Não se trata, evidentemente, de sugerir ou defender qualquer ato de violência. O ponto é outro: a campanha parece tão dependente da simbologia de 2018 que chega a flertar com a reprodução cenográfica de um episódio que decidiu a eleição. Duda Lima aperta o botão da reprise: cenário antigo, estratégia velha e candidato sem roteiro próprio. Sem ideia para criar um candidato, resta copiar o pior exemplo do pai.
A passagem de Flávio Bolsonaro por Juiz de Fora (MG) chamou atenção mais pela tentativa de reproduzir uma das cenas mais emblemáticas da trajetória eleitoral do pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que hoje, está preso por Golpe de Estado.
Durante a visita, o senador Flávio Bolsonaro refez o trajeto percorrido pelo pai em 2018, quando Jair Bolsonaro foi atacado com uma facada durante um ato de campanha na cidade.
A escolha do percurso dificilmente pode ser tratada como mero acaso. Ela se encaixa em uma estratégia de comunicação que busca aproximar a candidatura de Flávio da memória eleitoral construída pelo pai.
O movimento ocorre sob a orientação do marqueteiro Duda Lima, que já trabalhou na comunicação de Jair Bolsonaro e assumiu papel central na campanha de Flávio. A estratégia parece apostar na recuperação de imagens, símbolos e situações que ajudaram a construir a identidade eleitoral do bolsonarismo. Até pedir para o Flávio ser carregado igual Jair foi carregado na época, nos braços dos eleitores, Duda Lima pediu.
O problema é que 2026 não é 2018
Flávio Bolsonaro tenta se apresentar como continuidade política do pai, mas a repetição de cenários e símbolos levanta uma questão incômoda: até que ponto a campanha consegue apresentar uma candidatura própria sem recorrer permanentemente à memória de Jair Bolsonaro?
A impressão deixada pela visita é a de uma campanha que tenta transformar a nostalgia em estratégia eleitoral.
Em vez de construir um personagem político próprio, Flávio parece ser conduzido a ocupar o espaço deixado pelo pai, reproduzindo gestos, cenários e referências que marcaram a campanha presidencial de oito anos atrás.
A estratégia chega a um limite evidente quando se considera o episódio da facada. O ataque sofrido por Jair Bolsonaro não deveria ser transformado em elemento de espetáculo eleitoral.
A própria ideia de reproduzir excessivamente aquele cenário mostra o risco de uma comunicação política que transforma um trauma nacional em peça de campanha.
Não se trata, evidentemente, de sugerir ou defender qualquer ato de violência. O ponto é outro: a campanha parece tão dependente da simbologia de 2018 que chega a flertar com a reprodução cenográfica de um dos episódios mais dramáticos daquela eleição.
E enquanto a campanha investe na imagem, algumas perguntas sobre o presente continuam sem respostas.
Flávio se recusou a responder sobre Vorcaro, Imóveis, Dark Horse e Milícia
Em Juiz de Fora, Flávio não aproveitou a oportunidade para esclarecer questões relacionadas ao empresário Daniel Vorcaro e ao financiamento do filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro.
O senador já confirmou que manteve tratativas com Vorcaro relacionadas ao projeto. Documentos e informações divulgados posteriormente levantaram dúvidas sobre os valores envolvidos e sobre pagamentos realizados ao longo das negociações.
Um dos pontos que exigem explicação diz respeito a um pagamento adicional de US$ 1,6 milhão identificado em registros financeiros e que veio a público depois de versões anteriores sobre os repasses.
A existência desse valor tornou ainda mais relevante a necessidade de esclarecimentos públicos sobre a operação.
Também permanecem no debate a aquisição de imóveis por Flávio Bolsonaro e as operações realizadas com dinheiro em espécie.
Outro tema que permanece politicamente sensível são as suspeitas e investigações que, ao longo dos anos, envolveram pessoas ligadas ao entorno de Flávio e supostas conexões com milicianos. Novamente, acusações e suspeitas precisam ser diferenciadas de fatos comprovados — mas continuam sendo temas legítimos para questionamento jornalístico.
A questão central, portanto, não é apenas o trajeto escolhido em Juiz de Fora.
É o contraste entre uma campanha que parece disposta a reconstruir o passado em detalhes e a dificuldade de enfrentar as perguntas do presente.
Flávio pode refazer o caminho percorrido pelo pai. Pode recuperar imagens de 2018. Pode reproduzir a estética daquela campanha e explorar a memória construída em torno de Jair Bolsonaro.
Mas não pode reproduzir a conjuntura política de oito anos atrás.
A tentativa de transformar Flávio em uma espécie de continuação eleitoral de Jair Bolsonaro expõe uma fragilidade: se a principal força da candidatura está na repetição do passado, onde está o projeto próprio para o futuro?