Primeira agenda de campanha de Flávio na periferia paulista foi marcada por gritos de “Fora, Tarcísio” e “Fora, Flávio”. Ao lado de Ricardo Nunes, candidato tenta transformar a força política do governador e do prefeito em votos, e encontra uma chuva de vaias e gritos para que eles deixassem o local.
A primeira grande incursão de Flávio Bolsonaro (PL) pela periferia de São Paulo nesta campanha presidencial produziu uma cena que seus aliados provavelmente prefeririam esconder: em vez de uma recepção popular, o candidato encontrou protestos, gritos de “Fora, Tarcísio” e “Fora, Flávio”.
VEJA O VÍDEO “Fora, Tarcísio” e “Fora, Flávio”:
O episódio ocorreu nesta quinta-feira (20), durante agenda no Mercadão de São Miguel, na Zona Leste da capital. O protesto reuniu moradores e lideranças comunitárias de diferentes regiões, que criticaram o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a política de segurança pública e o aumento dos pedágios no Estado. Também houve manifestações contra Flávio Bolsonaro.
A imagem é politicamente incômoda porque revela uma contradição central da estratégia da direita para 2026: enquanto Tarcísio e Ricardo Nunes trabalham para vender a ideia de que a candidatura de Flávio tem força em São Paulo, parte da população que os políticos dizem representar deixou claro que não está disposta a receber o candidato de braços abertos.
E há um detalhe ainda mais significativo: Flávio não estava sozinho.
Ele circulou pela capital acompanhado de Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo e um dos principais aliados de Tarcísio. A agenda havia sido organizada com apoio do grupo político do prefeito, numa tentativa evidente de aproximar o candidato presidencial da estrutura eleitoral paulista.
O problema é que, quando a comitiva chegou à periferia, a realidade bateu à porta.
VEJA MAIS PROTESTO CONTRA TARCÍSIO, FLÁVIO E NUNES:
A estratégia de Tarcísio começa a revelar suas contradições
Tarcísio decidiu transformar a eleição presidencial em parte da sua própria estratégia de reeleição. O governador declarou que pretende trabalhar para eleger Flávio e chegou a defender abertamente uma articulação entre Palácio dos Bandeirantes, Prefeitura de São Paulo e eventual governo federal bolsonarista.
Na sabatina promovida pela CBN, O Globo e Valor, onde o governador ficou extremamente confortável em não responder perguntas difíceis, porque os jornalistas deixaram de fazer jornalismo, Tarcísio afirmou que o alinhamento entre os governos estadual, municipal e federal facilitaria a obtenção de recursos para São Paulo.
“O governo federal com o Flávio e o governo do estado, as portas se abrem”, disse o governador.
É uma aposta política arriscada.
Tarcísio está colocando sua própria máquina eleitoral e sua imagem política a serviço de um candidato que, na primeira agenda de campanha na periferia paulista, foi recebido com manifestações contrárias.
Mais do que isso: o governador tenta apresentar a eleição de Flávio como uma espécie de solução administrativa para São Paulo, como se o eleitor precisasse escolher o presidente a partir da conveniência política do governador.
A mensagem é simples: vote em Flávio para facilitar a vida de Tarcísio.
Mas a população pode perfeitamente fazer outra pergunta: facilitar a vida de quem? “Fora, Tarcísio” e “Fora, Flávio”.
Ricardo Nunes entra na operação
Ricardo Nunes também tem papel importante nessa operação e está colocando a sua própria gestão em risco.
O problema é que Nunes corre o risco de transformar a Prefeitura em uma espécie de extensão da campanha presidencial bolsonarista.
A estratégia é evidente: Nunes oferece território, agenda e estrutura política; Tarcísio oferece peso estadual; Flávio tenta transformar essa aliança em votos.
Só esqueceram de combinar com o eleitor.
O contraste que a campanha não consegue esconder
Enquanto nas ruas manifestantes gritavam contra Flávio e Tarcísio, em ambientes fechados o discurso era completamente diferente.
No almoço com cerca de 450 empresários, Flávio apareceu ao lado de Tarcísio e Ricardo Nunes. Ali, o candidato foi recebido por uma plateia muito mais amigável.
Flávio chegou a dizer que pretende entrar para a história “nem que seja como presidente de transição”. Tarcísio estava ao seu lado.
O contraste é poderoso.
Dentro do salão, aplausos. Na periferia, protestos.
É justamente essa distância que a campanha precisa explicar.
Tarcísio pode organizar alianças, Nunes pode abrir portas e Flávio pode reunir empresários. Mas nenhuma estrutura política consegue apagar uma manifestação que acontece na rua.
E a mensagem da Zona Leste foi bastante objetiva: a aliança entre Tarcísio, Nunes e Flávio não significa que São Paulo inteira esteja com eles.
A conta pode não fechar.
Porque, na hora em que o governador coloca seu capital político na campanha presidencial, ele também passa a carregar parte do desgaste dela.
E nesta quinta-feira o desgaste apareceu nas ruas.
A periferia não é cenário de campanha
O episódio também expõe um velho vício da política brasileira: tratar a periferia apenas como cenário para fotografia eleitoral.
Flávio foi ao Mercadão de São Miguel, participou de agenda social e depois esteve em uma atividade esportiva na Vila Formosa. Na segunda agenda, novamente houve protesto e gritos de “fora”.
A periferia, porém, não é figurante.
Quando moradores levantam cartazes, gritam palavras de ordem e questionam políticas públicas, estão fazendo política — ainda que a campanha prefira passar de carro por uma entrada alternativa para não encarar a manifestação.
E foi justamente isso que ocorreu: Flávio e Nunes evitaram contato direto com os manifestantes e entraram por uma rota alternativa no primeiro compromisso.
A cena resume o momento político.
Essa talvez seja a fotografia mais reveladora da agenda de hoje.
A campanha pode ter empresário, governador, prefeito, estrutura partidária e sobrenome famoso.
Mas, quando chega à periferia, a eleição continua pertencendo ao eleitor.
E, nesta quinta-feira, o eleitor que estava na rua não pareceu disposto a simplesmente aceitar o roteiro escrito nos gabinetes de Tarcísio, Ricardo Nunes e Flávio Bolsonaro.