Link copiado!
Checagem Radar Verdadeiro

TRUCULÊNCIA: PM retira motorista de ônibus à força de ônibus em São Paulo

Brasil

Motorista foi retirado do coletivo após pedir passagem para uma viatura que trafegava em baixa velocidade; sindicato registrou boletim de ocorrência, classificou a abordagem como truculenta e anunciou que denunciará o caso à Corregedoria da Polícia Militar. Caso ocorreu na Avenida Professor Celestino Bourroul e envolveu um coletivo da Viação Santa Brígida, que fazia a linha 9653-10 Pedra Branca - Praça do Correio.

Um motorista de ônibus da Viação Santa Brígida foi retirado à força do veículo por um policial militar na tarde desta quinta-feira (6), na Avenida Professor Celestino Bourroul, na Zona Norte de São Paulo.

O episódio, registrado por passageiros, provocou indignação e levou o Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo (Sindmotoristas) a anunciar que apresentará uma denúncia formal à Corregedoria da Polícia Militar.

Segundo o sindicato, a abordagem ocorreu depois que o motorista solicitou passagem para uma viatura da Polícia Militar que trafegava em baixa velocidade pela via. De acordo com a entidade, o condutor precisava seguir o itinerário da linha e garantir o transporte dos passageiros até seus destinos.

As imagens gravadas por um passageiro mostram o momento em que um policial militar sobe no ônibus e determina que o motorista deixe o veículo. O condutor questiona a ordem e afirma que não havia cometido qualquer irregularidade.

“Eu não fiz nada de errado”, diz o motorista durante a discussão.

Diante da recusa, o policial parte para a contenção física, imobiliza o motorista e o retira do ônibus sob o olhar dos passageiros. Durante a ação, uma mulher que acompanhava a cena grita repetidamente: “Calma, calma”, enquanto o clima de tensão toma conta do coletivo.

ASSISTA AO VÍDEO NA ÍNTEGRA

Sindicato fala em truculência e abuso de autoridade

Em nota oficial, o Sindmotoristas afirmou estar “estarrecido e indignado com a truculência” empregada pelos policiais militares contra o motorista Edvagner e o cobrador Vilanova.

A entidade sustenta que, independentemente de a situação ter envolvido apenas um pedido de passagem ou de espaço no trânsito, o coletivo estava em operação e precisava cumprir seu itinerário, transportando dezenas de passageiros.

Para o sindicato, a reação dos agentes foi desproporcional e incompatível com a função policial.

“A ação demonstrou total falta de empatia e um uso violento da autoridade policial contra trabalhadores que exerciam suas funções”, afirmou a entidade.

A diretoria do Sindmotoristas informou que ingressará, em caráter de urgência, com uma representação junto à Corregedoria da Polícia Militar para que o caso seja investigado e os agentes eventualmente responsabilizados.

Motorista e cobrador foram levados à delegacia

Após a ocorrência, representantes do sindicato acompanharam o motorista e o cobrador até a empresa e, posteriormente, ao 13º Distrito Policial, onde foi registrado um boletim de ocorrência.

Os dois trabalhadores chegaram a ser detidos durante a ocorrência, mas foram liberados posteriormente.

Segundo o sindicato, tanto o motorista quanto o cobrador já retornaram para casa, porém permanecem abalados emocionalmente.

“Eles estão assustados e com medo”, informou a entidade.

VEJA O MOTORISTA NA DELEGACIA PARA REGISTRAR B.O

SSP afirma que caso será investigado

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) informou que a Polícia Militar está analisando as imagens da ocorrência e apura todas as circunstâncias envolvendo a abordagem.

A pasta destacou que a corporação não compactua com desvios de conduta e que adota as providências cabíveis sempre que são identificadas irregularidades praticadas por seus agentes.

A SSP informou ainda que a Polícia Civil deverá instaurar um inquérito para apurar o caso. A investigação ficará a cargo do 40º Distrito Policial, na Vila Santa Maria.

Como parte das diligências, a polícia solicitará as gravações das câmeras corporais utilizadas pelos policiais militares envolvidos na ocorrência. As imagens deverão auxiliar na reconstrução dos fatos e na verificação da legalidade da abordagem.

Veja os crimes que os policiais podem se enquadrados pela justiça:

  • Abuso de autoridade (Lei nº 13.869/2019): quando o agente público utiliza o cargo para praticar ato ilegal, excedendo os limites de suas atribuições ou violando direitos e garantias. A pena varia conforme o artigo violado, podendo incluir detenção, multa e perda do cargo em situações previstas na lei.
  • Lesão corporal (art. 129 do Código Penal): se o uso da força causar lesões físicas injustificadas. A pena varia conforme a gravidade da lesão (leve, grave ou gravíssima).
  • Constrangimento ilegal (art. 146 do Código Penal): quando alguém é obrigado, mediante violência ou grave ameaça, a fazer ou deixar de fazer algo sem amparo legal.
  • Ameaça (art. 147 do Código Penal): caso o policial ameace a vítima de forma ilegal.

Após abordagem, discurso de força na SSP entra no debate

O episódio também reacende o debate sobre a política de segurança pública defendida pelo governo de São Paulo. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o então ex-secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite, têm defendido uma atuação mais firme das forças policiais, com maior respaldo aos agentes durante ocorrências.

A linha adotada pela gestão estadual é baseada no argumento de que policiais precisam ter autoridade para agir diante de situações de confronto ou desobediência a ordens. Em diferentes manifestações públicas, Tarcísio e Derrite defenderam que a resistência às determinações policiais pode justificar uma reação mais enérgica por parte dos agentes.

Críticos dessa postura, porém, afirmam que o fortalecimento da autoridade policial não pode significar autorização para o uso excessivo da força, principalmente em situações em que não há ameaça ou risco concreto. Para especialistas e entidades ligadas aos direitos humanos, a obediência à autoridade policial deve estar sempre limitada pela legalidade, proporcionalidade e respeito às garantias individuais.

O caso envolvendo o motorista de ônibus coloca novamente no centro da discussão o limite entre a autoridade necessária para o trabalho policial e eventuais excessos cometidos durante abordagens. A investigação deverá apontar se houve abuso ou se a atuação dos agentes seguiu os protocolos previstos.

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

Ver todas as matérias
O debate é bem-vindo. Para manter a qualidade, todos os comentários passam por moderação antes de aparecer. Respeite as pessoas e as regras da comunidade.

Deixe seu comentário