A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elevou para nível “crítico” a avaliação sobre a escalada de pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil no contexto das eleições de 2026.
O alerta foi encaminhado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça, colocando as principais instituições brasileiras diante do risco de influência externa sobre o processo eleitoral.
O documento, segundo reportagem da coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, aponta uma intensificação das ações americanas e relaciona diferentes medidas diplomáticas, econômicas e políticas adotadas pelo governo de Donald Trump a uma estratégia mais ampla de pressão sobre o Brasil.
A Abin avalia que essa movimentação pode atingir não apenas as relações entre os dois países, mas também o ambiente político e eleitoral brasileiro.
Eduardo Bolsonaro amplia pressão diretamente em Washington

Nesse cenário, ganha destaque a atuação de Eduardo Bolsonaro, que vem mantendo reuniões e articulações com integrantes do governo americano em Washington.
Em setembro, Eduardo afirmou ter levado a autoridades dos Estados Unidos a acusação de que o Supremo Tribunal Federal poderia tentar anular uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições. Ele também defendeu a aplicação de sanções americanas contra ministros do STF e afirmou estar preocupado com uma suposta preparação para questionar o resultado eleitoral.
Essas acusações foram apresentadas por Eduardo sem provas públicas que demonstrassem a existência de uma operação do STF para anular uma eleição.
Reportagem da Folha já havia apontado, em março, que a atuação de Eduardo e Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos era vista pelo governo Lula como parte de uma estratégia para pressionar a administração Trump a atuar sobre o cenário político brasileiro.
Prefeito de Nova York se aproxima de Lula em meio à tensão com Washington

Em meio à escalada das tensões entre o governo Donald Trump e o Brasil, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, também surge como uma figura política americana que mantém uma aproximação com o governo brasileiro.
Mamdani solicitou pessoalmente um encontro bilateral com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está confirmado para ocorrer durante a passagem do brasileiro por Nova York para a Assembleia-Geral da ONU. O pedido partiu do próprio prefeito.
A aproximação ganha peso político porque Mamdani é uma das figuras públicas americanas que mais se opõem à agenda de Donald Trump. A Prefeitura de Nova York, inclusive, auxiliou o Consulado do Brasil na cidade a encontrar um local para a votação dos brasileiros nas eleições presidenciais americanas, buscando garantir um espaço em que a comunidade brasileira se sentisse mais segura diante de possíveis ações da imigração americana.
Pressão contra Lula e disputa de 2026

O episódio ocorre em meio a uma eleição presidencial na qual Lula busca a reeleição e Flávio Bolsonaro disputa a Presidência pelo campo bolsonarista.
A avaliação de setores do governo brasileiro é de que parte da articulação internacional conduzida por aliados da família Bolsonaro busca criar pressão externa capaz de afetar o ambiente político brasileiro e dificultar a permanência de Lula no Palácio do Planalto.
É importante distinguir, porém, a atuação política de Eduardo Bolsonaro, as avaliações da inteligência brasileira e a posição oficial do governo americano. A existência de pressão diplomática e política é objeto do relatório da Abin; isso não equivale, por si só, à comprovação de uma operação americana clandestina para manipular votos ou urnas.
O próprio Flávio Bolsonaro negou que esteja recebendo ajuda do governo americano e afirmou que a eleição será decidida pelos brasileiros.
Documento americano já havia colocado eleições no centro das negociações
O alerta da Abin também ocorre após a revelação de que, durante negociações envolvendo o tarifaço imposto pelo governo Trump, os Estados Unidos apresentaram ao Brasil uma lista de exigências que incluía referência à participação de chamados “dissidentes políticos” nas eleições de 2026.
O governo brasileiro considerou a exigência inaceitável. Eduardo Bolsonaro, por outro lado, afirmou ter ficado satisfeito com a inclusão do tema e declarou que os Estados Unidos seriam uma referência em democracia.
Para a inteligência brasileira, a combinação de pressões econômicas, diplomáticas e políticas merece atenção especial justamente porque ocorre às vésperas de uma eleição presidencial.
Brasil reage e aciona suas instituições

O Brasil já começou a adotar medidas institucionais diante do cenário identificado pela Abin. O relatório foi encaminhado ao Palácio do Planalto, ao TSE e ao Ministério da Justiça, permitindo que Executivo, Justiça Eleitoral e órgãos de segurança acompanhem de forma coordenada a evolução da pressão externa.
O alerta também mostra que Brasília não está tratando o episódio apenas como uma divergência diplomática entre governos. A preocupação passou a envolver soberania nacional, segurança institucional e proteção do processo eleitoral brasileiro.
A Abin aponta ainda que a pressão americana pode atingir relações financeiras, empresas brasileiras, acesso ao dólar e operações internacionais, ampliando os instrumentos disponíveis para Washington exercer influência sobre Brasília.
Enquanto Eduardo intensifica sua articulação nos Estados Unidos, as instituições brasileiras passaram a monitorar o risco apontado pela Abin.
E, faltando poucas semanas para o início da reta final das eleições de 2026, a interferência externa tornou-se mais um dos elementos de tensão que cercam a disputa presidencial.