A Jovem Pan foi obrigada a abrir espaço em sua programação para um direito de resposta de Fernando Haddad, candidato do PT ao governo de São Paulo, depois de o programa “Quem Tem Razão?”, apresentado por Paula Nobre e Oscar Filho, reproduzir uma informação falsa envolvendo o político e sua esposa, Ana Estela Haddad.
A emissora reconheceu que a informação apresentada no ar estava errada e afirmou ter adotado medidas internas para corrigir o episódio. O conteúdo foi exibido originalmente em 14 de agosto de 2026.
O caso chama atenção porque a afirmação atribuída a Haddad não é uma informação nova nem uma controvérsia recente. Trata-se de uma mentira que circula desde a eleição presidencial de 2018 e que já havia sido desmentida anteriormente. Ainda assim, a declaração voltou a ser apresentada ao público como se fosse verdadeira.
A frase falsa atribuída ao candidato dizia que ele teria afirmado: “minha esposa vai dormir com o próximo governador de São Paulo”. Segundo a defesa de Haddad, ele jamais fez essa declaração.
A equipe jurídica do candidato classificou a reprodução como uma informação falsa e criticou a falta de apuração antes da transmissão. Também afirmou que Haddad não foi procurado pela emissora para apresentar sua versão antes da veiculação.
O episódio ganha ainda mais peso por ocorrer durante uma disputa eleitoral. Quando uma informação falsa é apresentada por um veículo de comunicação em meio a uma campanha, o problema deixa de ser apenas um erro editorial: pode interferir diretamente na percepção do eleitor e atingir a imagem de um candidato.
A própria Jovem Pan reconheceu o erro
Depois da contestação apresentada pela defesa de Haddad, a Jovem Pan divulgou o direito de resposta e publicou uma manifestação reconhecendo que a informação exibida pelo programa estava errada.
Em nota, a emissora afirmou que “não endossa qualquer tipo de ofensa ou ataque pessoal” e declarou compromisso com a correção da informação apresentada no programa.
A emissora também lamentou o episódio e informou que adotaria “os procedimentos cabíveis internamente”. Não foram detalhadas, porém, quais medidas seriam tomadas contra os responsáveis pela divulgação do conteúdo.
O reconhecimento é particularmente relevante porque não se trata de uma simples divergência política. A própria emissora admitiu que a informação veiculada estava incorreta.
Haddad: “Trata-se de uma mentira”
No direito de resposta, a defesa do candidato foi direta ao negar a declaração.
“Trata-se de uma mentira a afirmação de que Fernando Haddad teria dito a frase ‘minha esposa vai dormir com o próximo governador de São Paulo’. Essa declaração jamais foi feita por Haddad.”
A equipe jurídica também sustentou que a Jovem Pan deveria ter realizado uma checagem básica antes de apresentar a declaração ao público, justamente porque o conteúdo já circulava havia anos e havia sido objeto de desmentidos.
A defesa afirmou ainda que a reprodução ocorreu de forma “manipulada e descontextualizada” e que faltou à emissora o dever básico de checar a informação e ouvir o outro lado.
Ana Estela também foi alvo
O episódio não atingiu apenas Haddad. Os comentários também envolveram Ana Estela Haddad, que, segundo a defesa do candidato, acabou sendo utilizada como instrumento de ataque político.
A equipe jurídica classificou os comentários direcionados à mulher de Haddad como machistas e misóginos e criticou o fato de ela ter sido colocada no centro de uma narrativa baseada em uma declaração que nunca foi feita.
O caso, portanto, expõe uma prática recorrente no ambiente político das redes sociais: uma afirmação falsa é criada ou atribuída a uma figura pública, permanece circulando durante anos e, mesmo depois de desmentida, reaparece em novos contextos como se fosse verdadeira.
Não é a primeira vez que a Jovem Pan fala mentira no ar
O episódio também ocorre em um contexto no qual a Jovem Pan já enfrentou decisões judiciais relacionadas à divulgação de informações falsas durante períodos eleitorais.
Em 2022, por exemplo, o Tribunal Superior Eleitoral concedeu direito de resposta à coligação de Luiz Inácio Lula da Silva contra a Rádio Jovem Pan após alegações consideradas falsas e caluniosas relacionadas a um suposto conluio entre a Justiça Eleitoral e a campanha petista.
Naquele caso, o TSE determinou que a emissora exibisse a resposta durante 48 dias.
O histórico torna o episódio envolvendo Haddad ainda mais sensível: em vez de ser apenas uma discussão sobre opinião ou liberdade de expressão, está em jogo o limite entre crítica política — legítima em uma democracia — e a apresentação de uma informação falsa como fato.
NOTA LIDA NO AR PELA JOVEM PAN
Abaixo, o conteúdo do direito de resposta divulgado pela emissora, conforme registrado na íntegra pela reportagem:
“Trata-se de uma mentira a afirmação de que Fernando Haddad teria dito a frase ‘minha esposa vai dormir com o próximo governador de São Paulo’. Essa declaração jamais foi feita por Haddad.
A informação falsa circula desde a campanha eleitoral de 2018 e já foi desmentida por agências de checagem. Ao reproduzir novamente essa informação, desta vez de forma manipulada e descontextualizada, como se fosse verdadeira, o programa faltou com o compromisso básico de qualquer veículo de comunicação: checar a informação e ouvir o outro lado antes de divulgá-la.”
A Jovem Pan, por sua vez, declarou que se compromete com a correção da informação errada exibida no programa “Quem Tem Razão?”, lamentou o episódio e afirmou que adotaria procedimentos internos.
O episódio deixa uma questão inevitável para o debate eleitoral de 2026: até que ponto uma mentira antiga pode continuar sendo reciclada como arma política depois de já ter sido desmentida?
No caso de Haddad, a resposta precisou ser lida no ar para corrigir uma informação que a própria emissora reconheceu como errada.