O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), teria enfrentado resistência de lideranças comunitárias de Paraisópolis e Heliópolis, duas das maiores comunidades da capital paulista, para uma agenda política na semana decisiva das eleições.
Segundo informações relatadas ao Radar Brasileiro, a orientação transmitida pelas lideranças foi para que o governador e seus aliados não comparecessem às comunidades “de jeito nenhum”.
O recado também teria sido direcionado a Guilherme Derrite, secretário licenciado da Segurança Pública e aliado político de Tarcísio, e ao vice-prefeito de São Paulo, Mello Araújo. De acordo com o relato, a mensagem foi direta: não deveriam pisar nos territórios.
A eventual retirada da agenda, caso confirmada, representaria um episódio politicamente delicado para o governador, especialmente diante das críticas à atuação das forças policiais nas periferias e da relação entre o governo estadual e as comunidades mais vulneráveis da capital.

RESISTÊNCIA À POLÍTICA DE SEGURANÇA
A resistência relatada pelas lideranças estaria relacionada, entre outros fatores, à insatisfação com a atuação policial nas comunidades. A abordagem das forças de segurança, o uso da força e os impactos das operações sobre os moradores .
No caso de Paraisópolis, a relação com Tarcísio também carrega o peso de um episódio ocorrido durante a campanha eleitoral de 2022, quando um tiroteio interrompeu uma atividade do então candidato na comunidade.
O EPISÓDIO DE 2022 LEVANTA QUESTIONAMENTOS

Em 17 de outubro de 2022, durante uma visita de campanha a Paraisópolis, houve uma troca de tiros na região onde Tarcísio de Freitas participava de um evento.
O então candidato permaneceu no local, acompanhado por sua equipe de segurança, e, inicialmente, afirmou que sua campanha havia sido alvo de um ataque criminoso.
O episódio foi amplamente noticiado e publicado com exclusividade pelo jornalista Maicon Mendes e provocou questionamentos sobre a origem dos disparos e as circunstâncias que levaram ao confronto.
Naquele mesmo dia, o então secretário de Segurança Pública de São Paulo, general João Camilo Pires de Campos, ao vivo, por telefone, afirmou ao jornalista Maicon Mendes, que ainda era prematuro classificar o episódio como um atentado político.
Segundo o secretário, nenhuma hipótese havia sido descartada e a presença de policiais na região poderia ter contribuído para o confronto. A avaliação foi divulgada pela Jovem Pan.
A declaração do secretário contrastava com a interpretação apresentada inicialmente por Tarcísio, que havia atribuído o episódio a um ataque contra sua campanha.

Ao tomar conhecimento do ocorrido por meio do cinegrafista Marcos Vinícius, que acompanhava o então candidato, o apresentador Maicon Mendes, da TV Jovem Pan News, que estava ao vivo à frente do Jornal da Manhã, não tratou o episódio como um atentado. Informou apenas que havia ocorrido uma troca de tiros na comunidade de Paraisópolis, onde estava a comitiva de Tarcísio, e que as informações ainda estavam sendo apuradas.
Durante o intervalo, o jornalista recebeu um vídeo no qual o candidato Tarcísio de Freitas tentava apresentar o episódio como um “atentado”. Na volta do intervalo, Maicon Mendes publicou um áudio e, logo em seguida, exibiu um vídeo no qual um integrante da equipe do candidato exigia que o cinegrafista da Jovem Pan apagasse as imagens do candidato pedindo para tratar o caso como “atentado”.
O vídeo do Tarcísio não seria exibido por uma exigência de Tutinha, dono da emissora.
O cinegrafista da Jovem Pan foi pressionado por um integrante da campanha de Tarcísio de Freitas a apagar as imagens que havia registrado durante a troca de tiros.
“Você filmou os policiais atirando?”, perguntou o representante da campanha ao profissional, em áudio publicado uma semana após o episódio.
“Não, trocando tiro efetivamente, não. Tenho tiro da PM para cima dos caras”, respondeu o cinegrafista.
Na sequência, o integrante da campanha foi direto: “Você tem que apagar”.
A equipe de Tarcísio afirmou que a solicitação tinha como objetivo evitar a exposição de pessoas que estavam no local, negando qualquer tentativa de impedir o trabalho jornalístico.
Ainda durante o intervalo, o diretor de Jornalismo da Jovem Pan, Carlos Aros, entrou no estúdio e orientou que o caso fosse tratado como “atentado”. Maicon Mendes, no entanto, pediu prudência e apresentou ao diretor o vídeo em que Tarcísio de Freitas tentava caracterizar o episódio como um “atentado”.
Na volta do Jornal da Manhã, ao vivo, o apresentador entrou em contato com a assessoria do candidato e fez uma pergunta diretamente a Tarcísio:
“Vocês vão continuar a mentindo sobre o atentado ou podemos colocar o vídeo do candidato pedindo pra jogar isso na imprensa para parecer um atentado? Isso é prudente candidato fazer com que o caso se transforme num atentado, sabendo que isso não existiu?”, disse Maicon Mendes.
A assessoria do candidato, então, recuou e afirmou que o suposto atentado havia sido um “mal entendido”, além de pedir que o vídeo não fosse exibido.

Duas semanas depois, o cinegrafista Marcos Vinícius acabou demitido da emissora. Segundo o relato, a decisão teria ocorrido a pedido da cúpula ligada à campanha de Tarcísio de Freitas. Maicon Mendes também foi retirado da apresentação do programa, em um episódio que o jornalista posteriormente classificou como uma forma de retaliação.
O jornalista também teria sido seguido durante semanas por integrantes da equipe do candidato ao governo paulista. A possibilidade de demissão chegou a ser discutida internamente, mas, segundo a direção da emissora, a medida não teria sido adotada naquele momento porque iria “cair muito mal na campanha de Tarcísio”.
Maicon Mendes foi demitido da emissora a mando da cúpula de Tarcísio de Freitas, exatamente, um dia após as eleições.
A Folha de São Paulo publicou reportagem.
O episódio deixou, portanto, um registro público de divergências em torno da caracterização do ocorrido e da atuação da equipe de campanha de Tarcísio de Freitas, especialmente diante da tentativa de apresentar a troca de tiros como um “atentado” em um contexto eleitoral.
DERRITE E MELLO ARAÚJO NA LISTA DE RESTRIÇÕES
A resistência relatada não se limitaria ao governador. Derrite, que esteve à frente da política de Segurança Pública do estado, e o vice-prefeito Mello Araújo também teriam sido mencionados pelas lideranças como pessoas cuja presença não seria desejada.
Paraisópolis e Heliópolis têm grande relevância social e eleitoral na capital paulista.