O Radar Brasileiro cruzou documentos oficiais, registros eleitorais e atos do governo paulista e encontrou uma cronologia que revela a relação entre a campanha de Tarcísio de Freitas, a coordenação de Kassab, o grupo de Daniel Vorcaro e o negócio do Credcesta.
A sequência é objetiva: em maio de 2022, a empresa responsável pelo Credcesta obteve autorização para operar no sistema de consignações do Estado de São Paulo. Cinco meses depois, durante a campanha eleitoral, Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, transferiu R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio. Após a vitória, o Credcesta permaneceu inserido no sistema paulista.
A postura de Tarcísio de Freitas diante das perguntas sobre Daniel Vorcaro também passou a chamar atenção. Em entrevistas e compromissos de campanha, questionamentos relacionados ao banqueiro e às relações envolvendo o Credcesta provocaram reações da equipe do candidato, com a assessoria tentando interromper ou limitar a abordagem dos jornalistas.
O ponto explosivo revelado pelo Radar Brasileiro surge agora.
Em proposta de , Vorcaro afirmou que os R$ 5 milhões destinados às campanhas de Tarcísio e Jair Bolsonaro — R$ 2 milhões para Tarcísio e R$ 3 milhões para Bolsonaro — não seriam simples doações eleitorais, mas parte de uma suposta negociação para garantir a continuidade do Credcesta no governo paulista.
Segundo o relato atribuído a Vorcaro, teria existido um “ajuste indevido com Gilberto Kassab para a manutenção do Credcesta no governo Tarcísio”. O banqueiro afirma que Augusto Lima, ligado à expansão do produto, teria conduzido a articulação com Kassab e Tarcísio.
Os documentos públicos permitem reconstruir a cronologia.
O documento que antecede a eleição

O primeiro ponto da história está no Diário Oficial de São Paulo.
Em 25 de maio de 2022, o governo paulista deferiu oficialmente o pedido da PKL One Participações S.A. para ingressar no Sistema de Consignação em Folha de Pagamento do Estado.
O despacho é explícito:
“DEFIRO o pedido de credenciamento junto ao Sistema de Consignação em Folha de Pagamento do Estado de São Paulo, formulado pela PKL ONE PARTICIPAÇÕES S/A (…) concedendo-lhe a espécie de consignação 270 (Cartão de Benefício).”
O documento está disponível no próprio Diário Oficial.
DOCUMENTO OFICIAL — Diário Oficial de SP, 27/05/2022
A autorização ocorreu antes da eleição de Tarcísio e durante a gestão anterior.
Esse detalhe é fundamental.
Tarcísio e Kassab já sabiam da proposta do Banco Master. Já sabiam que a tramitação estava encaminhada. Kassad e Tarcísio garantiram a presença do Master para entrar de vez no governo.
É justamente aí que a narrativa de Vorcaro ganha relevância.
A doação veio em plena disputa eleitoral.
Tarcísio avançou ao segundo turno em outubro de 2022.
E, poucos dias depois do primeiro turno, apareceu o dinheiro.
10 de outubro de 2022: Fabiano Campos Zettel transferiu R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro.
13 de outubro de 2022: Zettel transferiu R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio de Freitas.
Zettel é cunhado de Daniel Vorcaro.
Os valores constam oficialmente das prestações de contas eleitorais.
Onde conferir
TSE — DivulgaCandContas:
Consulta oficial das prestações de contas eleitorais do TSE
É ali que o eleitor pode consultar as receitas declaradas e localizar os repasses feitos por Fabiano Campos Zettel.
A Agência Pública também identificou Zettel como o maior doador individual da campanha de Tarcísio.
O Credcesta virou propaganda no Programa do Ratinho e o apresentador citava nominalmente o Banco Master e o governo Tarcísio de Freitas.

O rastro do dinheiro de “propina”
É aqui que a história deixa de ser apenas uma doação eleitoral milionária e passa a exigir investigação.
Segundo Vorcaro, o dinheiro teria sido entregue para assegurar que o Credcesta permanecesse operando depois da mudança de governo. E foi o que aconteceu.
O ex-banqueiro afirma que Augusto Lima, responsável pelas articulações de expansão do produto, teria buscado garantir a continuidade do negócio diante da provável vitória de Tarcísio. Kassab sabia de tudo e Tarcísio também.
A suposta contrapartida seria a preservação da operação junto ao governo paulista.
A descrição atribuída a Vorcaro é direta: as doações teriam sido “contrapartidas financeiras” de um ajuste destinado à manutenção do Credcesta.
Ou seja:
- primeiro veio o negócio;
- depois veio a eleição;
- depois veio o dinheiro;
- e, segundo Vorcaro, depois veio a manutenção do negócio.
É essa sequência que precisa ser investigada.
TARCÍSIO NEGA TER CONHECIDO AUGUSTO LIMA

O governador Tarcísio de Freitas já disse que “não tinha relação e nem conhecia Augusto Lima”. Só que a imagem mostra uma relação de amizade entre os dois. Tarcísio se reuniu em Nova York com Augusto Lima, ligado ao Banco Master.
Tarcísio tentou esconder a amizade e os acordos comerciais entre o Governo de SP e o Banco Master, mas a foto, as conversas, as risadas e os encontros derrubam a narrativa do governador de São Paulo.
A campanha de Tarcísio recebeu R$ 2 milhões

Formalmente, o dinheiro não saiu da conta identificada publicamente como sendo de Daniel Vorcaro.
O doador registrado foi Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro.
Na versão apresentada pelo ex-banqueiro, Zettel teria sido utilizado para fazer oficialmente os pagamentos porque Augusto Lima teria receio de doar diretamente aos adversários políticos do PT.
Portanto, a pergunta jornalística não é simplesmente “quem aparece como doador?”
O que aconteceu depois da vitória?
Tarcísio venceu a eleição.
Em janeiro de 2023, assumiu o governo de São Paulo.
E o Credcesta continuou operando no Estado.
É justamente essa continuidade que Vorcaro apresenta como a suposta “contrapartida de propina” do acordo.
Segundo a proposta de delação, o Credcesta permaneceu no governo paulista por mais de um ano.
O credenciamento original ocorreu em 2022, ainda antes de Tarcísio assumir.
Kassab aparece no centro da negociação

Na narrativa de Vorcaro, o personagem político central não seria Tarcísio diretamente. Tarcísio seria o segundo intermediário do negócio.
Primeiro, seria Gilberto Kassab. Era o homem de confiança de Tarcísio e coordenador central da campanha dele.
Segundo o ex-banqueiro, teria havido um entendimento com Kassab para assegurar a continuidade do Credcesta.
O relato afirma ainda que, além dos R$ 5 milhões oficialmente destinados às campanhas de Bolsonaro e Tarcísio, teriam existido aproximadamente outros R$ 10 milhões em pagamentos informais, supostamente destinados a pessoas ligadas a Kassab.
Essa parte é ainda mais grave.
Kassab nega.
Ele classificou a acusação como fantasiosa e afirmou que nunca negociou doações com Vorcaro ou seus associados.
O elo político que veio depois

Há, entretanto, um fato documental que ajuda a dimensionar a posição de Kassab no novo governo.
Depois da vitória, Kassab tornou-se secretário de Governo e Relações Institucionais de Tarcísio.
Portanto, o homem que Vorcaro aponta como suposto intermediário da negociação passou a ocupar justamente uma posição estratégica dentro da administração que assumiu após a eleição.
Isso não prova que ele tenha negociado propina.
Mas torna a acusação suficientemente relevante para exigir que agendas, mensagens, ligações, reuniões e decisões administrativas relacionadas ao Credcesta sejam submetidas a investigação.
O Master exigiu o governo de SP
Aqui está uma distinção importante.
O Credcesta não era simplesmente uma empresa que vendia produtos no mercado privado.
Tratava-se de um produto voltado aos servidores públicos paulistas, inserido no sistema estadual de consignações.
O despacho de maio de 2022 concedeu à PKL One justamente a espécie 270 — Cartão de Benefício.
O produto, posteriormente, ficou associado ao Banco Master, controlado por Vorcaro.
Em processos judiciais envolvendo o Credcesta, o Banco Master aparece relacionado às operações do cartão.
Portanto, o interesse econômico era evidente: ter acesso ao mercado de servidores públicos de São Paulo e às operações de crédito consignado vinculadas à folha estadual.
É isso que dá dimensão financeira à acusação.
Não se tratava, segundo a própria narrativa empresarial, de conquistar um contrato qualquer.
Tratava-se de permanecer dentro de um mercado formado por milhares de servidores.
A defesa de Tarcísio apresenta uma versão completamente diferente.
O governador afirma que nunca teve contato ou relação com Vorcaro, que não tinha conhecimento de qualquer conduta irregular e que sua campanha foi conduzida dentro da legislação eleitoral.
Também sustenta que o credenciamento da PKL One ocorreu em maio de 2022, durante a gestão anterior, e que o credenciamento não representava contrato com o Estado nem envolvia repasse de dinheiro público.
Tarcísio classificou a acusação como algo que “beira o ridículo”.
Essa versão precisa fazer parte da investigação.
O ponto que o Radar Brasileiro encontrou
A PKL One já estava oficialmente dentro do sistema de consignações paulista antes da eleição.
O TSE prova que três dias depois de uma doação de R$ 3 milhões para Bolsonaro, o mesmo doador colocou R$ 2 milhões na campanha de Tarcísio.
E Vorcaro acrescenta uma terceira informação: segundo ele, os R$ 5 milhões eram parte de um acordo para preservar o Credcesta após a eleição.
É a junção dessas três informações que cria o caso evidente de troca de favores entre Tarcísio, Kassad e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
A equação apresentada por Vorcaro seria:
DINHEIRO → CAMPANHA → VITÓRIA → MANUTENÇÃO DO CREDCESTA.
A reação de Tarcísio de Freitas ao ser questionado sobre o Banco Master e sua relação com Daniel Vorcaro passou a chamar atenção. Diante das perguntas, o governador demonstra desconforto e tensão, enquanto sua equipe de assessoria tenta controlar a entrevista e limitar o avanço dos questionamentos.