A política econômica de Flávio Bolsonaro guarda semelhanças alarmantes com a de Fernando Collor de Mello: nos dois casos, a promessa de enfrentar uma crise economizando 250 bilhões de reais num curto espaço de tempo abre espaço para medidas que podem atingir diretamente o bolso dos brasileiros.
O Radar Brasileiro teve acesso a conversas internas do partido PL, lideradas por Duda Lima, Flávio Bolsonaro, Daniella Marques e Rogério Marinho.
A proposta de congelar dívidas, reduzir investimentos sociais e diminuir recursos destinados ao Minha Casa, Minha Vida, operado com participação da Caixa Econômica Federal, levanta um alerta sobre o futuro da economia popular.
A ideia ‘brilhante’ vem de Flávio Bolsonaro e da economista Daniella Marques. Pode parecer lindo o discurso de austeridade.
A promessa de suspender temporariamente parcelas de empréstimos pode parecer atraente para quem está sufocado por dívidas. Mas congelar pagamentos não significa eliminar débitos.
O risco se torna ainda maior se uma política de alívio financeiro vier acompanhada de cortes em programas sociais e de redução dos investimentos habitacionais, igual Flávio Bolsonaro vem planejando.
Para quem depende do Bolsa Família, precisa financiar a casa própria ou aguarda uma oportunidade de moradia pelo Minha Casa, Minha Vida, a combinação pode significar menos proteção justamente quando o orçamento doméstico está mais apertado.
Só que essa medida quem? Fernando Collor de Mello.
DANIELLA MARQUES E ZÉLIA CARDOSO DE MELLO

Collor chegou ao poder com o discurso de combater os chamados “marajás”, símbolo de sua promessa de acabar com privilégios e desperdícios no serviço público.
Sob Zélia, porém, o governo lançou, em março de 1990, o Plano Collor, que bloqueou grande parte dos depósitos bancários e das aplicações financeiras acima dos limites permitidos, em uma medida que traumatizou milhões de brasileiros. A justificativa era combater a hiperinflação; o resultado foi uma intervenção drástica no patrimônio da população.
Zélia fez o mesmo que Daniella Marques vem anunciando: cortar despesas e programas sociais para conter gastos públicos. Zélia anunciou o congelamento de dívidas. Daniella Marques segue a mesma linha. Resultado, a quebra de um país inteiro.

Zélia Cardoso de Mello, ministra da Economia de Fernando Collor, e Daniella Marques, apontada como nome que Flávio Bolsonaro quer colocar à frente da área econômica, representam duas visões de política econômica que precisam ser comparadas com rigor. Muito semelhantes. A promessa de cortar gastos e promover um choque na economia pode ser apresentada como solução rápida para os problemas do país. Porém, o problema vem logo depois.
CONFISCO: PROPOSTA COLLOR NAS MÃOS DE FLÁVIO
A comparação com Fernando Collor de Mello não pode ser ignorada. Em março de 1990, no início de seu governo, Collor lançou um plano econômico que bloqueou o acesso a grande parte dos recursos mantidos em contas bancárias e aplicações financeiras.

A medida ficou marcada como o confisco da poupança e provocou um trauma que permanece na memória econômica brasileira.
O Plano Collor restringiu a disponibilidade de depósitos e aplicações acima dos limites estabelecidos, deixando parte dos recursos bloqueada por um período prolongado. O objetivo anunciado era combater a hiperinflação, mas a intervenção atingiu diretamente a capacidade de famílias e empresas de utilizar o próprio dinheiro.

O paralelo com Flávio e Collor está no risco de uma intervenção econômica mal desenhada produzir consequências que ultrapassem a promessa inicial e transfiram os custos da política para a população. Em miúdos, o Brasil quebra de vez.
Se o governo suspender pagamentos, quem cobrirá o rombo temporário? E o que acontecerá se a solução apresentada para aliviar os devedores acabar restringindo o crédito, encarecendo os empréstimos ou exigindo novas medidas de emergência?
O efeito dominó chega a quem tem dinheiro no banco
Os bancos têm obrigações com correntistas, investidores e depositantes. Também recebem parcelas de empréstimos e financiamentos, que integram o fluxo de recursos utilizado para manter suas operações e conceder novos créditos.

A dimensão do problema dependerá do alcance da suspensão, do tratamento dos juros, da duração da medida e de quem assumirá as perdas.
Se os bancos absorverem prejuízos elevados, poderão restringir concessões, exigir garantias maiores ou aumentar os juros cobrados de novos clientes. Famílias que nunca atrasaram uma parcela também poderão sentir os efeitos, caso o risco seja repassado ao conjunto dos tomadores de crédito.
Se houver insolvência de uma instituição financeira, os mecanismos de proteção aos depositantes poderão ser acionados conforme suas regras e seus limites. Isso não significa, porém, que um congelamento de dívidas leve automaticamente à quebra dos bancos ou ao confisco de aplicações.
O perigo está em vender uma solução imediata sem explicar integralmente a conta, os riscos e os mecanismos de proteção para quem tem dinheiro guardado.
MENOS Minha Casa, Minha Vida e menos crédito para as classes B, C e D

A redução dos investimentos no Minha Casa, Minha Vida também exige explicações. O programa é uma das principais políticas habitacionais do país e ajuda famílias a conquistar moradia por meio de diferentes modalidades de financiamento, subsídios e recursos públicos.
Flávio quer cortar os recursos dos programas sociais financiados pela Caixa. Isso não é invenção. É uma realidade próxima se for eleito presidente. A política de Flávio Bolsonaro entende que financiar programas sociais é queimar dinheiro público.
Cortar recursos ou restringir a participação da Caixa pode reduzir a capacidade de atender novas famílias, limitar contratações e prejudicar a atividade da construção civil. Os efeitos exatos dependerão do tamanho dos cortes, das faixas de renda atingidas e das regras adotadas.
A consequência social pode ser especialmente dura para famílias que pagam aluguel, vivem em moradias precárias ou não conseguem entrar no mercado imobiliário sem apoio público. A construção habitacional também movimenta empregos, fornecedores e pequenos negócios.
O mesmo raciocínio vale para os programas de transferência de renda. Congelar benefícios, cancelar pagamentos ou reduzir sua cobertura não é uma medida neutra: significa retirar recursos que muitas famílias utilizam para comprar comida, pagar contas e manter crianças na escola.
A comparação que Flávio precisa enfrentar
O Brasil já experimentou uma política econômica que prometeu uma solução radical para uma crise e acabou marcada pela intervenção direta sobre o patrimônio da população. O governo Collor mostrou o custo social e político de medidas que atingem a segurança financeira das famílias.
Se a agenda associada a Flávio Bolsonaro e Daniella Marques pretende congelar dívidas, reduzir programas sociais e cortar investimentos habitacionais, seus defensores precisam apresentar números, regras e garantias concretas.
O Brasil não precisa repetir erros do passado. Mas, pelo visto, Flávio quer trazer de volta a política de Fernando Collor de Mello, apoiador declarado da família Bolsonaro.