Uma fonte de dentro do Palácio dos Bandeirantes que tem acesso a agenda do governador e também dos secretários confirmou as informações para o Radar Brasileiro.
Uma nova frente de apuração do Radar Brasileiro coloca Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro e um dos principais responsáveis pela expansão do Credcesta, no centro das articulações que envolveram o cartão consignado e o governo de São Paulo.

O Radar Brasileiro cruzou agendas, registros públicos, atos administrativos e a cronologia oficial do Credcesta e identificou a circulação de Augusto Lima no Palácio dos Bandeirantes em pelo menos quatro oportunidades, justamente dentro do período em que o negócio precisava consolidar sua permanência na estrutura do governo paulista.
“Todos eles tiveram participações em reuniões. Estou no governo desde a chegada do Tarcísio. Estou te garantindo que ele (Augusto Lima) esteve aqui. Só não posso te passar detalhes senão me compromete. Na maioria das reuniões nem sempre tornamos público quem realmente participa”, afirmou uma fonte que trabalha no Palácio dos Bandeirantes, na gestão Tarcísio de Freitas.
A informação ganha peso porque não se trata de um empresário qualquer circulando pela sede do governo. Lima entrou na sociedade do Master em 2019. Permaneceu ligado ao grupo de Vorcaro até maio de 2024, quando deixou a sociedade.
O Banco Master recebia um fluxo mensal de R$ 21,6 milhões por mês com participação de 3,4% dos descontos de servidores do Estado. O mesmo Master atingiu o pico de recebíveis do governo Tarcísio de quase R$ 33,3 milhões por mês, elevando a taxa de desconto em 5,26%.
A PKL One/Credcesta e o Banco Master viraram réus em centenas de processos movidos pelos servidores do Estado. Em uma das ações, um servidor cobrou na justiça cerca de R$122.000,00 por cobrança indevida.
Lima era o homem ligado à expansão do Credcesta, negócio extremamente rentável que se transformou em uma das principais fontes de receita do grupo de Daniel Vorcaro. E, do outro lado da mesa política, estavam Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, e Gilberto Kassab, seu secretário de Governo e Relações Institucionais. Tarcísio sabia do acordo desde o início.
Uma pergunta que o governo paulista ainda precisa responder, principalmente Tarcísio de Freitas:
o que Augusto Lima foi fazer repetidamente no Palácio dos Bandeirantes enquanto o Credcesta buscava garantir sua permanência em São Paulo?
O esquema estava dentro do governo e Tarcísio sabia
Há um detalhe que torna as visitas especialmente relevantes.
O Radar Brasileiro mostrou a cronologia da propina em troca do Credcesta.
O Credcesta não era um negócio tratado em uma área periférica da administração estadual.
A operação envolvia diretamente o sistema de consignações em folha dos servidores públicos estaduais. Confira a assinatura.

Na gestão Tarcísio, essa estrutura estava dentro da Secretaria de Gestão e Governo Digital (SGGD).
E o titular da pasta no início do governo era Caio Mario Paes de Andrade, nomeado por Tarcísio para comandar a secretaria. Documentos oficiais do Estado confirmam Paes de Andrade como secretário de Gestão e Governo Digital, enquanto Kassab ocupava a Secretaria de Governo e Relações Institucionais.
A própria estrutura oficial da SGGD estabelece que o credenciamento das entidades consignatárias é feito junto à secretaria, mediante requerimento dirigido ao titular da pasta.
Ou seja: o setor diretamente responsável pela engrenagem administrativa do consignado estava dentro do governo Tarcísio e sob uma secretaria comandada por um secretário escolhido pelo governador.
É nesse contexto que as visitas de Augusto Lima ao Palácio precisam ser analisadas.
Quatro passagens pelo centro do poder
O Radar Brasileiro cruzou as informações disponíveis e identificou pelo menos quatro ocasiões em que Augusto Lima esteve no Palácio dos Bandeirantes.
02/03/2023 — Palácio dos Bandeirantes
Tarcísio + Kassab + Caio + outros secretários. (Augusto Lima esteve na reunião)
- O registro de 2 de março de 2023 é particularmente relevante porque não foi uma cerimônia qualquer. Foi uma reunião no Palácio dos Bandeirantes, com Tarcísio, Kassab e Caio juntos tratando do Credcesta.
21/03/2023 — Palácio dos Bandeirantes
Tarcísio + Kassab + Caio + outros secretários + representantes empresariais. (Augusto Lima enviou um intermediário do Master)
2024/2025/2026 — atos oficiais
Caio e Kassab continuam aparecendo conjuntamente como integrantes do núcleo do governo.
Uma fonte de dentro do Palácio dos Bandeirantes que tem acesso a agenda do governador e também dos secretários confirmou as informações para o Radar Brasileiro.

As visitas não podem ser analisadas isoladamente.
Elas precisam ser colocadas dentro da cronologia do Credcesta, da chegada de Tarcísio ao governo e da presença de Kassab na estrutura central da administração.
A pergunta não é simplesmente se Lima entrou no Palácio.
A pergunta é:
quem ele procurou, quem o recebeu e qual assunto levou ao centro do governo paulista?
E há um elemento que torna essa pergunta ainda mais incômoda: posteriormente, Daniel Vorcaro afirmou às autoridades que Augusto Lima teria sido justamente o responsável por buscar a continuidade do Credcesta junto ao futuro governo paulista.
Segundo o relato de Vorcaro, Lima teria se aproximado de Kassab para garantir a manutenção da operação.
Kassab nega.
Tarcísio nega.
A existência das agendas e dos registros de circulação de Lima é uma questão documental independente da versão apresentada pelo banqueiro.
“É absurdo, é ridículo você dizer: ‘Vamos pegar uma doação oficial para beneficiar uma empresa que já está credenciada’. Isso não depende da vontade do governante”, afirmou Tarcísio de Freitas, sem realmente explicar como se deu a permanência no contrato.
O Credcesta já estava dentro de São Paulo

A cronologia começa antes da posse de Tarcísio.
Em 25 de maio de 2022, ainda durante a gestão anterior, o governo paulista deferiu o credenciamento da PKL One Participações S.A. no Sistema de Consignação em Folha de Pagamento do Estado, na modalidade de cartão de benefício.
A autorização foi publicada no Diário Oficial.
O negócio, portanto, já estava instalado quando Tarcísio venceu a eleição.
O que estava em jogo para o grupo de Vorcaro era a continuidade e expansão da operação dentro da nova administração.
É justamente nesse momento que, segundo o relato apresentado por Vorcaro, Augusto Lima teria entrado em ação.
A versão do banqueiro afirma que Lima, responsável pelas articulações de expansão do Credcesta, buscou garantir a continuidade do negócio junto ao governo paulista.
O dinheiro e o negócio

A cronologia dos fatos.
Primeiro, a empresa ligada ao Credcesta consegue autorização para operar em São Paulo.
Depois, Tarcísio vence a eleição.
Na sequência, Augusto Lima aparece circulando na estrutura do governo.
Kassab assume a Secretaria de Governo.
O Credcesta continua operando.
E, segundo Vorcaro, as doações eleitorais teriam funcionado como contrapartida para assegurar essa continuidade.
A apuração do Radar Brasileiro mostra que as agendas e os registros precisam ser cruzados justamente nesse intervalo.
Não basta olhar para a doação.
Não basta olhar para o credenciamento.
E não basta olhar para a fotografia de Nova York.
É necessário colocar tudo na mesma linha do tempo.
A fotografia de Nova York

Em maio de 2024, Augusto Lima apareceu ao lado de Tarcísio durante um evento em Nova York.
O governo paulista afirma que não houve reunião reservada e que os dois apenas participaram do mesmo evento.
Mas a fotografia desmonta qualquer tentativa de sustentar que os dois jamais estiveram no mesmo ambiente.
Lima estava diante do governador.
E o evento tinha relação com o circuito empresarial no qual o Banco Master, de Vorcaro, estava inserido.
Quem comandava a área?

Outro ponto que precisa ser esclarecido é o papel da Secretaria de Gestão e Governo Digital.
No início da administração Tarcísio, Caio Paes de Andrade comandava a SGGD. A secretaria tinha entre suas atribuições justamente a estrutura administrativa relacionada à gestão de pessoal e às consignações.
Ao mesmo tempo, Gilberto Kassab comandava a Secretaria de Governo e Relações Institucionais.
Portanto, a estrutura política e a estrutura administrativa estavam perfeitamente identificadas:
Tarcísio de Freitas — governador
Gilberto Kassab — secretário de Governo e Relações Institucionais
Caio Paes de Andrade — secretário de Gestão e Governo Digital
Augusto Lima — executivo responsável pela expansão do Credcesta
Daniel Vorcaro — controlador do Banco Master e sócio de Lima
É esse cruzamento que torna as visitas ao Palácio particularmente relevantes.
Essas não são perguntas abstratas.
São perguntas que podem ser respondidas por agendas oficiais, registros de acesso, documentos administrativos e testemunhos dos próprios participantes.
O Radar Brasileiro não está afirmando que uma visita ao Palácio, isoladamente, prova corrupção.
O que a apuração mostra é que Augusto Lima esteve repetidamente no centro administrativo do governo paulista enquanto o Credcesta, negócio que ele ajudou a expandir, buscava permanecer na folha dos servidores estaduais.
E, paralelamente, existe um relato de Daniel Vorcaro apontando Lima como o responsável pela articulação política destinada a garantir essa permanência.
Kassab estava no comando da articulação política.
Tarcísio comandava o Estado.
Caio Paes de Andrade comandava a secretaria diretamente relacionada à estrutura de gestão e consignação.
E o Credcesta continuava dentro do governo.