O deputado federal e candidato ao Senado por São Paulo Guilherme Derrite destinou uma emenda Pix de R$ 2.228.800 para o governo do Estado de São Paulo com uma finalidade específica: comprar armamentos para a Polícia Militar.

Para o plano 09032026-098158, correspondente à emenda 202690600007, a cadeia oficial é:
- Plano: 09032026-098158
- Objeto: aquisição de armamento para a PM
- Valor: R$ 2.228.800
- Empenho: 2026NE001677
- Documento hábil: 2026TF000675
- Ordem bancária: 2026OB003740
- Data da ordem bancária: 12/05/2026
- Valor: R$ 2.228.800
O próprio registro bancário do governo de SP informa:
“Beneficiário sem CNPJ validado”
para os dois pagamentos.
E também:
“Pagamento sem descrição publicada”
O dinheiro foi efetivamente empenhado, teve ordem bancária emitida e chegou à conta vinculada à transferência: o rastreamento público consultado pelo Radar Brasileiro não permite identificar, até o momento, qual empresa ou pessoa recebeu os recursos na ponta da operação nem apresenta, nas informações localizadas, a comprovação da entrega das armas previstas no plano de trabalho.
Os dados oficiais do Transferegov mostram que a emenda 202690600007, de autoria de Guilherme Derrite, foi destinada ao Estado de São Paulo e teve valor integral de R$ 2.228.800. O executor previsto é a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo.
O que Derrite determinou que fosse comprado
O plano de trabalho não é genérico.
A documentação prevê a aquisição de 139 armas, divididas em três grupos:
- 40 fuzis calibre 7,62 x 51 mm, ao custo previsto de R$ 1.024.926,69;
- 39 fuzis calibre 5,56 x 45 mm, ao custo previsto de R$ 747.639,81;
- 60 submetralhadoras calibre 9 mm, ao custo previsto de R$ 456.233,50.
O próprio plano informa que os equipamentos seriam destinados ao Comando de Policiamento de Choque da PM paulista, especificamente ao 1º Batalhão de Polícia de Choque – ROTA.
Portanto, não se trata de uma emenda sem destinação definida. O documento estabelece inclusive quantidade, tipo de armamento, valor de cada meta e órgão executor.
O dinheiro chegou
A trilha financeira permite estabelecer uma cronologia precisa.

Em 8 de maio de 2026, foi registrado o empenho 2026NE001677, no valor integral de R$ 2.228.800.
Quatro dias depois, em 12 de maio de 2026, foi emitida a ordem bancária 2026OB003740, vinculada ao documento 2026TF000675, também no valor de R$ 2.228.800.
No extrato da conta específica, aparece a entrada de R$ 2.228.800 em 13 de maio de 2026.
No mesmo dia, o dinheiro foi direcionado para uma aplicação automática vinculada à conta.
Até aqui, a operação está documentada.
O dinheiro sai da conta em 30 de junho
A parte mais sensível aparece em 30 de junho de 2026.
Naquele dia, a conta registra um resgate automático de R$ 2.259.236,48. Em seguida, aparece uma saída de R$ 2.259.236,48 por emissão de ordem bancária, identificada pela referência 122.
O lançamento é dividido em dois pagamentos:
R$ 2.228.800,00
e
R$ 30.436,48.
Depois dessa movimentação, o saldo informado da conta específica é R$ 0,00.
É justamente aqui que surge a pergunta central desta investigação:
quem recebeu os R$ 2.228.800 destinados à compra das armas?
A base pública consultada não apresenta o nome da pessoa física beneficiária e também não apresenta um CNPJ empresarial validado associado ao pagamento. O próprio sistema consultado informa que, quando não existe CNPJ validado, o beneficiário aparece sem identificação empresarial e a descrição do pagamento não é publicada.
Isso significa que o dinheiro saiu da conta, mas o rastreamento público acessível não permite identificar o destinatário final da operação.
Não há, até agora, prova pública localizada de que as 139 armas foram entregues

É importante fazer uma distinção.
O plano de trabalho prevê a compra de 139 armas. A ordem bancária comprova a movimentação financeira. Mas o próprio registro do Transferegov alerta que a existência das metas não comprova a entrega dos objetos.
Assim, até a conclusão desta apuração, o Radar Brasileiro não encontrou nos dados públicos consultados:
a empresa fornecedora das armas;
o CNPJ do fornecedor;
o contrato de compra correspondente;
a nota fiscal vinculada aos R$ 2.228.800;
a identificação pública do recebedor final da ordem bancária;
ou o documento público que comprove a entrega das 139 armas à PMESP.
Isso não significa, por si só, que as armas não tenham sido compradas.
Significa que a cadeia documental disponível não permitiu ao Radar Brasileiro confirmar a compra e a entrega dos armamentos a partir do dinheiro rastreado.
O segundo rastro encontrado pela investigação
Durante a busca pela destinação dos recursos, o Radar Brasileiro também cruzou os dados financeiros da operação com a declaração de patrimônio apresentada por Guilherme Derrite à Justiça Eleitoral em 2026.
O CNPJ informado na declaração corresponde à Guerini Planejamentos Ltda., empresa do setor imobiliário.
O terreno é, de longe, o maior patrimônio individual declarado por Derrite em 2026. A declaração totaliza R$ 2.021.196,05, e somente essa fração de terreno representa aproximadamente 57,8% de todo o patrimônio declarado pelo candidato.
Em 2022, Derrite declarou esses itens na justiça eleitoral.
Em 2026, Derrite declarou esses itens na justiça eleitoral.
A coincidência dos valores
É aqui que o cruzamento financeiro exige atenção.
A emenda destinada à compra de armas foi de:
R$ 2.228.800,00.
A fração de terreno declarada por Derrite vale:
R$ 1.168.538,85.
O valor declarado pelo candidato corresponde a 52,43% do total da emenda.
A metade exata da emenda seria:
R$ 1.114.400,00.
A diferença entre os dois valores é de:
R$ 54.138,85.
Há, porém, outra maneira de olhar para a declaração.
Como Derrite informa que possui 50% da fração, o valor proporcionalmente equivalente a 100% do imóvel, se a declaração representar exatamente metade do preço patrimonial, seria de aproximadamente:
R$ 2.337.077,70.
Esse valor fica R$ 108.277,70 acima dos R$ 2.228.800 da emenda.
A coincidência numérica, portanto, existe, mas não prova qualquer relação entre o dinheiro público e a aquisição do imóvel.
A compra do terreno ainda é uma pergunta em aberto
A declaração eleitoral não informa, por si só, a matrícula do imóvel, o lote, a quadra, o empreendimento, a data do negócio ou a forma de pagamento.
Comprador: Guilherme Muraro Derrite
Vendedor: Guerini Planejamentos Ltda.
CNPJ vendedor: 67.356.568/0001-10
Valor declarado por Derrite: R$ 1.168.538,85
Participação declarada: 50%
Valor correspondente a 100% da fração, se a declaração representar exatamente metade: R$ 2.337.077,70
Ela informa apenas que se trata de uma “50% da compra de terreno/fração” adquirida do CNPJ 67.356.568/0001-10.
O Radar Brasileiro localizou a empresa vendedora e documentos públicos que relacionam a Guerini a propriedades e empreendimentos imobiliários em Boituva. Entretanto, a matrícula específica adquirida por Derrite ainda não foi identificada de maneira documental nesta apuração.
Essa é uma peça fundamental que ainda falta para fechar a cronologia.
O que aconteceu primeiro?
A documentação já permite estabelecer parte da linha do tempo:
8 de maio de 2026 — empenho de R$ 2.228.800 da emenda de Derrite.
12 de maio de 2026 — emissão da ordem bancária federal de R$ 2.228.800.
13 de maio de 2026 — entrada dos R$ 2.228.800 na conta específica da transferência.
13 de maio de 2026 — aplicação automática dos recursos.
30 de junho de 2026 — resgate automático de R$ 2.259.236,48.
30 de junho de 2026 — saída de R$ 2.259.236,48 por ordem bancária, dividida em dois pagamentos, sendo um de R$ 2.228.800 e outro de R$ 30.436,48.
2026 — Derrite declara à Justiça Eleitoral a aquisição de 50% de um terreno/fração por R$ 1.168.538,85.
O que ainda não está documentado publicamente na base consultada é a data exata da compra do terreno.
A pergunta que permanece
O dinheiro da emenda foi destinado formalmente à compra de armas para a Polícia Militar.
O dinheiro foi empenhado.
A ordem bancária foi emitida.
O recurso entrou na conta específica.
O recurso permaneceu aplicado.
E, em 30 de junho, o dinheiro saiu da conta por ordem bancária, deixando saldo zero.
Mas a identificação pública disponível do pagamento final é insuficiente para responder uma pergunta elementar de transparência:
quem recebeu os R$ 2.228.800?
E uma segunda pergunta permanece:
onde está o documento que comprova que os R$ 2.228.800 efetivamente financiaram a compra das 139 armas previstas no plano?
É essa ponta que o Radar Brasileiro seguirá investigando.
O que existe é uma sequência financeira documentada, uma aquisição imobiliária de alto valor declarada pelo próprio candidato e uma lacuna na identificação pública do destinatário final dos recursos destinados à compra das armas.
A matrícula do imóvel e o documento que identifique o fornecedor das armas são, agora, as duas peças capazes de esclarecer os dois lados dessa investigação.