A versão apresentada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, sobre os pagamentos feitos pelo banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro, é contrariada por novos documentos e mensagens.
Depois que o trecho da conversa entre Flávio e Vorcaro vazou, o senador foi à imprensa para tentar explicar a relação financeira com o dono do Banco Master.
Em entrevista à GloboNews, Flávio minimizou um áudio no qual cobrava do banqueiro parcelas para o financiamento do longa-metragem.
O Radar Brasileiro também teve acesso a conversa inédita que a Revista Piauí divulgou sobre os diálogos por WhatsApp entre Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda.
Em 22 de outubro de 2025, Thiago Miranda escreve:
“Consegue liberar as parcelas do filme?”
E continua:
“Se não vai parar tudo por lá 😐.”
Vorcaro diz:
“Sim. Liberei mais uma hoje”
Miranda diz:
“Vou avisá-los. Flávio disse que iria te ligar tb.”
Vorcaro então pede pro Miranda pedir desculpas a Flávio pelos “atrasos” nas parcelas que não foram quitadas.
Se esse outro pagamento de 1,6 milhão de dólares foi efetivamente realizado, como afirmou o banqueiro, o total desembolsado por ele vai para 14 milhões de dólares, ou 72 milhões de reais.
Na mesma entrevista, afirmou que Vorcaro não fazia pagamentos para o filme havia meses e que o último repasse teria ocorrido em maio de 2025.
“O último pagamento que ele fez […] foi em maio de 2025”, disse Flávio.
Documentos obtidos pela revista piauí, porém, contradizem diretamente essa afirmação. A publicação revelou que, em 16 de setembro de 2025, Daniel Vorcaro enviou US$ 1.666.667 ao Havengate Development Fund, fundo americano utilizado na estrutura financeira do filme Dark Horse.
A informação consta de relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O Radar Brasileiro também confirmou as informações sobre o pagamento realizado em setembro de 2025, reforçando que os repasses continuaram depois da data indicada publicamente por Flávio Bolsonaro.
O novo pagamento ocorreu apenas oito dias depois de Flávio ter enviado uma mensagem a Vorcaro cobrando parcelas que estavam atrasadas.
Com o repasse de setembro, o total destinado por Vorcaro ao projeto teria saltado de aproximadamente US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões — valor que, na cotação da época, ultrapassava R$ 65 milhões.
Há indícios de uma nova parcela

As informações reveladas pela piauí apontam ainda para a possibilidade de outro pagamento.
Em uma conversa de WhatsApp datada de 22 de outubro de 2025, o publicitário Thiago Miranda, que participou da captação de recursos para o filme, perguntou a Vorcaro:
“Consegue liberar as parcelas do filme?”
Na sequência, acrescentou que, caso o dinheiro não fosse liberado, “vai parar tudo por lá”.
Vorcaro respondeu:
“Sim. Liberei mais uma hoje.”
Miranda então informou que avisaria os responsáveis e afirmou que Flávio também pretendia ligar para o banqueiro. Vorcaro, por sua vez, pediu que suas desculpas pelos “atrasos” fossem transmitidas ao senador.
Caso esse novo pagamento tenha efetivamente ocorrido, o total desembolsado por Vorcaro para o projeto chegaria a aproximadamente US$ 14 milhões, cerca de R$ 72 milhões na conversão indicada pela reportagem.
O acordo financeiro conhecido entre Vorcaro e os responsáveis pelo filme previa pagamentos de até US$ 24 milhões. O repasse de setembro representaria a sétima parcela identificada, enquanto o eventual pagamento de outubro seria a oitava.
A contradição
O ponto central da nova documentação é simples: Flávio Bolsonaro afirmou publicamente que o último pagamento de Vorcaro havia ocorrido em maio de 2025. Um relatório do Coaf, porém, registra um novo repasse de US$ 1,66 milhão em setembro daquele mesmo ano.
Ou seja, a documentação conhecida até agora não sustenta a versão apresentada pelo senador.
Procurado pela piauí para explicar a divergência e esclarecer quanto Vorcaro efetivamente destinou ao filme, Flávio não respondeu diretamente. Sua assessoria afirmou que a revista deveria procurar a produtora responsável pelo longa para questionar a existência de outros pagamentos.
Não foi a primeira declaração contestada
A relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro já havia provocado outras contradições públicas.
Em março, depois que veio a público que o telefone do senador constava na agenda de Vorcaro, Flávio afirmou à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que nunca havia mantido contato com o banqueiro.
Posteriormente, quando questionado pelo Intercept Brasil sobre o financiamento de Dark Horse por Vorcaro, reagiu dizendo:
“É mentira, de onde você tirou isso?”
Meses depois, conversas e documentos passaram a demonstrar uma relação financeira entre Vorcaro e o projeto cinematográfico.
Flávio também afirmou à GloboNews que o Havengate Development Fund seria fiscalizado pela Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais americano. Essa informação também foi contestada.
Outro ponto levantado é a situação do próprio fundo. Flávio afirmou que ele teria sido encerrado depois que surgiram as primeiras suspeitas sobre os negócios de Vorcaro. Registros empresariais do Texas, contudo, indicam que o Havengate permanece ativo.
O caminho do dinheiro está no centro das investigações
Outro aspecto investigado é a rota percorrida pelo dinheiro.
Os recursos não teriam sido enviados diretamente das empresas de Vorcaro para a produtora do filme, a Go Up Entertainment LLC. Segundo as informações reveladas, o dinheiro passava por Antonio Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”, responsável pela Entre Investimentos e Participações.
Posteriormente, os valores eram destinados ao Havengate Development Fund, sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto.
A investigação busca esclarecer se todo o dinheiro enviado ao fundo foi efetivamente utilizado na produção de Dark Horse e qual era exatamente a participação de cada pessoa envolvida na movimentação dos recursos.
Entre os nomes que aparecem na documentação do filme está Eduardo Bolsonaro. Nos registros relacionados à produção, ele aparece em diferentes momentos como “produtor executivo” e “financiador”.
Eduardo, por outro lado, afirmou em entrevista à CBN que havia investido US$ 50 mil de recursos próprios no projeto para viabilizar a contratação do diretor, mas que posteriormente recebeu o dinheiro de volta.
Até o momento, não há evidência apresentada publicamente de que recursos enviados por Vorcaro tenham sido desviados para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A questão, segundo as informações divulgadas, permanece sob investigação.
O que os documentos já revelam, entretanto, é que a história contada publicamente por Flávio Bolsonaro sobre o encerramento dos pagamentos em maio de 2025 não coincide com os registros financeiros conhecidos.
O dinheiro continuou circulando depois da data indicada pelo senador. E o relatório do Coaf, as mensagens reveladas e a confirmação do Radar Brasileiro colocam essa divergência no centro do caso Dark Horse.