A entrega de Milton Leite à Polícia Civil, nesta sexta-feira (18), encerra um dos capítulos mais delicados da Operação Vectura Corrupta, mas abre uma nova pergunta nos bastidores da política paulista: o que levou o ex-vereador a decidir se apresentar justamente neste momento?

O Radar Brasileiro apurou que a decisão de Milton Leite teria sido precedida por conversas e orientações de integrantes dos grupos políticos ligados ao governador Tarcísio de Freitas e ao prefeito Ricardo Nunes. A apuração ficou sabendo que Duda Lima foi o que mais tomou a dianteira para que ele procurasse a polícia.
Segundo informações obtidas pela reportagem, a avaliação nos bastidores era de que a permanência de Leite fora do alcance das autoridades poderia ampliar o desgaste político em um momento particularmente sensível: a campanha de Tarcísio pela reeleição ao Governo de São Paulo.
A preocupação, de acordo com a apuração, seria evitar que a imagem de Milton Leite como foragido dominasse o debate eleitoral e contaminasse a campanha do governador, principalmente diante da proximidade política construída entre os três personagens nos últimos anos.
A informação obtida pelo Radar se refere a integrantes de seus respectivos grupos políticos.
Uma pessoa ouvida pela reportagem resumiu o caso:
“… houve sim uma orientação com a defesa dele para se entregar. Se ele continuasse foragido seria muito prejudicial para a campanha”, disse uma das coordenadoras da campanha de Tarcísio.
A pressão aumentava
Milton Leite havia deixado sua residência antes da chegada dos policiais e passou a ser considerado foragido pelas autoridades. Na quinta-feira (17), porém, afirmou que se entregaria voluntariamente em até 24 horas. Investigadores chegaram a considerar a possibilidade de que ele tivesse sido avisado sobre a operação.
Na manhã desta sexta-feira, enquanto a polícia realizava novas diligências para localizá-lo, agentes estiveram em um imóvel ligado a um ex-assessor em Sorocaba e apreenderam aproximadamente R$ 280 mil e US$ 89 mil em espécie, segundo informações divulgadas pela imprensa. Horas depois, Milton Leite finalmente se apresentou em Mogi das Cruzes.
Para os interlocutores políticos ouvidos pelo Radar, quanto mais tempo o ex-vereador permanecesse sem se apresentar, maior seria o potencial de repercussão negativa sobre seus aliados.
A campanha de Tarcísio no centro da preocupação

A questão ganhou peso porque Milton Leite não é um personagem isolado da política paulista.
Tarcísio manteve nos últimos anos uma relação política próxima com o ex-presidente da Câmara Municipal. No dia 30 de agosto, o governador participou do lançamento das candidaturas dos filhos de Milton Leite, Alexandre Leite e Milton Leite Filho, e apareceu ao lado da família durante o evento. Ricardo Nunes também esteve presente.
Na ocasião, Tarcísio afirmou que a família Leite havia dado apoio ao seu grupo político e classificou a relação como uma parceria. Dias depois, após a deflagração da operação, o governador passou a definir seu relacionamento com Milton Leite como “institucional”.
É justamente essa proximidade política que torna a permanência de Milton Leite como foragido um problema potencial para a campanha.
O cálculo político

Segundo a apuração do Radar Brasileiro, a leitura feita nos bastidores teria sido objetiva: Milton Leite precisava se apresentar para que a crise deixasse de ser alimentada pela condição de foragido e passasse a ser tratada dentro do processo judicial.
A avaliação seria de que imagens de policiais procurando o ex-vereador, novas diligências, especulações sobre seu paradeiro e a possibilidade de uma fuga prolongada poderiam produzir uma crise política ainda maior para seus aliados.
A entrega, portanto, teria sido encarada como uma forma de reduzir a temperatura política do episódio.
A estratégia, entretanto, não elimina as perguntas sobre a investigação.
O que a polícia investiga

Milton Leite é um dos alvos da Operação Vectura Corrupta, que investiga suspeitas de infiltração do PCC no sistema de transporte coletivo. A decisão judicial citada pela imprensa aponta o ex-vereador como suposto “dono de fato” da Transwolff, acusação que ele nega veementemente. A empresa também nega que Milton tenha participação societária ou administrativa.
A operação também atingiu outros nomes ligados ao setor de transporte, incluindo o ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira.
A prisão de Milton Leite, contudo, é temporária e de natureza investigativa, não representando condenação. O ex-vereador nega as acusações e terá direito à defesa durante o processo.

A entrega de Milton Leite resolveu uma questão imediata — seu paradeiro —, mas deixou outra ainda mais evidente nos bastidores da política paulista:
até que ponto a crise envolvendo um dos principais articuladores políticos da capital poderá atingir a campanha de Tarcísio de Freitas?
Essa é a questão que começa a movimentar os bastidores eleitorais enquanto a investigação policial avança.
E, segundo o que o Radar Brasileiro apurou, a preocupação com esse impacto político teria sido um dos elementos considerados nas conversas que antecederam a decisão de Milton Leite de se apresentar às autoridades.
OUÇA O ÁUDIO EM QUE MILTON LEITE É CITADO PELO PCC: