Antes que alguém tente transformar a crise da Braskem em mais uma narrativa política contra o governo Lula, é preciso colocar os fatos na mesa: a recuperação extrajudicial da petroquímica não foi provocada pelo governo federal atual.
A empresa chegou a 2026 carregando uma dívida de aproximadamente R$ 54 bilhões, depois de anos de decisões empresariais, problemas operacionais, passivos ambientais e uma deterioração financeira que começou muito antes da atual administração federal.
A Braskem protocolou nesta segunda-feira (24) o pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras. A companhia terá 90 dias de proteção para avançar nas negociações com os credores. O processo é limitado às dívidas financeiras e não interrompe as operações com fornecedores e clientes.

A pergunta que precisa ser feita, portanto, não é “o que Lula fez com a Braskem?”. É outra:
como uma das maiores petroquímicas do país chegou a uma dívida dessa magnitude?
A crise começou muito antes de Lula
A resposta passa por uma combinação de fatores que se acumularam durante anos.
Verdadeiro A Braskem atravessou um longo período de margens deprimidas na indústria petroquímica mundial, enfrentou dificuldades em sua operação mexicana e sofreu um golpe financeiro gigantesco com o desastre geológico provocado pela exploração de sal-gema em Maceió.
A controlada Braskem Idesa, no México, por exemplo, acumulou aproximadamente US$ 2,5 bilhões em dívida sênior e entrou com pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos neste mês. O plano prevê reduzir a dívida sênior para US$ 1,6 bilhão, enquanto a própria Braskem deverá aportar US$ 476 milhões para manter sua participação.
Verdadeiro Nada disso começou no terceiro mandato de Lula.
Verdadeiro A própria Reuters apontou que a companhia enfrenta um ciclo prolongado de baixa no setor petroquímico e que a posição de caixa foi enfraquecida pelo desastre ambiental relacionado às minas de sal em Alagoas.
Uma empresa comandada por executivos do grupo Odebrecht
Outro aspecto que precisa entrar nessa história é quem estava no comando da empresa quando boa parte dessas decisões foi tomada.
Entre 2020 e 2022, a Braskem foi presidida por Roberto Lopes Pontes Simões, executivo de longa carreira no grupo Odebrecht. Antes de assumir a presidência da petroquímica, Simões havia ocupado diversos cargos de comando no conglomerado, inclusive como CEO da Ocyan e em posições executivas na própria Braskem.
Verdadeiro Simões também esteve entre os empresários que participaram, em abril de 2021, de uma reunião com o então presidente Jair Bolsonaro. A lista divulgada pela imprensa incluía o nome de Roberto Lopes Simões como presidente da Braskem.
É importante fazer uma distinção jornalística: participar daquele encontro não prova, por si só, que Simões fosse “bolsonarista” ou que suas posições políticas tenham provocado a crise da Braskem. O que é documentalmente verificável é sua participação na reunião empresarial com Bolsonaro e sua posição de comando na Braskem naquele período.
E há uma ironia política evidente: parte da narrativa que tenta atribuir ao governo Lula a crise de uma empresa que acumulou problemas durante anos simplesmente ignora quem comandava a companhia e quais decisões empresariais foram tomadas antes de 2023.
Maceió virou uma conta bilionária
O desastre de Maceió é outro capítulo incontornável.
A exploração de sal-gema pela Braskem provocou o afundamento do solo em áreas da capital alagoana, obrigando mais de 60 mil pessoas a deixarem suas casas e produzindo um dos maiores passivos ambientais e sociais da história recente do país.
A conta para a empresa já alcançou dezenas de bilhões de reais.
Segundo levantamento divulgado nesta segunda-feira, a Braskem já desembolsou aproximadamente R$ 15,8 bilhões relacionados ao caso e acumulava provisões de cerca de R$ 18,17 bilhões para indenizações e acordos.
E o caso continua produzindo consequências.
Laudo da Polícia Federal estima em aproximadamente R$ 40 bilhões os prejuízos potenciais à União relacionados ao afundamento do solo. O Ministério Público Federal denunciou a Braskem e executivos por suspeitas que incluem “lavra ambiciosa”, adulteração de documentos técnicos e fraude. A empresa contesta as acusações e afirma ter atuado dentro das normas.
Ou seja: existe uma investigação séria sobre práticas empresariais relacionadas à exploração mineral. Isso não pode ser simplesmente apagado para criar a narrativa conveniente de que “a culpa é do governo Lula”.
E as suspeitas de irregularidades?
Aqui também é necessário separar fato comprovado de acusação.
A Braskem foi envolvida em investigações relacionadas à Lava Jato e houve acusações envolvendo contratos e pagamentos ilícitos. Também houve questionamentos públicos sobre a atuação de executivos da companhia.
Em 2020, por exemplo, Marcelo Odebrecht acusou Roberto Simões de ocultar informações da Justiça relacionadas a caixa dois. A acusação foi publicada pela imprensa e fazia parte da disputa interna envolvendo a família Odebrecht.
Isso não significa que toda acusação contra executivos da empresa tenha sido comprovada judicialmente.
Mas demonstra que a história da Braskem é muito mais complexa do que uma simples empresa “vítima” de uma conjuntura econômica criada pelo governo atual.
Aquisições, expansão e decisões de capital também precisam ser cobradas
Durante anos, a estratégia da Braskem envolveu expansão internacional, diversificação de matérias-primas e investimentos em diferentes mercados.
A operação mexicana é um exemplo de como uma aposta empresarial pode se transformar em um problema financeiro gigantesco quando as premissas do negócio não se confirmam.
A Braskem Idesa acabou precisando recorrer à proteção judicial nos Estados Unidos para reestruturar suas dívidas. E a Braskem brasileira terá de colocar centenas de milhões de dólares na operação para preservar seu controle.
É justamente aí que entra uma discussão que não pode ser escondida atrás de slogans partidários: quem tomou as decisões de investimento? Quem aprovou as operações? Quem avaliou os riscos? Quem definiu a política de endividamento? Quem decidiu onde colocar bilhões de dólares?
Essas são perguntas para administradores, conselheiros, acionistas e órgãos de fiscalização — não para serem automaticamente transferidas ao Palácio do Planalto.
Dividendos também entram no debate
Outro ponto que merece investigação é a política de distribuição de dividendos adotada pela companhia ao longo dos anos.
É preciso deixar claro: pagar dividendos não é ilegal e não significa, por si só, má gestão.
Parcialmente verdadeiro Mas, diante de uma empresa que posteriormente chegou a uma dívida superior a R$ 50 bilhões, é legítimo questionar a política de alocação de capital: quanto dinheiro foi distribuído aos acionistas, quanto foi reinvestido, quanto foi utilizado para reduzir dívida e quais eram os riscos conhecidos quando essas decisões foram tomadas.
Esse é um debate empresarial e financeiro que precisa ser feito com números e documentos — e não com propaganda política.
Planilhas, custos e acusações de manipulação
Também existem acusações envolvendo documentos, informações técnicas e procedimentos relacionados à exploração de Maceió.
Verdadeiro A Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigaram suspeitas de irregularidades e fraude, inclusive adulteração de documentos técnicos.
Existe ainda um dado que desmonta outra simplificação.
No segundo trimestre de 2026, a Braskem registrou lucro líquido de R$ 3,33 bilhões. Mesmo assim, continuou mergulhada em uma crise financeira, com alavancagem de aproximadamente 14,7 vezes o EBITDA.
Isso mostra que o problema não é simplesmente “a empresa não dá lucro”.
O problema é o tamanho da dívida acumulada.
Uma companhia pode voltar a apresentar lucro operacional e, ainda assim, continuar incapaz de suportar o peso de seus compromissos financeiros.
Foi exatamente esse estrangulamento que levou a Braskem à recuperação extrajudicial.
A conta é empresarial — não eleitoral
A tentativa de transformar a recuperação extrajudicial da Braskem em uma consequência do governo Lula é uma maneira conveniente de fugir das perguntas que realmente importam.
A companhia atravessou anos de problemas no setor petroquímico, acumulou dívidas, enfrentou dificuldades em operações internacionais, carregou os custos bilionários de Maceió e sofreu com a deterioração financeira de sua antiga controladora, a Novonor, ex-Odebrecht.
Verdadeiro O atual governo não decidiu quanto a Braskem deveria investir no México.
Verdadeiro Não foi Lula quem escolheu a estratégia de expansão internacional da empresa.
Verdadeiro Não foi Lula quem administrou as minas de sal-gema de Maceió.
Verdadeiro Não foi Lula quem definiu a política de dividendos da companhia.
Verdadeiro Não foi Lula quem estabeleceu sua estrutura de endividamento.
Verdadeiro E não foi Lula quem comandou a Braskem nos anos em que essas decisões foram tomadas.
A recuperação extrajudicial é, antes de tudo, a consequência de uma crise empresarial acumulada ao longo de anos.
Agora, a empresa terá de negociar com seus credores para reorganizar uma dívida de aproximadamente R$ 54 bilhões.
E a sociedade tem todo o direito de perguntar: quem tomou as decisões que fizeram essa conta chegar a esse tamanho?
A resposta não está no governo Lula. Está na história da própria Braskem, de seus antigos controladores, de seus executivos, de seus conselheiros e das decisões empresariais tomadas ao longo de anos.