A Bolsa de Valores de São Paulo despencou nesta segunda-feira (26), um dia após Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vencer Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais. A queda do Ibovespa chegou a 10% na abertura do pregão, levando a B3 a acionar o circuit breaker e suspender temporariamente as negociações.
O episódio escancarou uma realidade que o mercado financeiro prefere esconder: parte expressiva dos investidores apostou em um resultado eleitoral que não estava garantido. A Faria Lima construiu posições, antecipou ganhos e precificou um futuro político que dependia da vitória de Flávio Bolsonaro nas urnas.
Quando o resultado foi diferente, veio a de ativos.
Se o mercado decidiu apostar em um candidato, por que a conta dessa aposta deveria ser atribuída ao presidente eleito?
A derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro não foi uma decisão de Lula. Foi uma escolha soberana dos brasileiros. E o mercado financeiro, que se apresenta como especialista em avaliar riscos, deveria saber que eleições não são resultados previamente definidos.
A Faria Lima transformou a eleição em uma espécie de Bet

Nas semanas que antecederam o segundo turno, investidores ampliaram suas posições em ativos brasileiros apostando na vitória de Flávio Bolsonaro. A expectativa de uma mudança na política econômica impulsionou a Bolsa e contribuiu para a valorização dos papéis.
Após o primeiro turno, o Ibovespa chegou a registrar alta de 7,7% no pregão seguinte, enquanto o dólar recuou 4,11%. A valorização dos ativos refletia, em parte, a expectativa de vitória do candidato do PL.
O mercado comprou a promessa de um futuro governo antes que esse governo existisse.
É como apostar em uma partida de futebol porque um dos times parece mais completo, tem melhores jogadores e aparece como favorito. O investidor coloca dinheiro no resultado esperado, acredita que o adversário tem menos chances e começa a contabilizar o lucro antes do apito final.
Mas o adversário vence.
E o que acontece? O apostador perde.
É exatamente essa lógica que ajuda a explicar o movimento desta segunda-feira. A Faria Lima apostou em Flávio Bolsonaro, antecipou uma mudança política e econômica e agora enfrenta a reversão das expectativas.
A comparação com uma aposta esportiva não significa que o mercado financeiro seja literalmente uma casa de apostas. Significa que, nesse episódio, parte dos operadores assumiu riscos direcionais com base em um resultado eleitoral incerto.
O problema não foi Lula vencer. O problema foi o mercado agir como se a vitória de Flávio estivesse praticamente garantida.
O mercado vendeu uma coisa que não existe.
A conta da aposta não pode ser apresentada como culpa de Lula.
O discurso de que a Bolsa caiu porque Lula venceu tenta transformar uma decisão política legítima dos eleitores em uma espécie de punição econômica ao país.
Mas a Bolsa não caiu porque uma decisão concreta do novo governo foi anunciada nesta segunda-feira. A queda ocorreu imediatamente após o resultado eleitoral, em meio à desmontagem de posições que haviam sido construídas com base na expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro.
O próprio mercado reconhecia que a reação seria intensa. Levantamento do Citibank com gestores de fundos apontava que 80% dos entrevistados esperavam uma queda superior a 5% do Ibovespa caso Lula vencesse.
Ou seja: o risco era conhecido.
A Faria Lima sabia que havia uma possibilidade real de derrota do candidato que apoiava economicamente. Mesmo assim, parte dos investidores apostou na valorização dos ativos brasileiros sob uma eventual administração de Flávio Bolsonaro.
Agora, diante da reversão, não cabe transferir automaticamente a responsabilidade para o presidente eleito.
Investir envolve risco. Antecipar cenários envolve risco. Apostar em eleições envolve risco.
E quem assume o risco precisa estar preparado para arcar com as consequências.
O mercado financeiro não pode exigir que a democracia produza o resultado mais conveniente para suas posições.
A Bolsa subiu com a expectativa de Flávio e caiu com a confirmação de Lula
Os números ajudam a compreender o tamanho da aposta.
Desde a confirmação das candidaturas, em agosto, o Ibovespa acumulava valorização de aproximadamente 15,3%. Parte desse movimento estava associada à expectativa de uma vitória de Flávio Bolsonaro.
Após a confirmação da reeleição de Lula, a Bolsa devolveu parte expressiva dos ganhos. Na manhã desta segunda-feira, o Ibovespa chegou a recuar 17,34%, enquanto o dólar disparou e os juros futuros avançaram.
O movimento foi tão intenso que a B3 precisou interromper as negociações.
A reprecificação dos ativos foi uma decisão dos próprios participantes do mercado. Investidores venderam ações, reduziram exposição ao risco e desmontaram posições que haviam sido montadas durante a campanha eleitoral.
A Faria Lima não foi surpreendida por uma decisão econômica tomada pelo governo. Foi surpreendida pelo resultado das urnas.
Essa diferença é fundamental.
Uma coisa é cobrar responsabilidade fiscal, discutir juros, inflação, dívida pública e crescimento econômico. Outra é transformar a derrota de um candidato em justificativa automática para uma crise financeira e atribuir a culpa ao vencedor da eleição.
O mercado precisa separar suas preferências políticas de sua responsabilidade profissional.