Vice de Ronaldo Caiado, presidente nacional do PSD foi flagrado cochilando durante o debate da Band; cena virou símbolo de uma trajetória marcada pela conveniência política e por alianças que mudam conforme a direção do poder.
Gilberto Kassab foi ao primeiro debate presidencial das eleições de 2026. Mas, enquanto os candidatos discutiam o futuro do país, o presidente nacional do PSD parecia ter encontrado outra prioridade: dormir.
Candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado, Kassab foi flagrado cochilando na plateia durante o debate da Band neste domingo (23). A cena ganhou repercussão nas redes sociais e foi registrada por diferentes veículos de imprensa.
O detalhe mais constrangedor é que Kassab não estava em qualquer evento. Ele acompanhava justamente o debate de seu próprio candidato à Presidência da República.
Enquanto Caiado apresentava suas propostas e atacava os adversários, seu vice parecia completamente alheio ao espetáculo político. Em determinado momento, as câmeras registraram Kassab de olhos fechados, aparentemente dormindo.
A imagem é engraçada. Mas também é politicamente simbólica.
Kassab representa um tipo de político que raramente se compromete definitivamente com uma posição. Sua especialidade parece ser sobreviver às mudanças de vento da política brasileira. Quando a maré sobe para um lado, ele se aproxima. Quando muda de direção, muda junto.
De Bolsonaro a Tarcísio — e agora Caiado

Durante o governo Jair Bolsonaro, Kassab e o PSD mantiveram uma relação política marcada por aproximações e negociações com o campo conservador. Em São Paulo, o partido se tornou uma peça importante da engrenagem que ajudou a sustentar a ascensão de Tarcísio de Freitas.
Kassab também construiu uma relação política próxima com Tarcísio. Em 2026, porém, a situação mudou: Tarcísio apoia Flávio Bolsonaro para a Presidência, enquanto Kassab colocou o PSD na disputa com Ronaldo Caiado. Reportagens recentes mostram justamente a disputa entre os grupos de Kassab e Tarcísio pelo controle das bases políticas municipais em São Paulo.
É difícil não perceber a ironia.
O mesmo Kassab que durante anos circulou confortavelmente no campo político de Tarcísio agora está em uma chapa que tenta se apresentar como alternativa à família Bolsonaro.
E o próprio discurso de Kassab mudou.
Em agosto, o presidente do PSD afirmou que a possibilidade de Flávio Bolsonaro vencer a eleição seria “zero”. Também disse que o Centrão estaria com Lula.
Ou seja: ontem, a direita bolsonarista era uma força política incontornável. Hoje, Kassab tenta se apresentar como uma alternativa a ela.
A pergunta inevitável é: o que mudou — a convicção de Kassab ou o vento?
O político que sempre encontra um lugar ao lado do poder
Kassab construiu uma longa carreira política justamente pela capacidade de transitar entre diferentes campos.
Não há nada de errado, em princípio, em dialogar com diferentes setores. Política exige negociação. O problema começa quando a capacidade de dialogar parece substituir a existência de uma identidade política clara.
Kassab já esteve ao lado de diferentes grupos, participou de diferentes governos e estabeleceu alianças com personagens de posições completamente distintas.
Agora, aparece como vice de Caiado, tentando vender a imagem de uma terceira via capaz de escapar da polarização entre Lula e Bolsonaro.
Mas a trajetória recente deixa uma dúvida incômoda: Kassab está rompendo com o extremismo bolsonarista ou apenas percebendo que o bolsonarismo deixou de ser a melhor aposta eleitoral?
A diferença entre as duas coisas é enorme.
Romper por convicção significa assumir publicamente os erros, explicar as mudanças e estabelecer limites claros. Mudar de posição conforme as pesquisas e as possibilidades eleitorais é outra coisa.
É o velho pragmatismo levado ao limite.
A cena do cochilo não poderia ser mais simbólica
O debate da Band já havia sido marcado por um clima de tensão.
Com Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema ausentes, apenas Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury participaram do confronto. O ambiente ficou carregado, com ataques, provocações e críticas à ausência dos principais nomes da disputa.
E, no meio daquele cenário, Kassab dormiu.
Talvez tenha sido apenas cansaço.
Mas a fotografia acabou produzindo uma metáfora perfeita para sua trajetória política: enquanto os outros brigam pelas ideias, Kassab parece esperar para descobrir quem vai sair vencedor.
Não é necessariamente falta de inteligência política. Pelo contrário.
É justamente o contrário: Kassab é um dos políticos mais habilidosos do país quando o assunto é sobrevivência.
O problema é que sobrevivência política não é necessariamente liderança.
Um líder precisa dizer o que pensa mesmo quando isso custa votos, cargos ou alianças. Precisa estabelecer limites. Precisa ser capaz de dizer “não” ao próprio campo quando esse campo ultrapassa determinadas fronteiras.
Kassab, por sua vez, frequentemente parece preferir manter portas abertas.
Todas elas.
De articulador a símbolo do Centrão
Kassab se tornou um dos maiores símbolos da política de centro pragmático brasileira: conversa com todos, negocia com todos e mantém canais abertos com praticamente todos os grupos relevantes.
Isso pode ser uma virtude administrativa.
Mas, numa eleição presidencial, pode virar um problema.
Caiado tenta vender sua candidatura como uma alternativa ao confronto entre Lula e Bolsonaro. Kassab deveria ajudar a dar consistência a esse projeto.
Só que sua própria trajetória oferece munição para quem questiona essa narrativa.
Como convencer o eleitor de que existe uma alternativa política verdadeiramente independente se um dos principais articuladores dessa alternativa passou tantos anos transitando justamente pelos grupos que hoje tenta deixar para trás?
Essa é a contradição que Kassab terá de responder.
O cochilo que virou retrato
No fim, a cena de Kassab dormindo pode ser apenas uma cena de um homem cansado depois de uma longa agenda política.
Mas política também é feita de símbolos.
E poucas imagens seriam tão convenientes para resumir a presença de Kassab nesta eleição.
Enquanto Caiado tenta construir uma candidatura presidencial, enquanto os adversários trocam ataques e enquanto o eleitor espera respostas para problemas concretos do país, seu candidato a vice aparece cochilando na plateia.
Talvez Kassab estivesse apenas cansado.
Ou talvez a política brasileira tenha chegado a um ponto em que ele já não precise escolher um lado: basta esperar para descobrir qual vento vai soprar mais forte.
E, quando descobrir, provavelmente estará lá.