O debate que deveria colocar Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) frente a frente na Record nesta segunda-feira (21) terminou com uma imagem: o púlpito de Tarcísio vazio no estúdio e Haddad sozinho diante das câmeras.
A emissora manteve o espaço reservado ao governador no palco. Como Tarcísio não compareceu, o formato foi convertido em uma sabatina de 30 minutos com Haddad, conforme as regras previamente acordadas pelas campanhas.
Para Haddad, entretanto, a ausência retirou do eleitor a oportunidade de colocar os dois candidatos frente a frente.
“Não consigo entender por que um homem público não presta contas do seu trabalho”, afirmou o petista após a sabatina.
Segundo Haddad, a presença de ambos permitiria ao eleitor comparar diretamente as propostas para São Paulo.
Haddad mostra o plano para a segurança
O confronto que não aconteceu
A ausência teve um efeito imediato sobre a dinâmica da eleição: Haddad passou a ser o único candidato do principal embate estadual presente no estúdio.

Em vez de responder aos ataques e questionamentos do adversário, Tarcísio deixou Haddad com todo o tempo destinado à entrevista.
O petista utilizou a oportunidade para voltar a temas que já vêm sendo explorados em sua campanha, principalmente privatizações, concessões, segurança pública, situação financeira do Estado e relações políticas.
Haddad também retomou a situação envolvendo o ex-vereador Milton Leite, preso no âmbito da Operação Vectura Corrupta. O candidato afirmou que, três semanas antes, Tarcísio havia pedido votos para os filhos de Leite durante agendas na zona sul de São Paulo.
O tema é politicamente sensível porque a investigação envolvendo Milton Leite apura suspeitas relacionadas ao crime organizado e ao transporte público. A simples presença política em agendas, porém, não constitui por si só prova de envolvimento criminal.
Fernando Haddad rabate pergunta de Gotino
Karina da Gama e a emenda de R$ 1 milhão
Outro assunto que permanece no centro das investigações é a relação entre figuras políticas e empresariais ligadas ao filme Dark Horse.
Karina Ferreira da Gama, produtora ligada ao longa sobre Jair Bolsonaro, foi alvo da Operação Make Up, da Polícia Federal.
Segundo informações reveladas pelo Radar Brasileiro, o Instituto Conhecer Brasil, ligado a Karina, recebeu R$ 1 milhão em emenda parlamentar para um projeto de empreendedorismo que, segundo o UOL, não havia saído do papel.
A investigação ganhou novo peso em setembro, quando a PF cumpriu mandados contra envolvidos no caso. Relatórios citados pela imprensa apontaram ainda que a ONG teria repassado ao menos R$ 1 milhão à empresa Go7, ligada à produtora de Dark Horse.
Os envolvidos negam irregularidades.
No debate da Record, Haddad voltou a explorar esse universo de relações suspeitas de Tarcísio e questionamentos sobre recursos públicos.
… a investigação continua em andamento e não há conclusão judicial definitiva de que a verba tenha sido desviada para o filme.
Pedágios cobrados por Tarcísio
Haddad coloca as contas de São Paulo no centro da discussão
Outro eixo da fala de Haddad foi a situação financeira e administrativa do Estado.
O candidato argumentou que São Paulo não pode ser apresentado apenas pela quantidade de obras e investimentos anunciados pelo governo.
Para ele, é necessário olhar também para as contas das empresas e estruturas públicas estaduais e para a origem dos recursos utilizados nos grandes projetos.
Haddad questionou, ainda, a narrativa de que parte dos investimentos apresentados pela gestão Tarcísio seria exclusivamente resultado da ação do governo estadual, defendendo que obras e financiamentos precisam ter sua fonte de recursos identificada.
Tarcísio vem mentindo e dizendo aos quatro cantos de São Paulo, que as obras são frutos da gestão dele. O que é mentira! O Radar Brasileiro revelou que a maior parte dos recursos vem do Governo Federal.
A discussão sobre a situação fiscal ganhou relevância depois que o Tribunal de Contas do Estado aprovou, com ressalvas, as contas de Tarcísio relativas a 2025 e fez alertas sobre a saúde financeira e a transparência da administração estadual.
O tribunal destacou, entre outros pontos, o peso das renúncias fiscais, concessões e parcerias na gestão paulista.
Metrô, Sabesp e concessões
Haddad também colocou a política de privatizações e concessões no centro da entrevista.
O candidato afirmou que pretende rever contratos assinados durante a atual gestão e declarou que não pretende privatizar as linhas do Metrô. Também voltou a criticar a desestatização da Sabesp e defendeu uma revisão dos contratos.
A mensagem política foi clara: Haddad tenta apresentar a eleição como uma escolha sobre qual modelo de Estado São Paulo terá nos próximos anos, contrapondo a estratégia de concessões e desestatizações defendida pelo atual governo a uma proposta de maior presença estatal em setores considerados estratégicos.
Educação
A conta política da ausência
O fato objetivo é que Tarcísio não esteve no palco.
E isso deixou uma situação incomum para uma eleição majoritária: o candidato à reeleição abriu mão de um confronto direto com seu principal adversário em um evento televisionado para todo o Estado.
Haddad aproveitou a ausência para apresentar propostas, criticar decisões da atual administração e insistir na necessidade de prestação de contas.
A crítica de Haddad ganhou eco justamente porque o encontro deveria servir para colocar os dois candidatos diante das mesmas perguntas. Em vez disso, a Record mostrou durante a transmissão o espaço vazio destinado a Tarcísio.
Para o eleitor, a consequência prática foi simples: Haddad falou; Tarcísio não respondeu.
E as perguntas que ficaram sem confronto direto — sobre Milton Leite, as relações políticas, as investigações envolvendo Karina da Gama, a destinação de recursos públicos, concessões, privatizações e as contas estaduais — continuam fazendo parte da disputa eleitoral.
A campanha de Tarcísio tem sustentado que os temas da eleição já vêm sendo discutidos em outros espaços e que a prioridade, nesta reta final, é conciliar a agenda de governador com a de candidato.
O próximo grande teste para os dois candidatos será o debate da TV Globo, previsto para 29 de setembro.
Até lá, a imagem da Record permanecerá como um dos episódios mais marcantes da reta final: um púlpito ocupado, outro vazio e uma eleição cada vez mais concentrada no confronto entre Haddad e Tarcísio.