O Radar Brasileiro já havia levantado a existência de relações empresariais entre Augusto Cury e o grupo Fictor, além de apontar que havia empresas vinculadas ao presidenciável que não apareciam na declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral.
A nova apuração publicada agora amplia esse quadro e mostra que as inconsistências não se restringem a um episódio isolado.
Levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo identificou ao menos três empresas registradas na Flórida e outras duas no Brasil que não foram incluídas por Cury na relação de bens entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O candidato declarou patrimônio de R$ 242,3 milhões, o maior entre os presidenciáveis de 2026.
Nos Estados Unidos, registros oficiais da Divisão de Corporações da Flórida apontam cinco empresas relacionadas a Cury. Duas delas foram informadas à Justiça Eleitoral: Intelligence School e Love Story Investments.
As outras três — Cury Academia Comportamental, Contemplare Investments e Free Mind Publish — não aparecem na declaração apresentada ao TSE.
Todas as três empresas omitidas mantinham registros ativos em 2026. Em seus documentos corporativos, Cury aparece como pessoa autorizada a atuar pelas companhias e, em uma delas, consta como o único membro autorizado.
Os registros, contudo, não permitem determinar qual é a participação societária exata do candidato em cada empresa.
Radar Brasileiro já havia apontado relação com a Fictor
A nova revelação ganha ainda mais peso porque o nome de Augusto Cury já havia aparecido em outra frente empresarial de grande relevância.
O Radar Brasileiro havia mostrado anteriormente a ligação de Cury com a Fictor, grupo que entrou em recuperação judicial e que esteve envolvido na tentativa de aquisição do Banco Master.
O próprio Cury declarou ao TSE possuir R$ 31,5 milhões relacionados à Fictor Invest. O mesmo valor aparece na relação inicial de credores da recuperação judicial do grupo, classificado como crédito quirografário — ou seja, sem garantia específica.
Segundo os documentos, o crédito está relacionado à rescisão de contratos de sociedade em conta de participação. A mulher de Cury também aparece na lista de credores, com um crédito de aproximadamente R$ 1,3 milhão.
A Fictor pediu recuperação judicial em 2026. O grupo também esteve envolvido, em 2025, na tentativa de compra do Banco Master, posteriormente colocado em pelo Banco Central.
Diante desse histórico, a declaração patrimonial de Cury passa a ser um dos pontos centrais a serem examinados na campanha do presidenciável.
Negócios milionários em Orlando
A presença empresarial de Cury nos Estados Unidos também envolve operações imobiliárias de grande porte.
A Intelligence School, uma das empresas que aparecem na declaração ao TSE, comprou e vendeu pelo menos quatro imóveis em Orlando entre 2014 e 2024. As operações identificadas em registros imobiliários do condado de Orange somam aproximadamente US$ 13,5 milhões.
O problema apontado pela nova apuração é que, ao mesmo tempo em que uma parte dos negócios americanos foi declarada, outras três empresas relacionadas ao escritor ficaram fora da documentação entregue à Justiça Eleitoral.
Cinco empresas fora da declaração
Além das três companhias registradas na Flórida, duas empresas brasileiras também não aparecem na declaração eleitoral.
Uma delas é a Contemplare, criada em 2022 em Dumont, no interior paulista, e posteriormente transferida para Ribeirão Preto. A companhia tem entre suas atividades a locação de imóveis próprios, o aluguel e arrendamento de terras e a administração de propriedades.
A outra é a Academia de Pensar e Brincar, empresa da qual Cury aparece como sócio-administrador ao lado da mulher e de duas filhas. A companhia atua no segmento de recreação e possui capital social declarado de R$ 12 mil.
Somadas, as informações levantadas apontam para cinco empresas que não constam da declaração apresentada pelo presidenciável.
Patrimônio de R$ 242 milhões
Cury declarou ao TSE patrimônio de R$ 242,3 milhões.
Entre os ativos estão R$ 25,8 milhões em BDRs, certificados negociados na B3 que têm como lastro ações de empresas estrangeiras.
Mas o maior item individual da declaração é um crédito de aproximadamente R$ 121 milhões contra a Filadélfia Nature, empresa da qual Cury possui 99,97% das quotas.
A empresa também tem como sócias minoritárias a mulher e as três filhas do candidato.
Cury ainda declarou 19 itens relacionados a propriedades rurais, avaliados em aproximadamente R$ 6,7 milhões.
Fortuna construída também com negócios educacionais
Uma das principais operações empresariais da família Cury ocorreu no setor de educação.
Entre 2020 e o primeiro semestre de 2023, a Arco Educação pagou R$ 589,1 milhões à família do escritor pela aquisição da Escola da Inteligência, empresa fundada por Cury e uma de suas filhas, segundo balanços da companhia.
A empresa comercializava materiais e oferecia capacitação de professores para atividades voltadas ao desenvolvimento emocional dos estudantes.
A operação é considerada por pessoas próximas ao escritor como seu principal negócio até hoje.
Campanha diz que patrimônio não é ilícito
A equipe de Augusto Cury afirma que o patrimônio do candidato foi construído de forma lícita e informou que eventuais inconsistências na declaração apresentada à Justiça Eleitoral serão corrigidas.
O que os novos documentos colocam sob questionamento é a completude da declaração patrimonial apresentada pelo candidato.
E esse ponto ganha relevância ainda maior porque o Radar Brasileiro já havia chamado atenção para as relações empresariais de Cury com o universo da Fictor e para a existência de negócios que não apareciam na declaração eleitoral.
Agora, os registros americanos e brasileiros revelados pela nova apuração ampliam o mapa empresarial do presidenciável e mostram que a dimensão dos negócios de Augusto Cury é maior e mais complexa do que aquela apresentada inicialmente ao eleitor e à Justiça Eleitoral.