O candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad (PT) cobrou, nesta quinta-feira (24), durante sabatina promovida pelo Metrópoles, maior transparência do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) sobre os números e os recursos utilizados nas áreas de segurança pública, educação e habitação.
Ao falar sobre segurança, Haddad afirmou que pretende melhorar e equipar as polícias paulistas, mas que, para isso, precisará ter acesso detalhado à execução orçamentária do Estado.
Segundo ele, a situação fiscal será um dos principais desafios de um eventual próximo governo.
Haddad vem afirmando durante a campanha que o caixa de São Paulo caiu de cerca de R$ 22 bilhões no início da atual gestão para aproximadamente R$ 5 bilhões.
Na avaliação apresentada pelo candidato, esse valor seria suficiente para apenas uma semana de despesas estaduais. A afirmação já havia sido feita por Haddad em setembro, durante ato em São José do Rio Preto.
“Se eu ganhar vou herdar muita dívida. Vou montar um gabinete para rever todos os contratos”, afirmou.
Segurança: reajuste para policiais e cobrança sobre orçamento

Haddad também criticou a política salarial das forças de segurança. Para o candidato, é necessário conceder reajuste a toda a categoria policial e ampliar investimentos em equipamentos e estrutura.
O petista questionou ainda a forma como a atual administração apresenta os reajustes concedidos aos policiais.
Tarcísio efetivamente apresentou, em 2023, projeto de reajuste médio de 20,2% para as polícias Civil e Militar, aprovado pela Alesp.
A proposta previa percentuais diferentes conforme carreira e posto e entrou em vigor naquele ano.
A crítica de Haddad é que parte do discurso utilizado pelo governador sobre valorização salarial incluiria reajustes anteriores à sua administração.
Em fevereiro de 2022, ainda durante o governo João Doria, foi anunciado aumento de 20% para profissionais da Segurança Pública.
Para Haddad, portanto, a discussão precisa considerar o que efetivamente foi concedido pelo atual governo, e não apenas a evolução acumulada dos salários.
O candidato também classificou a administração de Tarcísio como “um governo autoritário” e vinculou a crítica à maneira como decisões são tomadas sem, segundo ele, suficiente diálogo com a população e com as categorias afetadas.
Educação: Haddad rejeita expansão das escolas cívico-militares
A educação foi outro dos principais pontos da sabatina.
Haddad afirmou que não pretende ampliar o modelo de escolas cívico-militares implantado pelo governo Tarcísio. Ao mesmo tempo, disse que não pretende simplesmente determinar o fechamento das unidades existentes, defendendo que a comunidade escolar participe da decisão.
“(…) eu vou respeitar a decisão da comunidade. Eu quero ouvir vocês ‘comunidade’. O que vocês têm a dizer? Eu não vou autoritariamente mudar. Não vou ampliar porque esse modelo de escola cívico militar não da certo. Nem no exterior. Vou pegar o modelo que dá certo e universalizar. O filho do humilde tem que ter o mesmo modelo de educação de o filho de um rico. É ruim (modelo de escola) porque não deu certo. O IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica-, mostrou isso. O governo atual teima com o que dá errado.”
Em entrevista anterior, Haddad já havia afirmado que não ampliaria o programa e que caberia à comunidade decidir sobre a manutenção das unidades existentes.
O candidato também defendeu a universalização de modelos educacionais que, segundo ele, apresentem resultados comprovados, com a ideia de reduzir diferenças entre alunos de famílias de baixa renda e estudantes de famílias mais ricas.
Alistamento e formação dos jovens

Ao tratar de políticas para a juventude, Haddad mencionou a experiência de Márcio França como prefeito por dois mandatos no litoral paulista e falou sobre a necessidade de oferecer uma perspectiva aos jovens depois da formação.
Segundo Haddad, muitos estudantes terminam uma etapa de formação e ficam “no limbo”, sem saber qual caminho seguir. Nesse contexto, ele defendeu o alistamento como uma possibilidade de oferecer ao jovem um direcionamento e um “norte para a vida”.
O candidato também mencionou a existência de 58 institutos de referência em São Paulo e defendeu o fortalecimento de políticas de formação e qualificação.
Transporte: bilhete único metropolitano como “carro-chefe”
No transporte público, Haddad voltou a defender a criação do Bilhete Único Metropolitano, proposta que já havia apresentado durante a campanha.
A ideia é integrar os deslocamentos entre a capital e municípios da Região Metropolitana, especialmente para trabalhadores que precisam pagar mais de uma tarifa para chegar ao emprego.
Haddad afirmou que nem todo trabalhador da região metropolitana é celetista e que muitos precisam retirar diretamente do próprio bolso o dinheiro utilizado no transporte.
“O carro-chefe é o bilhete único metropolitano”, disse.
O petista também recordou sua passagem pela Prefeitura de São Paulo e afirmou que, durante sua gestão, os reajustes das tarifas ficaram abaixo da inflação.
Na avaliação apresentada pelo candidato, o transporte estadual passou por uma série de privatizações e concessões que precisam ser reavaliadas à luz da qualidade efetivamente entregue ao usuário.
Privatizações: “tem que saber como privatizar”
A revisão dos contratos apareceu como um dos pontos centrais da proposta de Haddad.
O candidato afirmou estar preocupado com o número de privatizações e concessões realizadas pelo governo Tarcísio e disse que o problema não estaria necessariamente na participação privada, mas na forma como os contratos são estruturados e fiscalizados.
“Tem que saber como privatizar”, afirmou.
Haddad citou problemas que, segundo ele, precisam ser investigados em diferentes áreas: transporte público, serviço funerário, contratos de Wi-Fi, CPTM, Sabesp e o sistema de cobrança automática de pedágios, conhecido como free flow.
Sobre o transporte municipal, mencionou ainda investigações envolvendo um ex-vereador e suposta infiltração em processo licitatório. No serviço funerário, falou em problemas relacionados ao contrato, beneficiando o irmão de um ministro do STF. Também citou um contrato de Wi-Fi superior a R$ 100 milhões e afirmou que haveria vínculos apontados em investigações criminais.
As afirmações foram apresentadas pelo candidato como exemplos da necessidade de uma revisão ampla dos contratos públicos.
Sobre as concessões estaduais, Haddad disse enxergar uma espécie de “caixa-preta” em contratos e benefícios concedidos a empresas privadas.
“(…) a parceria não é pra atender empresário. É uma ganância em patamares… absurdos. A gente precisa dar um freio de arrumação.”
Em relação às concessões, Haddad também já havia afirmado que pretende revisar contratos envolvendo Sabesp, ferrovias e outros serviços. O candidato sustenta que a revisão não significa necessariamente reverter todas as privatizações, mas analisar os contratos e seus efeitos para a população.
Sabesp, CPTM e free flow entram na mira
A Sabesp foi um dos principais exemplos utilizados pelo candidato.
Haddad criticou o processo de privatização e mencionou o aumento de reclamações relacionadas ao serviço. Também citou problemas envolvendo a CPTM e o free flow.
Segundo declarações anteriores do candidato, o governo Tarcísio teria desembolsado cerca de R$ 7 bilhões em indenizações a concessionárias, incluindo valores relacionados ao metrô e compensações decorrentes da queda de arrecadação de pedágios durante a pandemia.
Haddad defendeu que uma eventual parceria público-privada só faz sentido quando houver benefício concreto para a população.
“A PPP tem que ser boa pro povo.”
Na visão apresentada pelo petista, não basta transferir a operação de um serviço para a iniciativa privada: é necessário garantir metas, fiscalização, qualidade e preços compatíveis.
“O que a Faria Lima gosta”
Ao atacar a lógica econômica que, segundo ele, orienta parte das privatizações, Haddad afirmou que existe uma pressão por redução de direitos sociais e venda de patrimônio público.
“Todo candidato da extrema-direita vai na Faria Lima e pergunta: ‘O quê vocês querem comprar?’. O que a Faria Lima gosta é cortar direito social e comprar patrimônio público.”
O candidato defendeu que o Estado tenha capacidade de fiscalização e que os contratos sejam transparentes.
Para Haddad, não é aceitável que empresas obtenham lucros elevados enquanto o usuário recebe um serviço considerado ruim.
Chuvas e redução de verbas
Haddad também foi questionado sobre as chuvas e a atuação do governo estadual diante de eventos climáticos.
O candidato afirmou que prestou solidariedade imediatamente às vítimas e criticou a execução orçamentária da atual gestão.
Segundo Haddad, mais de 45% da verba destinada às ações relacionadas às chuvas teria sido cortada durante o governo Tarcísio. A declaração foi usada pelo candidato para defender maior prioridade para prevenção, resposta a emergências e proteção da população.
Haddad admite influência da disputa presidencial
Durante a sabatina, Haddad também reconheceu que a disputa presidencial interfere no cenário eleitoral paulista.
O candidato afirmou, porém, que sua campanha está concentrada na eleição estadual e que seu objetivo é apresentar um projeto específico para São Paulo.
“2030 tá tão longe no Brasil. Eu estou concentrado nessas eleições.”
Haddad disse estar animado com o plano de governo e encerrou sua participação defendendo que está disposto a assumir o que classificou como uma tarefa difícil.
“Eu me dispus a arrumar SP. Eu estou animado com o plano de governo.”
A participação ocorreu no momento em que a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes entra em sua reta decisiva. O Metrópoles registrou que Haddad participa da corrida pelo governo paulista contra o atual governador Tarcísio de Freitas, que busca a reeleição.
A estratégia apresentada por Haddad na sabatina combinou revisão de contratos, reorganização das contas públicas, valorização das polícias, mudanças na política educacional e integração do transporte metropolitano. O candidato colocou a transparência dos dados e dos contratos no centro de sua crítica à atual administração.
O governador de São Paulo Tarcísio de Freitas mais uma vez fugiu de uma Sabatina, faltando pouco mais de 10 dias para as eleições. Tarcísio precisa explicar, por exemplo, sua relação política com Milton Leite, hoje preso temporariamente no âmbito da Operação Vectura Corrupta, que investiga suspeitas de infiltração do PCC no transporte coletivo. O próprio Tarcísio afirmou que a relação com Leite sempre foi “institucional”. Pouco antes da operação, porém, participou do lançamento das candidaturas dos filhos do ex-vereador e havia descrito a relação com a família como uma “parceria enorme”.