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EXCLUSIVO: Perícia não consegue desbloquear aparelho de Karina da Gama e SSP barra investigação interna

Política

O aparelho chegou para análise sem que a senha necessária para o acesso tivesse sido informada. A alternativa utilizada foi tentar romper o bloqueio por meio do software forense. Como o programa não era compatível com aquele modelo e sistema operacional, a tentativa fracassou. Há cinco dias o Radar Brasileiro está esperando uma posição da SSP, do Sindicato dos Delegados e da Corregedoria da Polícia Civil. Até o momento, nenhuma resposta. SSP havia dito que não houve comprometimento da cadeia de custódia, mas documentos mostram que perícia recusou celulares, notebooks e pendrives e obrigou a Polícia Civil a refazer lacres. Governador de SP, Tarcísio de Freitas tem conhecimento e 'abafou' o caso.

Um laudo da Polícia Científica de São Paulo obtido pelo jornalista Maicon Mendes do Radar Brasileiro revela um ponto central da investigação envolvendo Karina Ferreira da Gama: a senha de desbloqueio de um dos aparelhos celulares apreendidos não foi informada à perícia, e a tentativa de acesso realizada pelos peritos por meio do sistema forense Cellebrite não conseguiu desbloquear o dispositivo.

O documento é direto ao registrar que a perícia recebeu o aparelho sem a respectiva senha e que, diante disso, tentou realizar o desbloqueio por meio da plataforma CELLEBRITE Inseyets UFED.

“Cumpre informar que, na requisição de exame pericial não foi informada a senha de desbloqueio do aparelho, de modo que o equipamento foi diretamente conectado a plataforma CELLEBRITE Inseyets UFED para tentativa de desbloqueio.”

Segundo o laudo, entretanto, a tentativa não teve êxito porque o software utilizado não oferecia suporte ao modelo do aparelho e à versão do sistema operacional instalada.

“Entretanto, devido à falta de suporte do software forense a este modelo de aparelho e versão de sistema operacional do dispositivo, não foi obtido êxito no desbloqueio do aparelho, fato que inviabilizou o acesso e extração do possível conteúdo de sua memória interna.”

O resultado é especialmente relevante porque significa que, naquele exame pericial, os investigadores não conseguiram acessar o conteúdo armazenado no celular.

Aparelho permaneceu inacessível

Na conclusão, o perito responsável é ainda mais categórico. Sem conseguir desbloquear o aparelho e extrair seus dados, a perícia afirma que não foi possível determinar se havia informações de interesse para a investigação.

“Devido à impossibilidade de extração e acesso ao possível conteúdo do aparelho celular examinado, nada se pode afirmar quanto ao teor de possíveis conteúdos de interesse.”

O laudo foi assinado digitalmente pelo perito Vitor Soares Gottardo em 13 de julho de 2026. A via do documento foi posteriormente extraída por Mauro Sergio Gagliotti, em 24 de julho de 2026.

O documento oficial possui nove páginas e informa que o original está armazenado no Sistema Gestor de Documentos e Laudos (GDL) da Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC).

A versão do governo de São Paulo de que não houve qualquer problema com as provas apreendidas na investigação do caso Dark Horse é colocada em xeque pelos próprios documentos produzidos pelos órgãos de segurança do Estado.

Após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar o sigilo da investigação, vieram a público registros que mostram que o Instituto de Criminalística de São Paulo recusou inicialmente uma série de aparelhos eletrônicos apreendidos pela Polícia Civil porque as embalagens apresentavam falhas que permitiam acesso aos equipamentos mesmo com os lacres aparentemente intactos.

Foram atingidos celulares, notebooks e pendrives. Os documentos apontam que, em parte dos invólucros, havia espaço suficiente para a passagem de cabo de alimentação e transferência de dados. Em outros casos, a abertura permitia até retirar o dispositivo da embalagem sem romper o lacre.

A perícia registrou que, em determinados dispositivos, havia “vão suficiente para entrada de cabo de alimentação e transferência de dados”, situação que tornava possível a manipulação dos dados existentes no aparelho.

A prova teve de voltar para a Polícia Civil

O episódio ganha ainda mais gravidade porque os equipamentos não foram simplesmente aceitos pela perícia com uma ressalva.

Eles foram devolvidos à Polícia Civil.

Uma certidão assinada em 8 de junho pelo escrivão Mauro Sergio Gagliotti registra que foi necessária a “readequação dos invólucros e a aposição de novos lacres”.

O motivo também aparece expressamente no documento: preservar a integridade dos objetos e assegurar a manutenção da cadeia de custódia.

A sequência documentada é objetiva:

1º de junho: aparelhos são apreendidos pela Polícia Civil.

3 de junho: materiais são encaminhados ao Instituto de Criminalística.

3 de junho: parte dos equipamentos é recusada pela perícia por problemas nos invólucros.

8 de junho: os objetos retornam à Polícia Civil.

8 de junho: os invólucros são readequados e novos lacres são colocados.

Depois disso: o material volta a ser encaminhado para análise.

Não se trata, portanto, de uma hipótese levantada por adversários políticos ou de uma interpretação jornalística sobre o que aconteceu. A própria documentação da investigação registra a necessidade de refazer as embalagens e os lacres.

Documento desmente versão de Tarcísio “não houve problema”

É justamente aí que surge a contradição. O documento oficial da própria Polícia Civil de São Paulo desmente o que Tarcísio de Freitas falou para a imprensa. Desmente a narrativa do governador em colocar “panos quentes” numa apreensão gravíssima feita no âmbito da operação Dark Horse.

Para não afetar as eleições e a campanha, Tarcísio de Freitas baixou uma ordem:

“SOMENTE ELE PODERIA FALAR SOBRE O ASSUNTO E QUE NENHUM DELEGADO, PERITO OU CHEFE DE INVESTIGADORES DO CASO ‘DARK HORSE’ PODERIAM EMITIR NENHUM COMUNIDADO A IMPRENSA”, disse um dos investigadores do Instituto de Criminalística de São Paulo.

Mesmo diante desses registros, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo adotou outra linha de defesa.

Em nota divulgada após a abertura dos documentos, a SSP afirmou que os dispositivos foram lacrados pela Polícia Civil nos locais das apreensões, na presença de testemunhas, e sustentou que a recusa da perícia teria sido apenas uma medida preventiva.

Segundo a secretaria, embora os lacres estivessem íntegros, algumas embalagens apresentavam pequenos espaços e, por isso, os materiais foram devolvidos para adequação

A SSP também afirmou que não houve acesso, extração ou manipulação dos dados e que a cadeia de custódia não teria sido comprometida.

É justamente aí que surge a contradição. O documento oficial da própria polícia de São Paulo desmente o que Tarcísio de Freitas falou para a imprensa. Demente a narrativa do governador em colocar “panos quentes” numa apreensão gravíssima feita no âmbito da operação Dark Horse.

Se não havia problema relevante na forma como os objetos estavam acondicionados, por que o Instituto de Criminalística recusou os equipamentos?

E mais: por que a própria Polícia Civil precisou readequar as embalagens e colocar novos lacres antes de reenviar os aparelhos à perícia?

O Radar Brasileiro apurou que um procedimento interno foi aberto por um dos delegados do caso ‘Dark Horse’ para apurar o desvio de conduta, e que esse mesmo procedimento foi encerrado pela Secretaria de Segurança Pública. Após o fechamento deste procedimento interno, a corregedoria foi acionada juntamente com o sindicato dos delegados. Os dois órgãos da polícia civil de SP também encerraram a investigação interna, a mando do governador Tarcísio de Freitas. 

O ponto que o governo tenta reduzir a “pequenos espaços”

A expressão utilizada pela SSP — “pequenos espaços” — não traduz integralmente o que consta nos documentos periciais.

Segundo os registros técnicos, as aberturas eram suficientes, em determinados casos, para permitir a introdução de um cabo de alimentação e transferência de dados.

Isso significa que, mesmo sem romper o selo numerado, existia uma possibilidade física de alcançar o equipamento.

No caso de determinados pendrives, a situação era ainda mais grave: os peritos identificaram abertura suficiente para permitir a retirada da peça que deveria ser periciada.

É exatamente por isso que a perícia não tratou o problema como uma simples imperfeição estética da embalagem.

O material voltou para a Polícia Civil e recebeu novos invólucros e novos lacres.

O problema não termina nos lacres

Os documentos tornados públicos também revelam outras limitações na preservação e no tratamento das provas digitais.

Um laudo do Instituto de Criminalística afirma que o Núcleo de Perícias de Informática não dispõe de suporte para armazenar a quantidade de dados extraídos diariamente e, por isso, não realiza backups das extrações efetuadas.

Outro documento afirma que o Instituto de Criminalística não possui, naquele momento, uma Central de Custódia Digital para controle e guarda do conteúdo extraído dos equipamentos.

A consequência registrada pelos próprios peritos é relevante: caso seja necessário repetir uma extração, será preciso apresentar novamente o aparelho original, e uma nova tentativa poderá ser infrutífera dependendo do estado do equipamento.

houve uma falha no acondicionamento que levou a perícia a rejeitar os equipamentos e obrigou a Polícia Civil a refazer os procedimentos de lacração.

Por que o governo tem responsabilidade política sobre o episódio?

A Polícia Civil de São Paulo está subordinada à estrutura da Secretaria da Segurança Pública do Estado.

Por isso, quando uma falha operacional acontece na coleta, acondicionamento ou encaminhamento de uma prova produzida pela própria Polícia Civil, não basta responder que “os lacres estavam íntegros”.

A pergunta é outra:

o procedimento adotado pela polícia garantia efetivamente que ninguém pudesse acessar o conteúdo dos equipamentos sem romper a embalagem?

Os documentos periciais indicam que, inicialmente, a resposta foi negativa.

A perícia encontrou uma abertura que permitia acesso físico aos aparelhos e devolveu o material para correção. A própria Polícia Civil reconheceu a necessidade de readequar os invólucros e instalar novos lacres para preservar a cadeia de custódia.

E há uma pergunta ainda maior

O caso se torna particularmente sensível porque os equipamentos fazem parte de uma investigação que envolve suspeitas de utilização irregular de recursos públicos e que alcançou pessoas ligadas à produção do filme Dark Horse, entre elas a empresária Karina Gama.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, sabia de tudo e de todo o panorama da investigação.

Agora, com o levantamento do sigilo, o STF determinou que a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo encaminhe à Polícia Federal o material bruto extraído dos celulares, além dos aparelhos, computadores e documentos apreendidos.

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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