Flávio Bolsonaro prometeu que vai enfrentar Lula no debate da Band, neste domingo. Dez anos depois de sua última participação em um debate eleitoral, o senador volta à arena para disputar a Presidência da República.
Até agora, ele tem buscado chegar à Presidência evitando situações que possam deixá-lo desconfortável. O debate da Band é uma ocasião importante, sem dúvida. Mas, para quem tem memória, existe um detalhe inconveniente nessa trajetória: a última vez que Flávio encarou um debate diante das câmeras, em agosto de 2016, a coisa terminou em ‘cagada’. Literalmente.
Naquele tempo, o filho mais velho de Jair Bolsonaro tentava se eleger prefeito do Rio de Janeiro. O cenário era o estúdio da Band, a ocasião era o primeiro debate da campanha municipal, e a pergunta que antecedeu o desastre não tinha nada de extraordinário. Flávio precisava explicar como pretendia trabalhar com os municípios da região metropolitana.
O questionamento sequer era sobre rachadinha, homenagens a milicianos, imóveis comprados com dinheiro vivo, suspeitas de lavagem de dinheiro ou sociedade em jatinho offshore. Era uma pergunta sobre gestão pública, daquelas que um candidato a prefeito deveria estar preparado para responder.
Flávio começou a passar mal, ficou pálido, suou, perdeu o equilíbrio e precisou ser amparado. O debate foi interrompido. O candidato saiu do palco e não voltou.
A campanha atribuiu o mal-estar a uma intoxicação alimentar. Até aí, acontece: ninguém escolhe a hora em que o intestino resolve aprontar. O problema é que, naquele caso, a indisposição acabou revelando um espetáculo paralelo nos bastidores, protagonizado pelo pai do candidato.
VEJA O MOMENTO EM QUE FLÁVIO BOLSONARO FINGE DESMAIO AO VIVO
Quando o programa voltou do intervalo comercial, Jandira Feghali, candidata à prefeitura pelo PCdoB e médica de profissão, fez questão de contar ao público o que havia acontecido.
Segundo ela, ao se oferecer para atender Flávio, teve sua ajuda recusada por Jair Bolsonaro, que acompanhava o filho, sob a justificativa de que “comunista não tocava no filho dele”.
Na sequência, Jandira criticou a falta de solidariedade que atribuiu àquele grupo político e relacionou a atitude ao histórico de declarações e posições violentas de Jair.
Não foi, portanto, uma história inventada dez anos depois para alimentar a máquina de memes da internet. Jandira denunciou a recusa ainda naquela noite. No dia seguinte, Jair deu sua própria explicação à rádio Jovem Pan: disse que não aceitara a ajuda porque não engolia comunistas.
Eis o radicalismo e a intolerância bolsonarista em estado puro, levados para dentro de uma situação em que o mais sensato seria permitir que uma médica fizesse seu trabalho. Diante de um filho passando mal, Jair aparentemente preferia avaliar a ideologia de quem se aproximava a aceitar a ajuda de uma adversária política.
Uma atitude irresponsável diante da saúde e da integridade do próprio filho. Mas esse comportamento não ficou restrito à família Bolsonaro: durante a pandemia de Covid-19, o Brasil também sofreu as consequências de declarações e decisões irresponsáveis do então presidente, em meio a uma tragédia que matou centenas de milhares de pessoas. Muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas com medidas de prevenção e uma resposta sanitária mais responsável.
Mas a história daquele debate ainda ficaria pior — ou melhor, dependendo da disposição de quem a conta e de quem a ouve.
Anos depois, em entrevista ao Flow Podcast, Jandira recuperou os detalhes daquela noite e relatou que Flávio saiu dali “todo borrado”, com a roupa suja.
Na mesma entrevista, contou que Jair teria mandado o filho fazer flexões enquanto ele estava debilitado: “Amarelou! Faz flexão! Faz flexão! Zero Um, faz flexão”.
Flávio estaria quase desmaiando, segundo o relato, e a resposta paterna teria sido exigir uma demonstração de virilidade e força física. A versão oficial era de intoxicação alimentar; a lembrança da médica acrescentou à história um desfecho escatológico que nenhum assessor de campanha escolheria para a biografia de um presidenciável.
É como se a política deixasse de ser uma disputa de ideias e virasse uma competição para ver quem consegue sustentar a pose por mais tempo. O detalhe é que o corpo não costuma respeitar o roteiro, muito menos os mandamentos de um pai obcecado por ideias reacionárias que não têm lugar no mundo contemporâneo.
Lula não precisa fazer piada sobre o mal-estar, muito menos sobre a roupa suja. O episódio já tem vida própria. A internet fará o serviço, os memes já voltaram a circular e qualquer expressão de desconforto poderá alimentar a lembrança daquela noite.
Flávio terá de responder a perguntas comprometedoras, sustentar suas posições e atravessar o confronto até o fim, como se espera de qualquer candidato à Presidência.
Ninguém precisa ser ridicularizado simplesmente por passar mal. O que torna aquela noite politicamente memorável é o conjunto da cena: a recusa de atendimento, a ordem atribuída a Jair para que o filho fizesse flexões e o relato posterior de Jandira sobre o estado em que o candidato teria deixado o debate: todo cagado.
E, se Jair dizia que não engolia quem pensava diferente dele, nem mesmo quando essa pessoa se oferecia para ajudar seu próprio filho, talvez seja melhor que Flávio preste atenção ao que anda engolindo antes de aparecer diante das câmeras.
Desta vez, pelo menos, Jair não estará presente para mandar o Zero Um fazer flexões caso Flávio amarele de novo. O pai está preso na Papuda. Mas é bom que o senador se lembre do ditado: dor de barriga não dá uma vez só.
Veremos!