O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou oficialmente neste domingo (16) sua campanha à reeleição à Presidência da República. O primeiro grande ato eleitoral ocorreu no Estádio Municipal 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista — o antigo Estádio da Vila Euclides, símbolo das greves dos metalúrgicos que projetaram Lula nacionalmente no final dos anos 1970.
Com o lema “Onde tudo começou” e o slogan “O Brasil pronto pra mais”, a campanha escolheu voltar ao ponto de partida da trajetória política de Lula.
O evento reuniu caravanas de diferentes estados e foi marcado por discursos emocionais, referências à história pessoal do presidente, críticas ao governo Jair Bolsonaro e ataques à direita. A campanha teve um público entre 20 mil e 30 mil pessoas, segundo a PM e o PT.

A estratégia também marca a abertura oficial da disputa pelo quarto mandato presidencial de Lula e ocorre no primeiro dia em que a legislação eleitoral permite pedidos explícitos de voto.
“Onde tudo começou”

Ao subir ao palco, Lula retomou a própria história. A escolha da Vila Euclides não foi casual: foi naquele espaço que o então líder sindical ganhou projeção nacional durante as grandes mobilizações dos trabalhadores do ABC.
O discurso percorreu episódios de sua vida, desde a atuação sindical durante a ditadura militar até a chegada à Presidência. Lula também se emocionou ao lembrar a mãe, dona Lindu, que morreu enquanto ele estava preso, em 1980.

Em uma das declarações mais fortes do discurso, o presidente comparou o tratamento recebido durante a ditadura militar com o período em que esteve preso pela Operação Lava Jato:
“No tempo da ditadura militar, um delegado de polícia permitiu que eu saísse da cadeia pra ir no enterro da minha mãe. Agora, no regime democrático, um juiz, um ministro que eu indiquei não permitiu que eu saísse da cadeia pra vir no enterro do meu irmão Vavá.”
A fala foi uma referência direta ao ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, que em 2019 negou autorização para Lula deixar a prisão para acompanhar o funeral do irmão, Genival Inácio da Silva, o Vavá.
Lula transforma eleição em comparação com Bolsonaro
O presidente cobrou dos militantes domínio sobre indicadores de emprego, inflação, educação e programas sociais e disse que a campanha deverá mostrar ao eleitor as diferenças entre os dois períodos.
“Vocês têm que estar preparados para saber algumas coisas”, afirmou Lula.
O petista também prometeu apresentar seu novo plano de governo em até 15 dias.
A estratégia é clara: em vez de apresentar apenas uma candidatura baseada na continuidade do atual mandato, Lula tenta construir uma comparação entre projetos de país, colocando sua trajetória política e os resultados de seus governos como contraponto ao período Bolsonaro.
Segurança pública entra no centro da campanha

Lula também voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública. A proposta deverá integrar a agenda eleitoral do presidente caso a medida necessária para sua implementação avance.
A segurança aparece como um dos principais temas da disputa presidencial de 2026, em uma tentativa do governo de ocupar uma área tradicionalmente explorada pela direita.
O presidente também prometeu ampliar investimentos em educação e defendeu o uso estratégico das riquezas brasileiras, incluindo minerais considerados estratégicos para o desenvolvimento nacional.
Soberania como bandeira eleitoral
Outro eixo que deverá dominar a campanha é o discurso de soberania nacional.
Lula tem colocado a defesa dos interesses brasileiros no centro de sua estratégia política, especialmente diante dos conflitos comerciais e diplomáticos com os Estados Unidos. A campanha pretende associar essa agenda à defesa da indústria nacional, dos recursos minerais e da capacidade do país de decidir seus próprios rumos.
A exploração de terras raras e outros minerais estratégicos aparece entre as prioridades apresentadas pelo presidente.
O tema também deverá ser utilizado para confrontar adversários da direita, principalmente o candidato do PL, Flávio Bolsonaro.
Mulheres no centro da estratégia
O lançamento também teve forte presença feminina.
A primeira-dama Janja da Silva homenageou Marisa Letícia, ex-mulher de Lula, destacando sua participação na história do movimento sindical e do próprio PT. Janja lembrou que Marisa ajudou a confeccionar a primeira bandeira do partido.
Em seu discurso, Janja afirmou:
“Foi ela quem bordou a primeira bandeira do PT, e é a ela que eu dedico toda a minha admiração.”
E acrescentou:
“Nós, as mulheres, as Da Silva, somos a maioria do eleitorado e guardiãs da democracia.”
A primeira-dama ainda disse a Lula:
“São as mulheres que irão te eleger presidente novamente, porque você, presidente Lula, sempre esteve ao nosso lado.”
A participação de Janja e a homenagem a Marisa fazem parte de uma tentativa da campanha de aproximar Lula do eleitorado feminino e recuperar símbolos históricos do PT.
Um discurso emocional, mas também eleitoral

A largada de Lula combinou memória e estratégia.
O presidente voltou ao local que representa sua origem política, lembrou a mãe, falou sobre a prisão, recuperou episódios da luta sindical e, ao mesmo tempo, apresentou os principais temas que deverão orientar a campanha: emprego, educação, segurança pública, programas sociais, soberania e comparação com o governo Bolsonaro.
A campanha chega às ruas com uma mensagem simples: “O Brasil pronto pra mais”. O slogan procura apresentar o atual governo como uma etapa de reconstrução e, ao mesmo tempo, preparar o eleitor para a ideia de continuidade.

Lula também fez uma referência pessoal à própria saúde. Depois de passar por tratamento de radioterapia para um câncer de pele no couro cabeludo, afirmou que retiraria o chapéu diante da multidão:
“Eu fiz radioterapia na cabeça para cuidar de um câncer de pele, e não posso tomar sol na cabeça, mas vou desafiar a minha saúde e tirar o chapéu para vocês.”
A declaração reforçou o tom pessoal de um discurso que procurou apresentar o presidente não apenas como candidato, mas como personagem de uma trajetória política que começou naquele mesmo território há quase cinco décadas.
A eleição que começa com dois projetos em choque

O lançamento de Lula acontece em um cenário de forte polarização. No mesmo dia, Flávio Bolsonaro iniciou sua campanha em Copacabana, no Rio de Janeiro, apostando em segurança pública, críticas ao governo petista e na imagem política do pai, Jair Bolsonaro. O que surpreendeu negativamente foi o público. O evento de Flávio Bolsonaro flopou. Na gíria popular, foi uma decepção.
Lula, por sua vez, escolheu o passado para apresentar o futuro.
Na Vila Euclides, o presidente tentou transformar sua própria história em argumento eleitoral: o líder sindical que surgiu entre os trabalhadores do ABC, chegou à Presidência, deixou o cargo, voltou ao poder e agora busca um quarto mandato.
A campanha de Lula começou onde sua história política começou. E o presidente deixou claro que pretende transformar 2026 em uma disputa não apenas pelo futuro, mas também pela comparação entre os caminhos que o Brasil tomou nos últimos anos.