Investigação do DPPC revela uso de faturas canceladas, autocontratação no terceiro setor, subcontratação de empresa ligada a um homem preso por feminicídio e falta de resposta da Secretaria de Inovação da gestão, do secretário Humberto de Alencar, da gestão do prefeito Ricardo Nunes.
A investigação da Polícia Civil de São Paulo colocou sob suspeita R$ 16,5 milhões em recursos públicos destinados a projetos de inclusão digital na capital paulista e levou os investigadores a pedir à Justiça medidas de busca e apreensão que podem atingir não apenas empresas e pessoas físicas, mas também a estrutura e gabinete do prefeito Ricardo Nunes.
O caso é investigado pela Divisão de Crimes Contra a Administração Pública (DICCA), do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), no âmbito do Inquérito Policial nº 2104062-06.2026.900842.

No centro da investigação está uma parceria envolvendo a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), CNPJ 01.718.634/0001-47, registrada pela proprietária, Karina Ferreira da Gama, listada como presidente.

Segundo a representação policial, a análise da documentação apresentada para justificar a utilização dos recursos encontrou indícios de irregularidades fiscais, documentos cancelados posteriormente utilizados como comprovação de despesas, possível duplicidade de pagamentos, autofaturamento e uma subcontratação de R$ 12 milhões.
A apuração avançou a tal ponto que os investigadores solicitaram autorização judicial para realizar buscas em endereços ligados aos investigados e na própria Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.

Além desse crime envolvendo Karina Ferreira da Gama e a prefeitura de São Paulo, o Radar Brasileiro já havia noticiado com exclusividade mais um crime praticado por Karina da Gama, envolvendo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

O Radar Brasileiro refez o caminho de uma emenda Pix de R$ 1 milhão destinada pelo deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) para um projeto audiovisual ligado à empresária Karina Ferreira da Gama, alvo da Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União nesta quinta-feira (10). E de outra, de R$ 150 mil, pela deputada Bia Kicis à Academia Nacional de Cultura (ANC).
O Radar Brasileiro estava certo e o documento mostra que o dinheiro desapareceu e até agora Tarcísio de Freitas não fala nada sobre o assunto. Pelo contrário, foge dos questionamentos da imprensa.

Ricardo Nunes xinga equipe após ser questionado sobre Karina da Gama
A reportagem também tentou ouvir diretamente o prefeito Ricardo Nunes sobre as relações da Prefeitura de São Paulo com Karina Ferreira da Gama, personagem que aparece no conjunto de informações levantadas durante a investigação.
A tentativa de entrevista ocorreu durante um evento voltado a servidores da área da saúde, realizado no bairro da Liberdade, em São Paulo. O evento também era direcionado à mobilização política em torno da campanha de Tarcísio de Freitas.
Ao término do evento, a reportagem tentou entrevistar o governador. Tarcísio não respondeu às perguntas e deixou o local sem conceder entrevista.
Na sequência, a equipe tentou abordar Ricardo Nunes. O prefeito chegou a chamar Tarcísio para que deixassem o local, evitando inicialmente responder aos questionamentos.
Mesmo assim, a reportagem conseguiu falar com Nunes e perguntou sobre o envolvimento da administração municipal com Karina da Gama.
A reação do prefeito foi agressiva. Em vez de responder às perguntas sobre os fatos levantados pela reportagem, Nunes chamou a reportagem de “mentirosa” e dirigiu xingamentos à equipe.
A reação ocorreu justamente quando o prefeito era questionado sobre uma questão objetiva: qual é a relação da Prefeitura de São Paulo com Karina da Gama e quais providências a administração municipal adotou diante das informações que envolvem seu nome?
Karina, por meio de seu advogado, havia afirmado que estava se sentindo “sozinha e abandonada” diante dos desdobramentos do caso.
A reportagem procurou Nunes para que ele pudesse esclarecer publicamente essas relações e apresentar sua versão sobre os fatos.
O prefeito, porém, não respondeu às perguntas e preferiu atacar a reportagem.
Faturas de R$ 8,5 milhões sem nota fiscal

Um dos pontos considerados mais graves pela Polícia Civil envolve a Make One Tecnologia Digital Ltda.
De acordo com o relatório policial, quatro faturas apresentadas pelo Instituto Conhecer Brasil somavam aproximadamente R$ 8,5 milhões e foram utilizadas para justificar despesas relacionadas à locação de equipamentos.

Os investigadores apontaram que os documentos apresentavam numeração sequencial, foram emitidos na mesma data e possuíam os mesmos prazos de vencimento.

O problema, segundo a investigação, é que não teria sido localizada a correspondente emissão de notas fiscais nem o recolhimento dos tributos relacionados às operações.

Para os investigadores, o conjunto desses elementos levanta suspeitas sobre a efetiva realização das operações e sobre a forma como os gastos foram comprovados perante a administração municipal.
Nota de R$ 2 milhões foi cancelada e continuou sendo usada

Outro episódio destacado pela Polícia Civil envolve a Complexys Soluções Integradas Ltda., controlada por André Feldman.
A empresa apresentou uma nota fiscal de R$ 2 milhões utilizada na prestação de contas referente a fevereiro de 2026.
Segundo a investigação, entretanto, o documento fiscal havia sido cancelado no próprio dia de sua emissão, 6 de novembro de 2025.
Mesmo assim, a nota teria continuado a ser utilizada no procedimento de prestação de contas apresentado à Prefeitura como comprovação da despesa.
Para a Polícia Civil, a utilização de um documento fiscal cancelado constitui um dos elementos que precisam ser esclarecidos para determinar se houve efetiva prestação dos serviços e circulação dos recursos.
Três notas de empresa do Ceará também aparecem na prestação de contas

A investigação encontrou ainda três documentos fiscais emitidos pela JR Feijão Ltda., empresa sediada no Ceará, que juntos somariam R$ 406 mil.
Entre eles está uma nota de R$ 199,4 mil, que, segundo os investigadores, havia sido cancelada em 16 de abril de 2025.
A inclusão de documentos cancelados na prestação de contas é tratada pela investigação como parte do conjunto de indícios que justificaram o aprofundamento das diligências.
Polícia aponta autofaturamento e pagamentos em duplicidade

Outro capítulo da apuração envolve o próprio Instituto Conhecer Brasil.
Segundo os investigadores, foram identificadas operações nas quais o instituto teria emitido documentos fiscais contra ele próprio, em valores superiores a R$ 1,4 milhão.
A Polícia Civil também aponta a existência de duplicidade de pagamentos que chegaria a R$ 925 mil.

Esses elementos são considerados relevantes porque a prestação de contas de uma parceria com recursos públicos deve permitir identificar, de forma objetiva, quem recebeu o dinheiro, por qual serviço, mediante qual documento fiscal e se o serviço efetivamente foi executado.
É justamente essa cadeia financeira que a investigação tenta reconstruir.
R$ 12 milhões foram parar em empresa subcontratada

A investigação encontrou ainda uma movimentação de maior magnitude: R$ 12 milhões repassados pelo Instituto Conhecer Brasil à empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., atualmente denominada Urban Connect.
O contrato de subcontratação chamou a atenção dos investigadores também pela forma como o representante empresarial aparece identificado.
Segundo o relatório policial, o documento teria registrado o representante apenas como “Alex”, sem apresentar sobrenome, RG ou CPF.
A Polícia Civil realizou então diligências para identificar quem estava por trás da empresa.
Os investigadores apontaram como controlador Alex Leandro Bispo dos Santos, contra quem havia sido decretada prisão preventiva em investigação relacionada a feminicídio.
Depois da prisão, empresa muda de titular

Outro fato considerado relevante pela investigação foi a alteração da composição da empresa.
Segundo o relatório policial, depois da decretação da prisão de Alex, a titularidade da Favela Conectada teria sido transferida para Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes.

Os investigadores apontaram ainda que Tatiane e Alex estariam vinculados ao mesmo endereço residencial.
Para a Polícia Civil, a combinação desses elementos demanda investigação sobre uma possível tentativa de ocultação da real estrutura de controle da empresa e eventual blindagem patrimonial.
Instituto divide endereço com empresas da Dark Horse

As diligências também identificaram uma conexão física que chamou a atenção dos investigadores.
O Instituto Conhecer Brasil aparece associado ao endereço comercial da Avenida Paulista, nº 807, conjunto 2315, onde também estariam registradas ou funcionando a Go Up Entertainment Ltda. e a Go7 Assessoria.
A Go Up Entertainment aparece relacionada à produção do filme Dark Horse.
Segundo a Polícia Civil, a utilização comum de endereço, estrutura e pessoal pode indicar uma sobreposição operacional entre diferentes empresas e entidades.
O ponto é relevante para a investigação porque os policiais procuram descobrir se recursos destinados a projetos sociais e de inclusão digital acabaram, direta ou indiretamente, financiando estruturas privadas ou operações estranhas à finalidade original da parceria.
Prefeitura não responde ofício e polícia pede busca em Secretaria
Um dos elementos mais sensíveis do relatório policial diz respeito à própria administração municipal, gerenciada pelo prefeito Ricardo Nunes.
Segundo a representação, a Polícia Civil encaminhou à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia o Ofício nº 117/2026, solicitando documentos considerados essenciais para a investigação.

Entre os materiais solicitados estavam a íntegra do processo de contratação, relatórios de medição e informações sobre os fiscais e gestores responsáveis pelo acompanhamento da parceria.
A ausência dos documentos teria levado a Polícia Civil a buscar uma medida mais invasiva: autorização judicial para realizar busca e apreensão dentro da própria estrutura da Secretaria. A ordem teria partido do gabinete do prefeito Ricardo Nunes e do setor jurídico da prefeitura. A medida de não responder seria “ganhar tempo” no âmbito da investigação.
A diligência pretendida teria como objetivo localizar e apreender computadores, mídias, documentos físicos e outros elementos capazes de esclarecer como os pagamentos foram analisados, aprovados e registrados pela administração municipal.
Em outras palavras, a investigação não quer descobrir apenas quem recebeu o dinheiro.
A Polícia Civil também pretende saber quem autorizou os pagamentos, quem conferiu as notas, quem fiscalizou os serviços e quais documentos foram utilizados pela Prefeitura para considerar regular a prestação de contas.