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Flávio Bolsonaro destinou quase R$ 200 mil em dinheiro público para miliciano condenado no caso Marielle

Brasil

Robson Calixto, o “Peixe”, pediu recursos ao gabinete do senador para um projeto social na Zona Oeste do Rio; mensagens mostram assessora de Flávio tratando da liberação da verba e dizendo “pode deixar”.

Uma nova investigação coloca o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no centro de uma operação envolvendo emenda parlamentar, dinheiro público e um miliciano condenado pelo Supremo Tribunal Federal por envolvimento no assassinato de Marielle Franco.

Segundo documentos e mensagens obtidos pelo Radar Brasileiro, o miliciano Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”, procurou uma assessora do gabinete de Flávio Bolsonaro em 2023 para pedir recursos públicos destinados a um projeto de futebol infantil no Rio de Janeiro.

O pedido avançou.

Em novembro daquele ano, o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop) recebeu R$ 199.999,79 provenientes de uma emenda parlamentar de autoria de Flávio Bolsonaro.

A verba foi destinada ao projeto “Jogadores do Futuro”, por meio do Ministério do Esporte.

O pedido veio de um miliciano

As mensagens recuperadas pela Polícia Federal mostram Calixto tratando diretamente com uma assessora parlamentar de Flávio, identificada como Maria de Fátima Bezerra Castro, salva no celular do miliciano como “Fafa Flávio Bolsonaro”.

Em uma das conversas, Calixto pediu que a assessora verificasse com o senador a possibilidade de liberar recursos para o projeto.

“Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar.”

Em outra mensagem, voltou a cobrar:

“Vê se o senador consegue nos agraciar, para não terminar o nosso projeto.”

A resposta da assessora foi curta:

“Pode deixar.”

Pouco depois, o instituto recebeu os quase R$ 200 mil.

“Nosso senador”

A relação descrita nas mensagens chama atenção também pela forma como Calixto se referia a Flávio Bolsonaro.

Em determinado momento, o miliciano escreveu:

“não tinha nada do nosso Senador, porém estamos no aguardo.”

Não se trata, portanto, de uma simples destinação parlamentar descoberta posteriormente em uma planilha. As mensagens revelam uma negociação prévia entre o gabinete do senador e um homem que, segundo a Justiça, integrava a estrutura criminosa ligada aos irmãos Brazão.

Robson Calixto foi condenado pelo STF em fevereiro de 2026 a nove anos de prisão por integrar o grupo envolvido no assassinato de Marielle Franco.

Os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão foram condenados como mandantes do crime e apontados pela Justiça como integrantes da estrutura de milícia na Zona Oeste do Rio.

Dinheiro público e investigação da Polícia Federal

A história ganha uma dimensão ainda maior porque a própria Polícia Federal investiga suspeitas de desvios envolvendo recursos de emendas destinados a organizações sociais relacionadas ao grupo dos Brazão.

No caso específico da verba destinada por Flávio Bolsonaro ao Ifop, o Tribunal de Contas da União encontrou irregularidades na execução do projeto.

Segundo relatório técnico citado pela revista Piauí, uma das contratações chamou atenção porque o presidente do instituto também aparecia como responsável pela empresa contratada para prestar serviços de coordenação do projeto.

O TCU apontou conflito de interesses e classificou a situação como “no mínimo, inusitada”.

Os técnicos também questionaram a forma como foram feitas as cotações de preços e apontaram elementos que, na avaliação do relatório, poderiam conferir apenas aparência de regularidade ao procedimento. O instituto afirmou que pretende contestar as conclusões do TCU.

Assessora também pediu ingressos para camarote

As mensagens reveladas pela investigação não tratavam apenas de dinheiro público.

Em janeiro de 2024, a assessora de Flávio Bolsonaro procurou Calixto e pediu quatro ingressos para o desfile das campeãs em um camarote na Sapucaí.

O pedido foi classificado pelos investigadores como solicitação de “vantagem indevida”. As mensagens mostram que os ingressos acabaram sendo providenciados, embora os registros citados pelas reportagens não comprovem que tenham sido efetivamente entregues à assessora.

Flávio diz que tudo foi feito dentro da lei

Procurada pela imprensa, a defesa ou assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que os repasses foram realizados dentro da legalidade e seguindo critérios técnicos do Ministério do Esporte.

A manifestação também sustentou que a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária e que eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle.

O dinheiro saiu do orçamento público depois de uma articulação que envolveu diretamente um integrante condenado da organização criminosa ligada ao caso Marielle.

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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