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ACREDITA NELE? Flávio Bolsonaro ataca Igreja Católica e segura Nossa Senhora pra conseguir votos

Política

Candidato que passou dias atacando a Igreja Católica agora tenta transformar Nossa Senhora Aparecida em símbolo eleitoral; no Brás, ato foi marcado por reação hostil e carro de som pegou fogo.

Essa é a imagem da extrema direita que atacou a Igreja Católica durante a semana e que, agora, a seis dias das eleições, aparece segurando a imagem de Nossa Senhora em busca de votos. E, na mesma imagem, está Padre Kelmon — o homem que se apresenta como padre, embora sua condição de sacerdote seja contestada. Ninguém o reconhece como padre.

Aos gritos de “fariseu”e “mentiroso”, Flávio Bolsonaro foi recebido com vaias no Centro de São Paulo.

Flávio Bolsonaro protagonizou, nos últimos dias, uma das mais controversas mudanças de discurso de sua campanha presidencial. Tudo para ganhar voto. Depois de atacar a Igreja Católica e acusar, sem apresentar provas, integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de terem ajudado o PT a disseminar uma suposta fake news contra sua candidatura, o senador passou a explorar a imagem de Nossa Senhora Aparecida em sua comunicação política.

Flávio Bolsonaro segura boneco de crochê representando Nossa Senhora de Aparecida após polêmica nas redes sobre projeto para retirar o título de padroeira do Brasil da santa Imagem: Bruno Santos/ Folhapress

A sequência de acontecimentos abriu um questionamento inevitável sobre a estratégia eleitoral adotada pelo candidato: de um lado, ataques à CNBB e acusações contra integrantes da Igreja; de outro, a utilização de um dos maiores símbolos da fé católica brasileira em uma campanha presidencial.

Mentiu Falso “Estava esperando a nota da CNBB e saiu hoje, foi muito boa a nota dela esclarecedora, porque confirma que essa questão de Nossa Senhora aparecida, ela deixar de ser a Padroeira do Brasil, era uma grande mentira, é a maior fake news dessa campanha, gente. Então a CNBB nesse comunicado, agradeço à CNBB, confirmando que essa é uma grande fake news que foi potencializada pelo PT, ela foi compartilhada pela Janja, foi compartilhada pela Simone Tebet, aqui em São Paulo, foi compartilhada por toda a esquerda para tentar desgastar”, afirmou Flávio.

*Flávio criticou a Igreja Católica e a CNBB dizendo que o PT tinha armado contra ele*

O próprio Flávio afirmou, no domingo (27), que o PT teria conseguido disseminar a informação com a ajuda de “gente de dentro da CNBB”.

A acusação foi feita publicamente, mas o candidato não apresentou provas que sustentassem a afirmação. A CNBB reagiu e negou qualquer participação na produção ou divulgação de desinformação.

Em nota, a entidade afirmou que “a mentira não se combate com outra mentira” e disse que acusações sem fatos ou provas atingem injustamente a instituição.

Primeiro acusa, depois aparece com Nossa Senhora

A contradição ganhou ainda mais força porque a polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida surgiu depois de uma declaração do próprio candidato.

Em agosto, Flávio havia afirmado que, caso fosse eleito presidente, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A declaração foi recuperada durante a crise envolvendo a Padroeira do Brasil.

Quando a informação de que ele poderia apoiar a retirada do título de Padroeira do Brasil começou a circular, Flávio passou a negar categoricamente a existência de qualquer projeto nesse sentido e classificou a informação como fake news.

De fato, o projeto de lei utilizado como origem de parte da confusão havia sido apresentado em 2007 e arquivado em 2008. A própria GloboNews corrigiu uma informação inicialmente divulgada sobre o assunto.

O ponto central, porém, é outro: depois de se colocar no centro da controvérsia religiosa e atacar adversários por causa dela, Flávio passou a utilizar Nossa Senhora Aparecida na disputa eleitoral.

A imagem da santa, portanto, deixou de aparecer apenas como elemento de fé e passou a integrar uma batalha política em que o candidato procura se apresentar como defensor do cristianismo.

Acusação contra a CNBB não veio acompanhada de provas

A afirmação contra a CNBB é especialmente grave porque não se tratou apenas de uma crítica política.

Flávio afirmou que pessoas dentro da entidade teriam ajudado o PT a espalhar a informação falsa. A acusação foi apresentada como uma realidade, mas não veio acompanhada, na declaração pública do candidato, de documentos, nomes ou evidências que demonstrassem a suposta articulação.

A CNBB rejeitou a acusação.

A entidade declarou que não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas às eleições e afirmou não fazer parte de estruturas político-partidárias.

O episódio revela uma característica recorrente da comunicação política de Flávio: acusações graves são lançadas contra adversários e instituições, enquanto a comprovação das acusações permanece ausente.

A estratégia eleitoral da religião

A religião passou a ocupar espaço central na campanha de Flávio justamente na reta final da eleição.

O candidato passou a se apresentar como defensor da fé cristã, ao mesmo tempo em que tenta responder ao desgaste provocado pela polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida.

A mudança de postura chama atenção porque, poucos dias antes, a própria campanha precisou correr para conter os efeitos políticos da controvérsia. Segundo levantamento citado pela Folha, a narrativa teve forte circulação nas redes e mobilizou manifestações de eleitores católicos.

Não é possível afirmar, a partir desses dados, que todos os eleitores tenham mudado de posição por causa do episódio. Mas é possível registrar que a controvérsia passou a produzir reação política e obrigou a campanha a responder publicamente.

No Brás, campanha enfrenta episódio de rejeição e carro de som pega fogo

A agenda de Flávio em São Paulo nesta segunda-feira (28) também foi marcada por um episódio inusitado.

Durante o ato de campanha no Brás, um gerador instalado em um carro de som utilizado pela mobilização pegou fogo por volta das 11h10. O incêndio ocorreu enquanto Ricardo Nunes discursava e antes da chegada de Flávio ao local. O equipamento precisou ser substituído para que a campanha pudesse continuar.

O episódio provocou interrupção nos discursos e chamou atenção dos participantes. Segundo a imprensa, a origem do fogo não havia sido esclarecida inicialmente.

Vídeos e relatos que circulam sobre a caminhada também mostram manifestações de rejeição a Flávio no Brás.

O que os fatos permitem afirmar é que a campanha enfrenta manifestações públicas de rejeição em determinados ambientes, enquanto pesquisas registradas no TSE mostram um cenário eleitoral competitivo e oscilante entre os principais candidatos.

A sucessão dos episódios coloca a credibilidade do discurso de Flávio no centro do debate eleitoral.

O candidato chama de fake news uma informação que considera prejudicial à própria campanha.

O problema surge quando, na sequência, ele próprio acusa uma instituição nacional como a CNBB de ter participado da disseminação da informação sem apresentar provas capazes de sustentar a acusação.

Depois, o mesmo candidato que entrou em conflito com setores da Igreja passa a explorar eleitoralmente a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

A sequência permite uma leitura objetiva: a religião tornou-se uma peça importante da estratégia eleitoral de Flávio Bolsonaro na reta final da campanha.

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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