O candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, saiu fortalecido da sabatina promovida pelo UOL e pela Folha nesta segunda-feira (24).
Diante de perguntas sobre economia, segurança, educação, gestão pública e as investigações envolvendo o filho do presidente Lula, o petista adotou uma postura direta, apresentou números e procurou transformar as respostas em comparações concretas sobre a situação do Estado.
A sabatina foi conduzida pela jornalista Fabíola Cidral, com perguntas do colunista Josias de Souza, do UOL, e do repórter Bruno Ribeiro, da Folha. O formato colocou Haddad diante de questionamentos diferentes e, em alguns momentos, bastante duros.
Mesmo assim, o candidato manteve o ritmo, respondeu aos temas apresentados e buscou sustentar suas posições com dados.
Um dos pontos que mais chamaram atenção foi a maneira como Haddad tratou a situação econômica de São Paulo. Em vez de limitar a crítica ao discurso político, o candidato apresentou números para comparar o desempenho paulista com o crescimento da economia brasileira.
“A economia de São Paulo está crescendo 0,4%, 0,5% contra 2, 2,3% do país.”
A partir desses dados, Haddad afirmou que a situação econômica do Estado precisa ser discutida de forma mais objetiva pelo eleitor. Para ele, a campanha não pode ficar restrita a slogans ou disputas ideológicas.
“A economia paulista está patinando.”
A crítica é uma das principais linhas de ataque de Haddad contra a administração de Tarcísio de Freitas. O petista tenta colocar a discussão eleitoral no terreno da gestão, comparando indicadores e questionando os resultados entregues pelo atual governo.
Números contra o discurso político
A estratégia adotada por Haddad ao longo da entrevista foi apresentar informações antes de fazer as críticas. O candidato procurou responder aos jornalistas sem transformar cada pergunta em uma oportunidade para ataques pessoais.
Essa postura ganhou importância justamente porque a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes ocorre em um cenário no qual Tarcísio aparece à frente nas pesquisas. O próprio Haddad reconheceu a dificuldade eleitoral, sem tentar esconder a realidade.
“Não nego que essa seja uma eleição difícil.”
Na sequência, porém, o candidato evitou tratar a diferença nas pesquisas como motivo para abandonar a disputa.
“Nosso papel é transformar esse período de 50 dias no melhor aprendizado possível para todos nós.”
A declaração mostra uma postura diferente da tentativa de vender uma eleição fácil ou previamente definida. Haddad reconheceu o cenário adverso, mas procurou apresentar a campanha como uma oportunidade para discutir os problemas concretos do Estado.
Segurança, educação e gestão pública
A sabatina também serviu para Haddad reforçar propostas que já vinha apresentando durante a campanha. Na área da educação, por exemplo, o candidato defende a retomada da expansão das escolas de tempo integral e a realização de novos concursos para recompor o quadro efetivo da rede estadual.
Segundo Haddad, quase metade dos professores da rede paulista está atualmente em contratos temporários. Ele defendeu um processo de substituição gradual desses contratos por profissionais concursados e afirmou que não pretende fazer concursos de maneira improvisada.
“A gente tem que rever as formas de fazer concurso para selecionar as melhores pessoas.”
Na mesma área, Haddad voltou a se posicionar contra a expansão das escolas cívico-militares e defendeu que mudanças na estrutura das escolas sejam discutidas com as próprias comunidades escolares.

O candidato também apresentou uma posição menos simplista sobre concessões e privatizações. Haddad afirmou que não é contrário a concessões de rodovias e citou como exemplo a possibilidade de cobrança de pedágio em uma estrada que esteja sendo duplicada.
A crítica, segundo ele, deve estar relacionada ao resultado da política pública e não simplesmente ao fato de haver participação privada.
“Não é uma questão de qual é o setor que você está privatizando, mas qual o objetivo de retorno à sociedade.”
A mesma lógica foi utilizada para tratar do sistema de cobrança automática de pedágio. Haddad disse não ser contrário ao chamado free flow, mas criticou a maneira como a ferramenta foi implantada em São Paulo.
“Ele colocou free flow, não avisou que pôs.”
Segundo o candidato, houve falta de comunicação com os motoristas e problemas na implementação do sistema.
Haddad não fugiu da questão envolvendo Lulinha
Outro momento importante da sabatina aconteceu quando Haddad foi questionado sobre as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
O candidato defendeu a apuração das suspeitas e afirmou que qualquer eventual irregularidade precisa ser investigada. Ao mesmo tempo, fez uma comparação direta com a postura adotada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em relação aos filhos.
Haddad também criticou o vazamento de informações de investigações que tramitam sob sigilo.
“Vazamento inquérito é crime.”
O petista lembrou ainda que o ministro André Mendonça abriu investigação para apurar o vazamento e argumentou que Lula não tomou medidas para substituir integrantes da estrutura responsável pelas investigações.
Segundo Haddad, essa seria uma diferença em relação ao comportamento de Bolsonaro.
“Ele não fez o que Bolsonaro fez para proteger os filhos.”
O candidato, portanto, não tentou transformar o caso em um assunto proibido para sua campanha. Ao contrário: defendeu investigação, mas questionou a divulgação ilegal de informações sigilosas.
Uma sabatina baseada em respostas, não em slogans

O principal resultado da entrevista foi a demonstração de que Haddad conseguiu manter uma linha argumentativa relativamente consistente diante de temas diferentes.
Em vez de responder apenas com ataques ao adversário, o candidato recorreu repetidamente a números, exemplos de políticas públicas e comparações entre indicadores. Foi esse aspecto que deu à participação um caráter mais técnico e menos dependente do confronto político.
A experiência acumulada em diferentes áreas da administração pública também apareceu nas respostas. Haddad foi prefeito de São Paulo, ministro da Educação e ministro da Fazenda, e utilizou essa experiência para contextualizar suas propostas e críticas.
A entrevista também ocorreu em um momento de intensa movimentação eleitoral. No domingo, Lula e Flávio Bolsonaro ficaram fora do primeiro debate presidencial da Band, enquanto Haddad participou de uma sabatina voltada especificamente à disputa paulista. O debate da Band acabou tendo a ausência dos principais nomes da corrida presidencial como um de seus assuntos centrais.
Análise da notícia: reconhecimento das dificuldades sem abrir mão do discurso
Outro ponto positivo da participação foi a disposição de Haddad em reconhecer fatos que poderiam ser usados contra sua candidatura. Ao comentar as pesquisas, o petista admitiu que os números atuais favorecem Tarcísio e não tentou apresentar uma realidade artificialmente favorável.
O último Datafolha citado pelo UOL apontava Tarcísio com 52% dos votos válidos em uma simulação de primeiro turno. Ainda assim, Haddad afirmou que não pretende medir sua disposição de disputar o governo pela facilidade ou dificuldade da eleição.
Esse comportamento ajudou a construir uma imagem de candidato preparado para uma campanha longa e de confronto direto com o atual governador.
Mais do que uma entrevista baseada em frases de efeito, a sabatina mostrou Haddad tentando transformar a disputa pelo governo paulista em uma comparação entre números, políticas públicas e resultados.
A mensagem central foi clara: diante de jornalistas que conhecem os assuntos abordados e podem confrontar as respostas, o candidato apostou no domínio técnico, na memória de dados e na capacidade de desenvolver argumentos sem perder o ritmo.
E, em uma eleição marcada pela polarização e pela disputa permanente nas redes sociais, a participação de Haddad no UOL apresentou justamente o caminho oposto: menos lacração, mais conteúdo; menos slogan, mais números; menos improviso, mais argumentos.