Servidores das redes municipal e estadual de Saúde de São Paulo relatam ter sido pressionados por superiores a participar de um evento político realizado na semana passada no Hakka Eventos, no bairro da Liberdade, região central da capital paulista, que teve a presença do prefeito Ricardo Nunes e do governador e candidato à reeleição Tarcísio de Freitas.
Segundo relatos obtidos pelo Radar Brasileiro, funcionários que ocupam cargos de confiança, entre eles supervisores, gerentes de unidades e coordenadores, teriam recebido a determinação de mobilizar subordinados para comparecer ao encontro. O não comparecimento poderia resultar em retaliação no trabalho.

A orientação, segundo servidores ouvidos pela reportagem, não terminava na presença física no evento. Funcionários teriam sido orientados a tirar fotografias dentro do local e encaminhá-las aos grupos de WhatsApp utilizados pelas equipes de trabalho como forma de comprovar que haviam cumprido a determinação.
O Radar Brasileiro conversou com servidores da área da Saúde que confirmaram a participação no evento a partir de uma orientação recebida dentro da estrutura das secretarias municipal e estadual.
A reportagem também esteve no local e registrou a movimentação política na entrada do Hakka Eventos.
Material de campanha na porta do evento
Na entrada do espaço, uma equipe ligada à campanha de Tarcísio de Freitas foi preparada para receber os participantes. Foram distribuídos santinhos, panfletos, bandeiras e adesivos com referências aos candidatos apoiados pelo grupo político.

A equipe do Radar Brasileiro registrou em vídeo a mobilização dos servidores e a distribuição de material político no local.
No palco, o prefeito Ricardo Nunes comandou a atividade e fez pedidos de apoio eleitoral a Tarcísio de Freitas, André do Prado e Guilherme Derrite, além de manifestações de apoio à sua própria esposa, Regina Nunes, que também disputa espaço político para deputada estadual.
O evento, portanto, não se limitou a uma atividade administrativa ou institucional relacionada à Saúde. A presença de candidatos, a distribuição de material de campanha e os pedidos de voto caracterizaram uma atividade de natureza política e eleitoral.
Servidores dizem que presença foi determinada por superiores
Os relatos obtidos pelo Radar Brasileiro apontam para um mecanismo de mobilização que teria começado dentro das próprias unidades de Saúde.

De acordo com servidores ouvidos pela reportagem, os ocupantes de cargos de chefia teriam sido responsáveis por repassar a determinação aos funcionários e cobrar a presença no evento.
Ônibus e Vans foram teriam sido fretados pela prefeitura e o governo do Estado.
Em alguns casos, segundo os relatos, a comprovação teria sido feita por meio do envio de fotografias nos grupos de WhatsApp utilizados pelas equipes de trabalho.
A situação é especialmente sensível porque envolve servidores públicos e estruturas hierárquicas da administração municipal e estadual.
A legislação eleitoral estabelece restrições específicas à utilização da máquina pública durante a campanha.
A Lei das Eleições proíbe, por exemplo, que a administração ceda servidores ou utilize seus serviços em favor de comitês de campanha durante o horário normal de expediente. A própria legislação considera agente público quem exerce cargo, emprego ou função na administração, ainda que temporariamente ou sem remuneração.
Além disso, o artigo 300 do Código Eleitoral estabelece que é crime “valer-se o servidor público da sua autoridade para coagir alguém a votar ou não votar em determinado candidato ou partido”, com previsão de detenção e multa.

Por isso, caso seja comprovado que servidores foram efetivamente obrigados ou pressionados, mediante a utilização da estrutura hierárquica da administração pública, a comparecer a uma atividade eleitoral para apoiar determinados candidatos, os fatos poderão ser submetidos à análise da Justiça Eleitoral por possível coação eleitoral e abuso de poder político.
A legislação eleitoral também prevê a apuração de abuso de poder e de condutas vedadas a agentes públicos durante a campanha.
Paralisação ocorreu dias depois
O episódio ganhou ainda mais relevância diante do movimento dos próprios servidores da Saúde ocorrido na semana seguinte.
Funcionários paralisaram as atividades e ameaçaram entrar em greve em razão de pagamentos atrasados, acordos que, segundo a categoria, não teriam sido cumpridos e condições de trabalho consideradas excessivamente desgastantes.
A mobilização chegou ao centro da cidade e provocou o fechamento do Viaduto do Chá, em frente à sede da Prefeitura de São Paulo.
O contraste chama atenção: enquanto servidores relatam pressão para comparecer a um evento político e demonstrar apoio a candidatos, a categoria enfrentava reivindicações relacionadas às próprias condições de trabalho e ao cumprimento de compromissos assumidos pela administração.
Radar Brasileiro procurou os responsáveis
O Radar Brasileiro busca esclarecer quem determinou a mobilização, quais órgãos participaram da organização, se houve orientação formal das Secretarias Municipal e Estadual da Saúde e se os servidores foram liberados durante o expediente para participar do evento.
O prefeito Ricardo Nunes ao ser questionado sobre o evento e também sobre a relação da gestão dele com a produtora Karina Ferreira da Gama, xingou a equipe de reportagem.
A reportagem do Radar Brasileiro também questiona se houve utilização de estruturas públicas ou de chefias da administração para convocar funcionários, bem como quem custeou a mobilização e a distribuição dos materiais de campanha.
O caso pode ser encaminhado às autoridades eleitorais para apuração.
O TRE-SP mantém, para as Eleições 2026, canais específicos para denúncias de irregularidades eleitorais, inclusive o aplicativo Pardal e o Ministério Público Eleitoral. A Corte também disponibilizou cartilha específica sobre o que é permitido e proibido durante a campanha.
O Radar Brasileiro continuará acompanhando o caso e preservará a identidade dos servidores que forneceram informações à reportagem.