A invasão ao escritório ligado ao ex-vereador Milton Leite, em Santo Amaro, ganhou uma dimensão ainda mais delicada diante do momento em que ocorreu: apenas dois dias depois de Leite ser preso no âmbito da Operação Vectura Corrupta, que investiga a infiltração do PCC no sistema de transporte público de São Paulo.
O detalhe que mais chamou a atenção dos investigadores não foi apenas a invasão, mas o que os criminosos decidiram levar — e o que decidiram deixar para trás.
Segundo as informações apuradas pelo Radar Brasileiro, o equipamento responsável pelo armazenamento das imagens das câmeras de segurança foi levado.
“Maicon, não é normal algum criminoso deixar quase 20 mil reais em espécie para trás. Eles queriam mesmo era o HD com as imagens das câmeras de segurança. Isso está muito claro pra gente. Resta saber quem eles estão tentando acobertar. E, outra coisa: o mais estranho ainda é isso acontecer logo depois da prisão do Milton (Leite) e em véspera de eleição”, resumiu um dos investigadores que esteve no local do furto.
O Radar Brasileiro vai preservar o nome do investigador. Ao mesmo tempo, aproximadamente R$ 19 mil em dinheiro vivo permaneceram no imóvel. Documentos, cartões e outros objetos também ficaram no local e foram apreendidos pela polícia.
A circunstância reforça uma das hipóteses investigadas: a de que a invasão possa ter sido planejada não para produzir um simples furto patrimonial, mas para retirar do escritório materiais capazes de preservar rastros, imagens ou informações de interesse da investigação.
O dinheiro deixado para trás

Para os investigadores, o dinheiro abandonado é um dos elementos que precisam ser esclarecidos.
Se o objetivo fosse exclusivamente roubar bens de valor, a permanência de quase R$ 20 mil em espécie no imóvel seria um comportamento difícil de explicar.
O dinheiro estava no escritório e não foi levado pelos invasores.
A principal peça retirada, por outro lado, foi justamente o equipamento que armazenava as imagens do circuito de segurança.
A polícia ainda não divulgou uma conclusão definitiva sobre a motivação do crime. O caso foi registrado no 11º DP, em Santo Amaro, e a investigação busca identificar os autores e determinar se existe conexão entre a invasão e a investigação que levou Milton Leite à prisão.
O contexto torna o caso ainda mais sensível

A invasão acontece em meio a uma investigação que apura suspeitas de infiltração do PCC em empresas de transporte coletivo, lavagem de dinheiro, corrupção e financiamento político.
Segundo a investigação, Milton Leite é apontado como possível articulador político relacionado ao setor de transporte. Ele nega as acusações e também rejeita a afirmação de que seria o proprietário de fato da Transwolff.
O Radar Brasileiro apurou que, dentro dessa linha investigativa, também está sendo examinada a possibilidade de que o furto tenha servido para eliminar ou retirar do alcance das autoridades elementos potencialmente comprometedores relacionados à rede política e empresarial que orbitava Milton Leite.
Essa apuração alcança, segundo informações obtidas pelo Radar, relações políticas que envolvem o entorno da Prefeitura de São Paulo e do governo estadual.
Até o momento, porém, não há confirmação pública de que o prefeito Ricardo Nunes ou o governador Tarcísio de Freitas sejam alvos ou tenham participação no furto, e qualquer ligação nesse sentido precisa ser tratada como hipótese investigativa, não como fato comprovado.
Conveniente para quem queria apagar rastros?

O calendário chama atenção.
Milton Leite foi preso na sexta-feira (18), depois de se apresentar à polícia. No domingo (20), o imóvel ligado a ele foi invadido. Na ação, o equipamento com as imagens de segurança desapareceu.
A sequência temporal é justamente o que levou a polícia a considerar a possibilidade de conexão entre os episódios. Segundo reportagem publicada nesta segunda-feira, a Polícia Civil investiga se o furto tem relação com a prisão e com a operação.
E existe um elemento adicional: durante as buscas realizadas no contexto da operação, a polícia havia encontrado centenas de milhares de reais em espécie em outro imóvel ligado ao círculo de Milton Leite.
Por isso, a invasão do escritório não pode ser analisada isoladamente.
O que foi levado, o que foi deixado e o momento escolhido para a invasão são agora peças de um quebra-cabeça que a Polícia Civil precisa montar.
Se ficar comprovado que o objetivo era retirar provas ou registros relacionados à investigação, o episódio poderá deixar de ser tratado como um simples furto e passar a ser analisado como uma possível tentativa de obstrução da investigação.