O Radar Brasileiro mostra mais uma vez que o governador Tarcísio de Freitas vem mentindo sobre o corte na secretaria das mulheres. Em duas Sabatinas seguidas ele mente os dados e nenhum jornalista o questiona. Na última, da CBN/Valor/O Globo, o candidato sequer foi questionado sobre os números errados.
Não é apenas uma disputa de números orçamentários. Por trás do corte de verbas e da maquiagem que Tarcísio de Freitas tenta fazer sobre os dados existe uma consequência que não cabe em discurso de campanha: mulheres estão sendo assassinadas.
São Paulo registrou 141 casos de feminicídio no primeiro semestre de 2026, o maior número da série histórica iniciada em 2018. Na comparação com o mesmo período de 2025, houve aumento de 10%. Os dados são da própria Secretaria da Segurança Pública.
Foram 142 mulheres mortas, porque em uma das ocorrências duas vítimas foram assassinadas. É um retrato brutal de um problema que o governo Tarcísio tenta transformar em estatística de ocasião quando deveria tratá-lo como emergência de política pública.
E é justamente nesse cenário que aparece a discussão sobre o orçamento da Secretaria de Políticas para a Mulher.
A proposta apresentada pelo governo Tarcísio para 2026 destinou R$ 16,5 milhões à pasta. O orçamento final de 2025 havia chegado a aproximadamente R$ 38 milhões, depois de alterações feitas durante a tramitação na Assembleia Legislativa. A diferença entre os dois valores é superior a 54%.
Tarcísio escolhe o número que lhe interessa
Na sabatina da CBN, O Globo e Valor, Tarcísio tentou rebater as críticas dizendo que não houve redução de investimentos.
Mas há um detalhe que o governador convenientemente deixa de lado.
Em vez de comparar os R$ 16,5 milhões de 2026 com os cerca de R$ 38 milhões efetivamente previstos para a secretaria em 2025, o governo prefere comparar a proposta de 2026 com a proposta original de 2025, que era de aproximadamente R$ 10 milhões.
Essa comparação permite ao governador dizer que houve aumento.
É uma fotografia escolhida a dedo.
O problema é que o orçamento que vale para avaliar a política pública não é aquele que o governo gostaria que tivesse sido aprovado. É aquele que efetivamente foi aprovado.
E o número é claro: cerca de R$ 38 milhões em 2025 contra R$ 16,5 milhões na proposta apresentada pelo Executivo para 2026.
O próprio governo reconhece que o orçamento de 2025 foi ampliado durante a tramitação na Alesp e que os deputados também elevaram os recursos para 2026, deixando a secretaria com cerca de R$ 30 milhões.
Portanto, Tarcísio pode explicar a metodologia, pode falar em transversalidade e pode argumentar que outras secretarias também executam políticas para mulheres.
O que ele não pode fazer é fingir que a redução da previsão específica da pasta nunca existiu.
E a conta chega para as mulheres
A questão ganha ainda mais gravidade diante dos números da violência.
No primeiro trimestre de 2026, São Paulo já havia registrado 86 feminicídios, segundo dados da SSP. O número representava alta de 41% em relação ao primeiro trimestre de 2025. No interior, a situação era ainda mais grave: foram 60 casos, contra 34 no mesmo período do ano anterior.
Quando chegou ao fim do primeiro semestre, o estado atingiu os 141 casos, consolidando o pior resultado da série histórica para o período.
Há ainda um dado que desmonta qualquer tentativa de tratar o fenômeno como algo inevitável ou exclusivamente nacional: o Brasil teve queda de 2,5% nos feminicídios no primeiro semestre de 2026, enquanto São Paulo esteve entre os estados que registraram aumento.
Ou seja, enquanto o país registrou redução, São Paulo caminhou na direção oposta.
Aqui está o fracasso que precisa ser discutido
Não basta Tarcísio aparecer em evento eleitoral dizendo que as mulheres não se sentem seguras. Não basta colocar a pauta feminina no plano de governo. Não basta anunciar novas promessas quando a campanha começa.
A pergunta é outra:
O que o governo fez, concretamente, para impedir que essas mulheres fossem assassinadas?
A prioridade que aparece no palanque desaparece no orçamento
Tarcísio sabe que a segurança das mulheres se tornou um problema eleitoral.
Tanto que, no início oficial da campanha, passou a dedicar atenção especial ao eleitorado feminino e reconheceu publicamente que muitas mulheres “não se sentem seguras”. Na mesma ocasião, citou justamente os 141 feminicídios registrados no primeiro semestre de 2026.
É difícil não enxergar a contradição.
Quando precisa conquistar votos, a violência contra a mulher vira prioridade. Quando chega a hora de discutir orçamento, a prioridade perde dinheiro.
Essa é a crítica que o discurso do governador não consegue responder.
E há outro problema: não adianta simplesmente colocar dinheiro no papel.
Levantamento publicado em janeiro mostrou que a gestão Tarcísio havia empenhado apenas 53% do orçamento previsto para a Secretaria de Políticas para a Mulher nos dois primeiros anos de funcionamento integral da pasta. Dos R$ 61 milhões previstos para 2024 e 2025, apenas R$ 33 milhões haviam sido empenhados.
Portanto, existe uma combinação preocupante: menos previsão orçamentária em determinados momentos e execução abaixo do orçamento previsto em anos anteriores.
O discurso da “transversalidade” não pode servir de escudo
O governo argumenta que as políticas para mulheres são transversais e envolvem diversas secretarias.
Isso é verdade como conceito administrativo.
Mas não resolve a questão política.
Se a Saúde participa, a Segurança participa, o Desenvolvimento Social participa e outras áreas também participam, ótimo. Então que o governo mostre quanto cada uma delas efetivamente investiu na prevenção da violência contra a mulher, quanto executou e quais resultados entregou.
Porque jogar tudo para a conta da “transversalidade” pode virar uma maneira conveniente de ninguém ser responsável por nada.
A Secretaria da Mulher foi criada justamente para articular essas políticas.
Se a pasta recebe menos recursos, se parte do orçamento não é executada e, ao mesmo tempo, os feminicídios atingem níveis recordes, o governo precisa prestar contas.
Não com slogan.
Com números.
O resultado está nas estatísticas — e é devastador
São Paulo não está falando de uma abstração.
São 141 ocorrências de feminicídio em seis meses.
São mulheres mortas, famílias destruídas e crianças que perderam mães.
É uma mulher assassinada por razões de gênero em um estado que, ao mesmo tempo, discute orçamento, programas, estruturas de atendimento e prevenção.
E quando o governador tenta responder à cobrança sobre recursos escolhendo uma comparação que começa no ponto mais conveniente para sua narrativa, a crítica se torna inevitável.
Tarcísio não está apenas discutindo orçamento. Está tentando controlar a narrativa sobre o próprio orçamento.
A diferença é fundamental.
Não dá para maquiar 141 mortes
O governador pode dizer que o orçamento inicial de 2026 é maior que a proposta inicial de 2025.
Pode dizer que existem recursos em outras secretarias.
Pode dizer que a Alesp alterou os valores.
Pode falar em novas políticas.
Mas há fatos que permanecem.
São Paulo registrou 141 feminicídios no primeiro semestre de 2026.
O número é recorde para o período.
Houve alta de 10% em relação ao primeiro semestre de 2025.
O orçamento final da Secretaria da Mulher em 2025 ficou muito acima dos R$ 16,5 milhões originalmente previstos pelo governo para 2026.
E a própria gestão Tarcísio reconhece que os recursos da política para mulheres estão distribuídos por diversas áreas do governo.
O que não pode existir é a tentativa de vender uma redução como se fosse aumento simplesmente porque o governador escolheu outro ponto de partida.
Mulheres não são uma linha de uma planilha. E feminicídio não é uma estatística que desaparece porque o governador mudou a comparação.
Se Tarcísio quer falar em prioridade para as mulheres, precisa responder por que, sob seu governo, São Paulo chegou ao maior número de feminicídios da série histórica enquanto a discussão sobre recursos da Secretaria da Mulher é marcada por cortes, baixa execução e uma disputa de versões sobre os próprios números.
Porque, no fim, a propaganda pode maquiar o orçamento.
Não consegue maquiar 141 mortes.