Tarcísio de Freitas decidiu não enfrentar Fernando Haddad no debate da Record marcado para esta segunda-feira (21). A campanha do governador havia confirmado a participação junto à emissora, mas voltou atrás e cancelou a presença de Tarcísio. No lugar do confronto entre os dois principais candidatos, Haddad será entrevistado pela Record no mesmo horário.
A justificativa oficial é a conhecida desculpa da “agenda”. Mas o Radar Brasileiro apurou que Tarcísio foi orientado a não participar do debate justamente para evitar ficar exposto e virar alvo dos questionamentos de Fernando Haddad.
A decisão é conveniente.
Tarcísio não teria diante dele uma entrevista previamente controlada, com perguntas previsíveis e espaço para discursos preparados. Teria um adversário sentado à sua frente, pronto para cobrar respostas — e uma série de assuntos que o governador preferiria não transformar em centro da campanha.
Porque o problema não seria falar sobre promessas, obras ou realizações do governo. Isso Tarcísio faz todos os dias.
Milton Leite: a pergunta que não pode ser escondida

A primeira delas atende pelo nome de Milton Leite.
O ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo foi preso temporariamente na Operação Vectura Corrupta, que investiga a infiltração do PCC no sistema de transporte público, lavagem de dinheiro, corrupção, fraude em licitações e financiamento ilícito de campanhas.
A investigação colocou Leite no centro de uma apuração que mira relações entre o crime organizado e o setor de transporte. Leite nega as acusações.
E aí está a pergunta que Tarcísio terá de responder em algum momento:
qual era, exatamente, a natureza da relação política entre o governador e Milton Leite?
Não basta falar em relação “institucional”. Não basta fugir para discursos genéricos sobre combate ao crime organizado.
“Nós identificamos 12 empresas de transporte que teriam envolvimento direto com o Primeiro Comando da Capital”, diz Fabricio Intelizano, delegado da Polícia Civil de Mogi das Cruzes.
O eleitor tem o direito de saber como funcionava essa proximidade política e quais eram os canais de diálogo entre o governo e um personagem que agora aparece no centro de uma investigação dessa dimensão.
Karina da Gama é outra pergunta sem resposta

Depois vem Karina Ferreira da Gama, produtora de Dark Horse e dirigente da Academia Nacional de Cultura e de organizações que receberam recursos públicos.

A Polícia Federal investiga justamente a movimentação de recursos públicos envolvendo entidades ligadas à produtora. Segundo a Folha, uma entidade ligada a Karina recebeu cerca de R$ 6,2 milhões provenientes de recursos federais e municipais viabilizados por emendas parlamentares, enquanto a destinação de parte desse dinheiro permanece sob investigação.
A defesa de Karina nega irregularidades. E existe um capítulo paulista que coloca o governo Tarcísio no meio dessa história.
O Radar Brasileiro revelou que R$ 1 milhão de uma emenda Pix entrou no Governo de São Paulo para um projeto audiovisual ligado à estrutura de Karina da Gama. O projeto, intitulado “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rende”, nunca saiu do papel.
Essa não é uma pergunta inventada para debate eleitoral.
É uma pergunta documental:
onde foi parar o dinheiro destinado ao projeto que não foi executado?
E existe uma conexão ainda mais incômoda.
Milton Leite ajudou a viabilizar, em 2018, uma parceria de R$ 2,5 milhões entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, entidade comandada por Karina da Gama.

Segundo os documentos citados na reportagem, uma emenda de R$ 500 mil de Leite integrou a origem dos recursos que permitiram a contratação da entidade.
Ou seja: Milton Leite e Karina da Gama não são nomes que aparecem isoladamente no noticiário.
E justamente por isso as relações políticas precisam ser esclarecidas.
Haddad ganha o palco que Tarcísio abandonou

A consequência prática foi imediata.
Fernando Haddad será entrevistado pela Record no mesmo horário. A emissora abriu espaço para o candidato petista, que criticou a decisão de Tarcísio e afirmou que a ausência impede uma comparação direta entre os dois principais candidatos.
Tarcísio não estará lá para responder.
Haddad estará.
O problema de cancelar um debate na reta final de uma eleição é justamente esse.
O candidato pode cancelar o compromisso.
Não pode cancelar o questionamento.
“A campanha de Tarcísio de Freitas informa que o candidato não participará do debate da Record. Os principais temas da eleição têm sido debatidos diariamente ao longo da campanha. Nesta reta final, a prioridade será conciliar a agenda de campanha pelo estado com as responsabilidades de governo. Tarcísio seguirá apresentando propostas, prestando contas do trabalho realizado e atendendo à imprensa durante suas agendas”, Nota da campanha de Tarcísio