O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, viajou em janeiro de 2025 dos Estados Unidos para o Brasil em um jato executivo que tinha entre seus cotistas uma empresa ligada ao empresário Daniel Vorcaro, além de ter entre os passageiros o advogado e empresário Willer Tomaz, investigado pela Polícia Federal no caso das fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A informação foi revelada pela revista piauí e posteriormente confirmada por outros veículos. O voo ocorreu em 19 de janeiro de 2025, entre Fort Lauderdale, na Flórida, e Brasília. Flávio estava acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, das duas filhas e de Willer Tomaz.

A aeronave era um Legacy 650, de prefixo PP-NLR. Segundo a apuração da piauí, a empresa Prime You, que tinha Daniel Vorcaro como sócio, adquiriu uma participação de um terço da aeronave no fim de 2024 — portanto, antes da viagem realizada por Flávio.

O mesmo avião voltaria a aparecer meses depois em outro episódio de repercussão nacional: em agosto de 2025, a aeronave foi utilizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e pela advogada Viviane Barci de Moraes.

O advogado que estava no mesmo voo

Entre os passageiros estava Willer Tomaz, advogado e empresário que já havia sido preso no contexto de uma investigação relacionada à JBS e que posteriormente entrou no radar da Polícia Federal nas investigações sobre o esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS.
Flávio confirmou a viagem: “Ainda bem que na época o avião era de Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes”.
Flávio Bolsonaro, como sempre, teve essa coragem de mentir publicamente. Tomaz também tinha participação na estrutura societária proprietária do avião. Segundo a documentação levantada pela piauí, a Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A. concentrava a propriedade compartilhada da aeronave, dividida em três participações.

Uma delas estava ligada a Tomaz, por meio da empresa Alcazar Holdings. Outra pertencia ao empresário Laércio Cosentino, fundador da TOTVS. A terceira participação havia sido vendida à Prime You, empresa que tinha Vorcaro como sócio.
Relatório da Polícia Federal citado pela revista aponta que cada uma das três cotas equivalia a aproximadamente US$ 5,5 milhões em maio de 2025.
Viagem ocorreu em meio às tratativas do filme “Dark Horse”
A viagem também ocorreu em um período de aproximação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro em torno do financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
Segundo a Polícia Federal, havia um cronograma de financiamento de US$ 24 milhões, com previsão de um primeiro pagamento de US$ 2 milhões em 20 de janeiro de 2025 — apenas um dia depois do voo de Flávio entre os Estados Unidos e o Brasil.
O dinheiro, segundo a PF, acabou sendo enviado posteriormente.
A relação entre Flávio e as negociações do filme está sendo investigada no Supremo Tribunal Federal. Reportagens anteriores apontaram que o senador participou diretamente de tratativas relacionadas ao financiamento da produção.
Tomaz nega relação com Vorcaro
Willer Tomaz contesta a caracterização de que o avião fosse de Daniel Vorcaro. Em nota divulgada nesta quinta-feira (24), afirmou que a aeronave pertencia formalmente à Fraction 024 e que ele possuía uma das três cotas.
Segundo Tomaz, o voo de janeiro foi solicitado, organizado e integralmente custeado por ele, utilizando as horas correspondentes à sua participação na aeronave. O advogado afirmou ainda que Vorcaro não pagou, autorizou ou participou do voo.
Tomaz também declarou que não conhece Vorcaro e que jamais realizou qualquer negócio com ele. Segundo o advogado, somente em abril de 2026 tomou conhecimento de que a Prime You havia adquirido uma das cotas e, depois disso, rompeu o contrato e passou a litigar com a empresa.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, confirmou a viagem. Em publicação nas redes sociais, afirmou:
“Ainda bem que na época o avião era de Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes”.
O que os registros mostram
Independentemente das versões apresentadas pelos envolvidos sobre quem efetivamente custeou o voo, os registros levantados nas investigações e pelo Radar Brasileiro colocam Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e uma aeronave cuja estrutura de propriedade incluía uma empresa ligada a Daniel Vorcaro no mesmo episódio.
A documentação também mostra que a Prime You, empresa que operava o avião por meio da Prime Aviation, tinha Vorcaro como sócio entre 2021 e setembro de 2025.
O caso ganha relevância porque a viagem aconteceu justamente no período em que avançavam as tratativas envolvendo o financiamento de Dark Horse, enquanto Tomaz posteriormente passou a aparecer nas investigações da Polícia Federal sobre as fraudes relacionadas ao INSS.
O escritório de advocacia que funciona dentro da mansão de Flávio

A conexão empresarial também passa pela própria residência de Flávio Bolsonaro em Brasília. O senador registrou, em abril de 2021, a Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, com endereço no mesmo imóvel onde está localizada sua mansão no Lago Sul. O CNPJ permanece ativo e tem Flávio Bolsonaro como titular e Letícia Caetano dos Reis como administradora.
A estrutura voltou ao centro das atenções em 2026 depois que foram revelados pagamentos de R$ 1,5 milhão em notas fiscais emitidas pelo escritório, incluindo documentos relacionados a empresas investigadas no contexto do caso Banco Master. Flávio afirmou que os serviços foram prestados de forma legal e que se tratava de uma relação privada.
O endereço chama atenção porque a firma está formalmente instalada dentro da própria mansão do senador, imóvel que custou cerca de R$ 6 milhões. Em 2022, a Agência Pública já havia revelado que a defesa de Flávio utilizou sua atuação como advogado para explicar parte de sua capacidade financeira, inclusive em discussão relacionada à aquisição da residência.