.
Decisões posteriores do STJ e do STF atingiram partes importantes do processo e dos elementos utilizados na investigação. Portanto, as suspeitas relacionadas à antiga sociedade não devem ser apresentadas como condenação definitiva de Flávio.
É nesse contexto que ganham relevância os documentos agora divulgados por Santini: segundo o PlatôBR, eles incluem comprovantes, planilhas e mensagens relacionados ao período em que os dois mantinham uma relação próxima.
O episódio envolvendo Kassio Nunes Marques

O trecho politicamente mais sensível da reportagem, entretanto, envolve o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal.
De acordo com mensagens atribuídas a Santini, Flávio teria procurado diretamente Kassio para tratar dos interesses de um cliente relacionado ao advogado Alan Belaciano.
A mensagem, segundo o PlatôBR, dizia que Flávio teria “intermediado” o interesse de um cliente em um processo que estava no gabinete do ministro.
Depois da mensagem, Flávio teria marcado uma reunião com Santini em seu gabinete.
O ministro Kassio Nunes Marques foi procurado e respondeu que recebe parlamentares de todos os partidos que defendem interesses distintos, classificando esse tipo de contato como uma prática comum nos gabinetes do Supremo e afirmando que isso não compromete sua isenção. A assessoria, contudo, não respondeu especificamente às perguntas sobre o episódio narrado nas mensagens.
Um escândalo que mistura política, negócios e vida privada
O material divulgado pelo PlatôBR apresenta três dimensões diferentes envolvendo Flávio Bolsonaro.
A primeira é política, com a atuação de pessoas próximas ao senador em Brasília e relatos de contatos para tratar de interesses privados junto ao governo e ao Judiciário.
A segunda é financeira, com presentes de alto valor, pagamento de despesas e relações empresariais envolvendo pessoas que circulavam no entorno do político.
A terceira é pessoal, com relatos de festas privadas e de uma crise conjugal provocada pela divulgação das mensagens e fotografias guardadas pelo ex-sócio.
É justamente a combinação desses três elementos que transformou a reportagem de Rodrigo Rangel em uma das revelações mais delicadas envolvendo a campanha de Flávio Bolsonaro em 2026.
O caso, entretanto, ainda precisa ser separado entre aquilo que está documentado, aquilo que é alegado por Santini e aquilo que foi efetivamente comprovado por investigações independentes.
Até o momento, Flávio Bolsonaro não apresentou uma explicação pública detalhada para todos os episódios descritos na reportagem. A Folha informou que procurou o candidato e sua campanha, mas não recebeu manifestação sobre as acusações.
