O que inicialmente poderia parecer apenas uma coincidência de tema ganha outra dimensão quando os dois materiais são colocados lado a lado.
A campanha de Tarcísio de Freitas reproduz a estrutura narrativa utilizada pela campanha de Fernando Haddad em 2022 para contar a história de uma estudante que sonha em ser médica.
A personagem muda.
O roteiro permanece. Tudo copiado.
É essa a constatação central da comparação feita pelo Radar Brasileiro.
No vídeo de Haddad, uma estudante negra, usando óculos, conta como cresceu acreditando que jamais conseguiria ser médica. Ela fala da ausência de referências de mulheres de sua cor na Medicina e apresenta o ProUni como instrumento que transformou sua perspectiva.
No vídeo de Tarcísio, outra estudante aparece e conta praticamente a mesma história sob outra embalagem.
A personagem mudou. A história, não.
A comparação feita pelo Radar Brasileiro não está baseada simplesmente no fato de os dois vídeos falarem sobre educação.
Está na sequência utilizada para construir a propaganda.
Haddad — 2022
1. Jovem estudante.
2. Sonho de ser médica.
3. A Medicina aparece como algo distante de sua realidade.
4. Ela fala sobre a falta de referências e as barreiras que enfrentou.
5. Surge a política educacional.
6. A política é apresentada como aquilo que tornou possível mudar sua trajetória.
Tarcísio — 2026
1. Jovem estudante.
2. Sonho de ser médica.
3. Ela conta que ouviu que Medicina não era para ela.
4. Diz que ninguém de sua família havia feito faculdade.
5. Surge Tarcísio.
6. O Provão Paulista aparece como aquilo que muda sua trajetória.
Troque o nome do programa. Troque a personagem. A espinha dorsal da história permanece.
Até a construção emocional é repetida
O objetivo da peça é o mesmo: apresentar uma estudante que olha para a Medicina como um sonho distante e, depois, mostrar uma política pública associada ao candidato como o instrumento que transforma esse sonho em realidade.
No material de Haddad, a frase é particularmente explícita:
“Tá aí, Érica, agora você pode.”
No material de Tarcísio, a mesma lógica aparece novamente: a estudante começa falando da impossibilidade de chegar à Medicina e a narrativa desemboca no Provão Paulista.
Não é simplesmente uma propaganda dizendo que “o governo ajuda estudantes”.
É uma história cuidadosamente construída com sonho + impossibilidade + origem familiar + política pública + transformação pessoal.
E é justamente essa sequência que o Radar Brasileiro aponta como reprodução.
Tarcísio pegou uma fórmula pronta?
A pergunta que fica para a campanha é objetiva:
quem escreveu esse roteiro?
Porque, se a campanha de Tarcísio desenvolveu a peça de maneira independente, será importante explicar como chegou justamente à mesma construção narrativa usada anteriormente por Haddad.
Qual foi a agência?
Quem escreveu?
Quem dirigiu?
Quando o roteiro foi aprovado?
A equipe conhecia a propaganda de 2022?
Houve utilização de algum material anterior como referência?
São perguntas que podem ser respondidas documentalmente.
A questão é a propaganda
É importante separar duas coisas.
O Provão Paulista é uma política pública.
Portanto, a questão levantada pelo Radar Brasileiro não é a existência do programa.
É a forma escolhida para vendê-lo eleitoralmente.
Tarcísio poderia apresentar números, vagas, universidades, resultados e histórias de estudantes.
Mas a campanha escolheu uma narrativa na qual uma jovem diz que Medicina não era para ela, afirma que ninguém da família havia cursado faculdade e, depois, apresenta o candidato e seu programa como a virada de sua vida.
É justamente aí que está a reprodução apontada pelo Radar.
Não é a mesma garota. É a mesma história
E esse talvez seja o ponto mais importante da comparação.
Não é necessário afirmar que a estudante é a mesma.
Ela claramente não é.
Também não é necessário dizer que os dois vídeos possuem os mesmos enquadramentos em todos os momentos.
O que está sendo questionado é outra coisa:
por que a nova personagem foi colocada para contar praticamente a mesma história que outra personagem já havia contado em uma campanha eleitoral anterior?
A propaganda de Tarcísio parece ter encontrado uma solução simples:
manter a narrativa e trocar a personagem.
A campanha precisa explicar
Se a comparação se confirmar integralmente nos vídeos originais, a discussão deixa de ser uma mera coincidência temática e passa a envolver reprodução de elementos concretos de uma peça publicitária anterior.
E isso merece explicação pública.