São Paulo é o estado mais rico do Brasil e um dos piores para pagar as polícias Civil e Militar. É também o estado que mais arrecada impostos, mas que pouco faz para cuidar da segurança pública. Quando o assunto é remunerar quem está na linha de frente da segurança pública, a riqueza paulista não aparece da mesma maneira no contracheque.
O governo Tarcísio de Freitas transformou os reajustes concedidos às polícias em uma das vitrines de sua gestão. O discurso oficial é de valorização das forças de segurança e de recuperação salarial depois de anos de defasagem.
Na prática, isso nunca aconteceu. Tarcísio chegou a falar publicamente que deu aumento acima da média para os policiais, só que os sindicatos denunciaram o governador de ter juntado o reajuste da última gestão com a da atual gestão para justificar o aumento acima da média.
Os números, porém, contam uma história bem mais incômoda e indigesta para Tarcísio de Freitas.

São Paulo não tem uma polícia uniformemente bem paga.
Na Polícia Militar, o soldado paulista ocupa uma posição relativamente alta no ranking nacional após o reajuste de 2026. Mas na Polícia Civil a situação é muito diferente: o delegado de São Paulo aparece apenas na 21ª posição entre as 27 unidades da Federação, segundo o ranking do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp).
Enquanto Mato Grosso paga R$ 30.961,87 de remuneração inicial ao delegado, São Paulo paga R$ 17.368,87.
São R$ 13.593 a menos por mês.
É uma diferença que desmonta qualquer tentativa de apresentar o reajuste percentual como sinônimo de liderança salarial.
A polícia que o governo apresenta e a polícia que os policiais vivem
A gestão Tarcísio pode dizer, corretamente, que concedeu reajustes.
O problema é que a porcentagem do reajuste não paga o aluguel, não reduz a falta de efetivo e não conserta uma delegacia.
Em abril de 2026, Tarcísio sancionou a Lei nº 18.441, que reclassificou os vencimentos das carreiras da Polícia Civil e da Polícia Militar. A medida produziu efeitos a partir de 1º de abril.
Na PM, o salário do soldado passou a R$ 5.482,51 após a formação e o estágio probatório, conforme a própria Polícia Militar informa em seu edital de ingresso. Durante a formação, o aluno-soldado recebe R$ 3.143,70.
O novo valor coloca São Paulo em 5º lugar na comparação nacional utilizada nesta apuração.
É usar esse dado para dizer que toda a polícia paulista é uma das mais bem pagas do país.
A Polícia Civil mostra justamente o contrário.
Delegado de São Paulo está em 21º lugar
O ranking nacional mantido pelo Sindpesp coloca Mato Grosso na primeira posição, com remuneração inicial de R$ 30.961,87.
São Paulo aparece em 21º, com R$ 17.368,87.
A diferença chega a R$ 13,6 mil por mês.
Em um ano, considerando apenas 12 salários, a diferença entre os dois valores ultrapassa R$ 163 mil.
E São Paulo não está apenas distante do primeiro colocado.
O estado também aparece atrás de Amazonas, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Acre e Espírito Santo, entre outros.
Isso significa que o maior estado brasileiro em arrecadação não consegue colocar a remuneração inicial de seu delegado sequer entre as 20 primeiras posições nacionais.
O próprio ranking do sindicato coloca São Paulo em primeiro lugar na arrecadação de impostos, enquanto aparece em 21º na remuneração inicial dos delegados.
É uma disparidade difícil de ignorar.

Na PM, São Paulo melhorou — mas não virou referência nacional
A situação da Polícia Militar: o soldado recebe atualmente R$ 5.482,51 depois da formação e do estágio probatório.
Na comparação utilizada nesta reportagem, Goiás lidera com R$ 9.812,66.
São Paulo aparece em quinto.
A distância para Goiás é de R$ 4.330,15 por mês.
Há uma diferença enorme entre dizer que houve aumento e dizer que a polícia paulista passou a ser uma das mais bem pagas do Brasil em todas as carreiras.
Os números não autorizam essa generalização.
Mentiu: o truque da propaganda do Tarcísio
É aqui que a propaganda salarial começa a ficar mais interessante.
O governo Tarcísio passou a apresentar uma série de reajustes acumulados para demonstrar a valorização das forças de segurança.
Foram reajustes de 20,2% em 2023 e 5% em 2025, além dos 10% de 2026.
O reajuste de 5% de 2025 foi oficialmente sancionado e incluiu as carreiras policiais civis e militares.
O aumento de 2023 foi o principal movimento salarial da primeira metade da gestão.
Mas existe um detalhe fundamental que não pode ser apagado da história:
O reajuste de 20% concedido em 2022 não foi de Tarcísio. Foi concedido durante o governo João Doria.
Doria anunciou em fevereiro de 2022 aumento de 20% para policiais e profissionais da saúde, com vigência a partir de março.
Portanto, se alguém somar o aumento de 2022 ao período Tarcísio e apresentar tudo como resultado da atual administração, estará atribuindo ao atual governador uma medida tomada pelo antecessor.
Essa distinção é essencial.
Tarcísio assumiu o governo em janeiro de 2023.
O reajuste de 2022 pertence à administração anterior.
E os próprios números da Alesp mostram a diferença
A discussão não é apenas entre governo e sindicatos.
Em pronunciamento na Assembleia Legislativa, um deputado analisou especificamente a evolução salarial de diferentes patentes da PM e contestou a maneira como o governo apresenta os percentuais acumulados.
No caso do soldado de 2ª classe, o parlamentar afirmou que o reajuste concedido por Tarcísio em 2023 foi de 31,62% e que, somados os 5% de 2025, o aumento chegaria a 36,62% para aquela referência — e não aos 45,2% que eram apresentados como média geral.
A própria discussão na Alesp mostra por que não existe um único percentual capaz de representar o que todos os policiais receberam.
Cada carreira, patente e referência pode ter uma trajetória diferente.
É por isso que a pergunta correta não é:
“Quanto o governo aumentou?”
A pergunta correta é:
“Quanto o policial recebe hoje e em que posição ele está em relação aos policiais dos outros estados?”
E é aí que a propaganda encontra os números.
O problema não está apenas no salário
A situação das polícias paulistas não pode ser resumida ao contracheque.
O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo afirma que a Polícia Civil tem atualmente um déficit de 14.377 policiais, considerando delegados, escrivães, investigadores, agentes, peritos e médicos-legistas, entre outros cargos.
Segundo o sindicato, de 2023 até janeiro de 2026, houve 5.760 admissões, mas também 3.691 desligamentos, entre aposentadorias, exonerações e outras baixas.
Somente em janeiro de 2026, segundo a entidade, foram 113 desligamentos.
Esses dados são do sindicato e devem ser tratados como tal.
Mas revelam uma contradição importante.
Enquanto o governo anuncia concursos e nomeações para recompor as forças de segurança, uma entidade representativa da Polícia Civil afirma que a corporação continua com milhares de cargos descobertos.
E quem permanece no serviço acaba absorvendo parte dessa pressão.
Realidade: Falta gente para fazer o trabalho
Polícia não é apenas viatura, arma e uniforme.
É gente.
É investigador acompanhando uma ocorrência.
É escrivão lavrando procedimentos.
É delegado conduzindo investigação.
É perito trabalhando em uma cena de crime.
É policial militar fazendo patrulhamento.
Quando faltam profissionais, alguém precisa fazer o trabalho que ficou para trás.
O resultado pode ser mais pressão sobre quem está na ativa, jornadas mais pesadas e dificuldade para manter a capacidade de investigação e atendimento.
O Sindpesp afirma que a carreira da Polícia Civil perdeu atratividade e cita, além dos baixos salários, a ausência de benefícios que considera básicos, como hora extra, adicional noturno e auxílio-saúde. Essas são reivindicações e avaliações da entidade sindical, não uma conclusão oficial do governo.
Mas o fato de uma entidade de representação dos delegados ter lançado uma campanha pública denunciando “sucateamento” da Polícia Civil mostra que a insatisfação não está escondida.
A campanha contra Tarcísio

Em fevereiro de 2026, o Sindpesp lançou uma campanha pública contra o que chamou de sucateamento da Polícia Civil e de promessas não cumpridas pelo governador.
A entidade levou a crítica para outdoors e outros espaços de divulgação.
A presidente do sindicato afirmou que o governo apresenta São Paulo como referência na segurança pública, mas, na avaliação da entidade, sacrifica os profissionais que trabalham na área.
Não se trata, portanto, apenas de uma reclamação isolada de um servidor.
É uma contestação pública de uma entidade representativa de uma das principais carreiras da segurança paulista.
Os policiais foram para a rua
A insatisfação também chegou às manifestações.
Em 24 de fevereiro de 2026, sindicatos de policiais civis e penais realizaram um protesto na região da Avenida Paulista contra a política salarial do governo.
Os manifestantes criticaram diretamente Tarcísio e cobraram aumento e melhores condições para as categorias.
A cena é politicamente incômoda para um governo que construiu uma parte importante de sua imagem justamente sobre a pauta da segurança pública.
De um lado, o governo apresenta números de reajustes e contratações.
Do outro, policiais organizados nas próprias entidades representativas vão às ruas para dizer que a valorização não chegou da maneira prometida.
O racha existe — mas é preciso entender o que ele significa
Há ainda uma disputa interna que não pode ser ignorada.
A relação entre Polícia Militar e Polícia Civil é marcada por funções diferentes, estruturas diferentes e, historicamente, disputas sobre atribuições, carreira e valorização.
Em São Paulo, essas diferenças ganharam força nos últimos anos.
Não significa que as duas polícias estejam permanentemente em conflito. Na prática, elas também realizam operações conjuntas e dependem uma da outra.
Mas existem disputas institucionais, diferenças salariais e insatisfações entre categorias que alimentam o chamado “racha”.
E a questão salarial é parte dessa tensão.
Enquanto a PM conseguiu melhorar sua posição no ranking de remuneração inicial, a Polícia Civil continua muito distante da liderança nacional em uma de suas principais carreiras.
O delegado paulista está em 21º.
É difícil falar em valorização uniforme quando duas das principais estruturas da segurança pública apresentam resultados tão diferentes.
A polícia que sustenta o discurso de segurança
O governo Tarcísio fez da segurança pública uma de suas principais vitrines.
Uma política de segurança pública não pode ser avaliada apenas pelo número de viaturas, armas compradas ou percentual de aumento salarial.
Também precisa responder a perguntas desconfortáveis:
Quanto ganha o policial?
Quantos profissionais estão faltando?
Quanto tempo ele trabalha?
Que estrutura encontra quando chega à delegacia?
Quais direitos possui?
Quanto recebe em comparação com um policial que exerce função semelhante em outro estado?
E, principalmente:
A promessa feita aos policiais foi cumprida?
A promessa de estar entre os melhores e o PCC
Durante o debate político em torno da segurança pública, Tarcísio construiu uma imagem de forte valorização das polícias. Ele mente, cria truques e tenta transformar esse discurso em realidade.
Mas o ranking atual do Sindpesp mostra que o delegado paulista está em 21º lugar.
Não é uma posição compatível com a ideia de liderança salarial.
Na PM, São Paulo está em 5º lugar no levantamento comparativo usado nesta reportagem.
Isso torna a conclusão mais precisa — e também mais difícil de ser contestada:
Tarcísio não pode usar o desempenho salarial de uma carreira para representar toda a polícia paulista.
A PM está paralisada. E, com denúncia de envolvimento do alto comando com o PCC.
A Polícia Civil continua atrás.
E ambas convivem com problemas de efetivo e condições de trabalho apontados pelas próprias entidades policiais.
O custo de uma polícia desvalorizada
Quando um estado paga menos do que outras unidades da Federação por uma carreira altamente especializada, existe um risco evidente: perder profissionais para lugares que oferecem remuneração e condições melhores.
O próprio Sindpesp afirma que a defasagem salarial contribui para a perda de atratividade da carreira e menciona policiais que buscam oportunidades em outros estados.
Não é apenas uma questão corporativa.
É uma questão de Estado.
A investigação de um homicídio não fica melhor porque o governo anunciou um percentual de reajuste.
Uma delegacia não ganha mais investigadores porque uma propaganda diz que a polícia foi valorizada.
Uma equipe não fica menos sobrecarregada porque o governador acumulou percentuais em um discurso.
O que importa é o resultado concreto na ponta.
A conta que a propaganda não mostra
O governo pode apresentar 20,2%, 5%, 10% ou qualquer outro percentual.
Os sindicatos podem contestar os números.
Mas existe uma conta que não depende de discurso:
São Paulo é o estado que mais arrecada impostos e seu delegado está em 21º lugar no ranking nacional de remuneração inicial.
Na PM, o soldado paulista recebe R$ 5.482,51 após a formação, enquanto Goiás chega a R$ 9.812,66 na comparação utilizada.
E, na Polícia Civil, o salário inicial do delegado paulista fica R$ 13.593 abaixo do líder nacional.
Ao mesmo tempo, o sindicato da categoria afirma que faltam 14.377 policiais na corporação.
Essa é a fotografia que o discurso oficial não consegue esconder.
O ex-comandante da PM citado em investigação sobre o PCC
A crise de confiança em torno da segurança pública paulista ganhou um capítulo ainda mais grave com a citação do coronel José Augusto Coutinho, que comandou a Polícia Militar de São Paulo durante o governo Tarcísio de Freitas. O Radar Brasileiro mostrou com exclusividade que Tarcísio de Freitas mandou ocultar tudo do Coronel para não atrapalhar as eleições para o governo do Estado de São Paulo.
Coutinho deixou o comando da PM em abril de 2026, depois de seu nome aparecer em uma investigação relacionada à atuação de policiais militares em escoltas ilegais para dirigentes da empresa de ônibus Transwolff apontados pelas investigações como ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
O episódio ganhou uma dimensão ainda maior em julho de 2026, quando relatórios do Ministério Público de São Paulo utilizados na Operação Janus citaram três coronéis da PM paulista em uma investigação que mira um grupo suspeito de movimentar dinheiro ilícito em favor do PCC.
Entre os nomes citados estava novamente José Augusto Coutinho.
A investigação apontou que integrantes do grupo investigado teriam demonstrado influência sobre policiais civis e militares. A defesa do coronel afirmou que não teve acesso à investigação e declarou que reafirma a integridade e a correção com que Coutinho exerceu suas funções, dizendo estar certa de que será demonstrada a inexistência de qualquer envolvimento dele.
Coutinho não era um oficial qualquer. Ele chegou ao topo da maior Polícia Militar do país durante a administração Tarcísio. Antes de assumir o Comando-Geral, havia comandado unidades de elite da corporação, incluindo a ROTA, e ocupava o posto de subcomandante da PM. O próprio governo paulista o apresentou, em 2025, como um oficial de trajetória operacional e de liderança dentro da instituição.
A situação também não começou em 2026.
Em 2025, o Ministério Público já havia apontado que policiais da ROTA eram investigados por suspeita de terem dado cobertura a Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, apontado como uma das principais lideranças do PCC nas ruas. O promotor Lincoln Gakiya havia levado o caso ao conhecimento de Coutinho quando ele comandava a ROTA, e integrantes do GAECO sustentaram que o então comandante não teria tomado providências. Coutinho posteriormente chegou ao cargo de subcomandante da PM.
É uma sequência que levanta uma pergunta incômoda para a gestão Tarcísio:
como uma investigação envolvendo suspeitas de infiltração do PCC entre policiais militares avançou até atingir um oficial que havia ocupado os principais postos da corporação — inclusive o comando-geral?
Não basta aumentar o salário
O reajuste de 2026 é real.
Os reajustes de 2023 e 2025 também foram reais.
As contratações anunciadas pelo governo também são reais.
Mas a insatisfação dos policiais também é real.
Os protestos aconteceram.
A campanha do Sindpesp aconteceu.
O déficit apontado pela entidade existe como denúncia documentada.
E o ranking salarial mostra que São Paulo está longe de liderar em várias carreiras.
Por isso, a discussão sobre a polícia paulista não pode terminar no percentual anunciado pelo governador.
Uma polícia verdadeiramente valorizada não é aquela que aparece bem em uma peça publicitária. É aquela em que o profissional recebe uma remuneração competitiva, tem efetivo suficiente para dividir a carga de trabalho, dispõe de estrutura adequada, possui direitos assegurados e consegue exercer sua função sem ser abandonado pelo próprio Estado.
Hoje, os números mostram uma realidade menos confortável.
São Paulo aumentou os salários, mas ainda está longe de resolver os problemas de quem coloca a própria vida em risco para garantir a segurança da população.
E é justamente por isso que, para o policial paulista, a pergunta continua aberta: se São Paulo é o estado mais rico do país, por que quem protege os paulistas ainda precisa cobrar nas ruas por salário, efetivo e condições dignas de trabalho?