Páginas oficiais do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, registraram uma formação acadêmica que, segundo a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele não possui.
Biografias disponíveis nos sites do Senado Federal e da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) informam que o político é pós-graduado em Ciências Políticas — no caso da Alerj, com a indicação de que o curso teria sido realizado na UFRJ.
A universidade, porém, afirma não ter encontrado qualquer registro de Flávio Nantes Bolsonaro como aluno da instituição. A informação foi confirmada pela UFRJ após consulta ao Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (SIGA), banco de dados utilizado pela universidade para reunir os registros acadêmicos.
No perfil mantido pelo Senado, a biografia do parlamentar informa que ele é “bacharel em direito e pós-graduado em ciências políticas”.
Essa biografia aparece como atualizada em janeiro de 2019. Já a ficha disponível no site da Alerj, onde Flávio exerceu quatro mandatos como deputado estadual, afirma que ele possui “pós-graduação em Ciências Políticas pela UFRJ, Rio de Janeiro, RJ”.
A divergência ganhou relevância durante a pré-campanha de Flávio à Presidência da República. Procurada, a equipe do senador afirmou que a informação publicada nos perfis oficiais é resultado de um “erro ou equívoco”.
Segundo a assessoria, a formação acadêmica correta de Flávio Bolsonaro é outra: graduação em Direito pela Universidade Cândido Mendes, especialização em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e MBA em Empreendedorismo pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
“Eventuais registros diferentes desses tratam-se de erros ou equívocos, possivelmente extraídos de páginas como a Wikipedia”, afirmou a assessoria da campanha. A equipe disse ainda ter solicitado as correções.
UFRJ diz não ter registro de Flávio como aluno
A UFRJ informou que realizou uma consulta ao SIGA e não encontrou registro de Flávio Bolsonaro como discente da universidade.
De acordo com a instituição, o sistema foi criado em 2001 para unificar e informatizar os dados acadêmicos da UFRJ, substituindo sistemas anteriores.
Na consulta realizada, apareceu o nome de Eduardo Nantes Bolsonaro, irmão de Flávio, como concluinte do curso de Direito, mas não o do senador.
A ausência de registro não se limita, portanto, à inexistência de um diploma de pós-graduação: a universidade afirma não localizar sequer vínculo acadêmico de Flávio Bolsonaro em seus registros.
A informação também foi confirmada pela Folha, que consultou a UFRJ. Segundo a universidade, não há registro no SIGA de que o senador tenha estudado na instituição.
O que consta oficialmente sobre a formação
De acordo com a versão apresentada pela própria campanha, Flávio Bolsonaro tem três formações de nível superior ou pós-graduação:
- graduação em Direito pela Universidade Cândido Mendes;
- pós-graduação em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj);
- MBA em Empreendedorismo pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
A campanha afirma que essas são as informações que devem constar no currículo oficial do senador e que os registros divergentes devem ser corrigidos.
O problema, entretanto, é que a informação contestada não apareceu apenas em uma página pessoal ou em uma publicação de rede social. Ela esteve presente em páginas institucionais de duas Casas Legislativas: o Senado Federal, onde Flávio exerce atualmente o mandato de senador, e a Alerj, onde iniciou sua trajetória política.
Senado atribui biografia à agência de notícias da Casa
O Senado informou que a biografia incorreta publicada em sua página faz parte de conteúdo produzido pela agência de notícias da própria Casa.
Já a Alerj declarou que as informações constantes das fichas biográficas dos deputados são encaminhadas pelos próprios parlamentares.
A diferença é relevante porque, embora a campanha atribua o erro à possibilidade de a informação ter sido copiada da Wikipedia, a mesma referência acabou incorporada a páginas institucionais de órgãos públicos.
A assessoria de Flávio afirmou que já pediu a correção dos dados.
Informação também apareceu no LinkedIn
A mesma formação acadêmica atribuída à UFRJ também apareceu em uma página no LinkedIn associada ao senador. Após a repercussão sobre o caso, o perfil foi retirado do ar.
A referência à suposta pós-graduação na UFRJ também apareceu em outras publicações anteriores. A informação já era mencionada em reportagens de 2011, o que indica que a atribuição da formação não surgiu apenas nas páginas atuais dos órgãos legislativos.
Até o nome do curso apresenta inconsistência
Há ainda uma segunda divergência na descrição da formação.
Os perfis oficiais utilizam a expressão “Ciências Políticas”. A denominação mais usual no meio acadêmico, entretanto, é Ciência Política, área integrante do campo das Ciências Sociais.
No site da Alerj, a descrição é ainda mais específica ao afirmar que Flávio Bolsonaro teria feito uma “pós-graduação em Ciências Políticas pela UFRJ”.
A universidade, entretanto, diz que não há registro de vínculo acadêmico do senador com a instituição.
Campanha diz que vai corrigir
Diante da inconsistência, a equipe de Flávio Bolsonaro afirmou que a informação correta é aquela apresentada atualmente em seu site oficial de campanha: Direito pela Universidade Cândido Mendes, pós-graduação em Políticas Públicas pelo Iuperj e MBA em Empreendedorismo pela FGV.
A explicação oficial é de que a referência à UFRJ teria sido incluída por “erro ou equívoco”, possivelmente a partir de informações publicadas na Wikipedia.
O episódio, contudo, deixa uma questão objetiva: durante anos, a suposta pós-graduação na UFRJ foi reproduzida em diferentes espaços, inclusive em páginas institucionais do Senado e da Alerj, enquanto a universidade afirma não possuir registro de que Flávio Bolsonaro tenha estudado ali.
Até o momento, portanto, não há confirmação documental de que Flávio Bolsonaro tenha cursado pós-graduação na UFRJ. Ao contrário, a própria universidade afirma não localizar registro de vínculo acadêmico do senador. A campanha reconhece a existência da informação incorreta, mas atribui sua publicação a um equívoco e afirma ter solicitado a correção dos registros.