A nova pesquisa Quaest sobre a eleição para o governo de São Paulo ganhou espaço no noticiário nesta terça-feira (8), mas uma questão fundamental permanece sem resposta para o leitor que recebe os números prontos:
onde, exatamente, essas 1.800 pessoas foram entrevistadas?
O levantamento, contratado pela Globo, ouviu 1.800 eleitores entre 4 e 7 de setembro e foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número SP-00959/2026.
O resultado divulgado aponta Tarcísio de Freitas com 42% das intenções de voto no primeiro turno, contra 27% de Fernando Haddad.
Os números estão sendo amplamente divulgados.
A metodologia geral também.
Mas existe uma diferença entre informar que foram realizadas 1.800 entrevistas em São Paulo e permitir que o público compreenda como essas 1.800 entrevistas foram distribuídas territorialmente.
É justamente aí que começa a investigação do Radar Brasileiro.
Onde estavam os entrevistados?
A pergunta é simples:
Em quais municípios? Em quais bairros? Em quais áreas? Quantas pessoas foram ouvidas em cada local?
O material que vem sendo reproduzido pela imprensa apresenta o tamanho da amostra, o período da coleta, a , o nível de confiança e outros dados metodológicos. Porém, para o leitor comum, não aparece na divulgação jornalística a relação detalhada dos locais específicos em que os entrevistadores estiveram.
Isso não significa que a informação necessariamente não exista no registro eleitoral.
O próprio sistema PesqEle, do TSE, possui campo específico para “Dados relativos aos municípios e bairros abrangidos pela pesquisa” e disponibiliza também um arquivo de detalhamento de bairros e municípios.
O problema é outro: essa informação precisa estar acessível para que a sociedade consiga compreender a composição territorial da pesquisa que está sendo apresentada como retrato do eleitorado paulista.
Não basta saber que foram 1.800 entrevistas
Uma pesquisa eleitoral não é apenas uma conta de 1.800 pessoas.
É também uma questão de quem foi ouvido, onde foi ouvido e como essas pessoas foram distribuídas dentro do universo pesquisado.
Imagine, por exemplo, duas pesquisas com exatamente 1.800 entrevistas.
As duas poderiam ter a mesma margem de erro estatística.
Mas poderiam distribuir suas entrevistas de maneira territorial completamente diferente.
É justamente por isso que o Radar Brasileiro está tentando descobrir qual foi a geografia dessa amostra.
Não basta dizer que o eleitor paulista foi ouvido.
É preciso saber qual eleitor paulista foi alcançado pela pesquisa e em que território ele estava.
E existe uma razão adicional para fazer essa pergunta
A regulamentação eleitoral atual é bastante clara sobre a necessidade de delimitação geográfica.
A Resolução TSE nº 23.600, alterada pela Resolução nº 23.747/2026, determina que a delimitação geográfica de bairros, regiões administrativas e áreas pesquisadas observe a divisão político-administrativa oficial.
Quando a metodologia não permite identificar os locais por setor censitário, a empresa deve apresentar justificativa técnica e informar a unidade territorial efetivamente utilizada.
Portanto, a geografia da pesquisa não é um detalhe irrelevante.
É parte da documentação metodológica.
O próprio TSE já puniu uma pesquisa por problema semelhante
Esse ponto levantado pelo Radar Brasileiro merece atenção.
Segundo o TSE, o problema discutido no processo envolvia justamente a ausência de delimitação geográfica das áreas abrangidas pela pesquisa.
O tribunal destacou que a autonomia dos institutos para definir sua metodologia não elimina a obrigação de cumprir as exigências previstas na legislação eleitoral.
Isso não significa que a atual pesquisa de São Paulo tenha cometido a mesma irregularidade, mas até o momento não mostrou e sequer é possível pesquisar.
O Radar Brasileiro ligou na QUAEST, Telefone: +55 31 3018-6195 / Avenida Cristóvão Colombo, 400
Savassi – Belo Horizonte / MGATÉ AGORA ESTÁ AGUARDANDO A CONFIRMAÇÃO DOS DADOS. SEQUER CONSEGUIRAM ATENDER A DEMANDA.
Mas torna perfeitamente legítima a pergunta:
qual é a delimitação geográfica registrada para a SP-00959/2026?
O eleitor precisa conferir
O TSE informa que os registros das pesquisas eleitorais ficam disponíveis para consulta pública no sistema PesqEle.
O tribunal também esclarece que não faz controle prévio sobre o resultado das pesquisas e que sua atuação ocorre conforme as regras legais e eventual provocação das partes legitimadas.
Isso torna ainda mais importante a transparência documental.
O eleitor não deveria precisar simplesmente acreditar no percentual estampado na manchete.
Ele precisa ter condições de conhecer como aquele percentual foi produzido.
E isso inclui a distribuição territorial da amostra.
A pergunta do Radar Brasileiro
O Radar Brasileiro não está afirmando que a Quaest manipulou a pesquisa.
Também não está afirmando que a amostra favoreceu qualquer candidato.
O que está fazendo é algo mais básico: perguntando onde foram realizadas as entrevistas.
Queremos saber:
• quais municípios participaram;
• quais bairros ou áreas foram utilizados;
• quantas entrevistas foram realizadas em cada território;
• qual foi a distribuição das 1.800 entrevistas pelo estado;
• qual unidade territorial foi utilizada pela Quaest;
• e quais critérios foram empregados para definir esses locais.
Somente com essas informações será possível fazer um exame territorial objetivo da amostra.
O ponto que não pode ser ignorado
Se uma pesquisa apresenta ao eleitor paulista números capazes de influenciar a percepção sobre uma eleição, a transparência sobre sua metodologia não pode ficar restrita ao percentual final.
A questão não é exigir que cada endereço residencial de entrevistado seja divulgado — isso envolveria evidentemente privacidade e proteção de dados.
A questão é outra:
quais foram os territórios utilizados para produzir os números?
Municípios.
Bairros.
Áreas.
Setores ou unidades territoriais equivalentes.
Essa informação permite que pesquisadores, jornalistas e cidadãos compreendam a dimensão territorial do levantamento.
Sem ela, o leitor fica diante do resultado final sem conseguir enxergar completamente a fotografia que foi utilizada para chegar até aquele resultado.
O Radar Brasileiro vai continuar procurando
A pesquisa SP-00959/2026 está registrada no sistema eleitoral, e o próprio PesqEle prevê a existência de documentos específicos sobre municípios, bairros, questionário e relatório incompleto.
O Radar Brasileiro continuará em cima desses documentos.
Porque a pergunta não é complicada:
Onde estavam as 1.800 pessoas entrevistadas pela Quaest?
E, principalmente:
como essas 1.800 entrevistas foram distribuídas pelo território paulista?