A eleição começou — e, com ela, parece ter começado também uma nova versão duvidosa de Tarcísio de Freitas.
O governador de São Paulo, candidato à reeleição, que durante sua trajetória política jamais se apresentou como um adversário das apostas esportivas, agora decidiu subir o tom contra as chamadas bets.
Em uma sabatina realizada nesta segunda-feira (17), no UOL, Tarcísio chegou a dizer que as apostas são um “problema de saúde” e disparou:
Mentiu Falso Tendencioso Exagerado “Ou o Brasil acaba com as bets ou as bets acabam com o Brasil.”
VEJA O MOMENTO EM QUE TARCÍSIO MENTE SOBRE AS BETS:
A frase poderia até parecer uma mudança legítima de posição política. O problema é que existe um passado recente que não combina em nada com o discurso de agora.
Em outubro de 2025, Tarcísio esteve no centro de uma articulação política em torno da Medida Provisória 1.303, que previa, em sua versão original, elevar de 12% para 18% a tributação das empresas de apostas esportivas. A medida acabou retirada de pauta na Câmara e perdeu a validade.
O relator da MP, deputado Carlos Zarattini, acusou publicamente Tarcísio de interferência política para impedir a aprovação da proposta. Segundo o parlamentar, o governador teria mobilizado presidentes de partidos contra a medida. (Portal da Câmara dos Deputados)
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, foi além. Durante a votação, agradeceu publicamente a Tarcísio pelo que classificou como seu “empenho” na articulação que envolveu a derrubada da proposta. A própria TV Brasil registrou que parlamentares relataram a atuação do governador contra o texto.
Mas há um fato objetivo que não depende de interpretação: a MP que chegou ao Congresso previa aumento da tributação das bets de 12% para 18%, e a proposta acabou não prosperando.
E é justamente esse histórico que torna especialmente curiosa a fala do governador agora.
De defensor da regulamentação a combatente das bets
O discurso atual de Tarcísio é muito diferente do tom que marcou sua atuação anterior.
Em 2023, durante as discussões sobre a CPI das apostas, uma entrevista publicada na época registrava uma posição favorável à manutenção das empresas legais e à regulamentação do mercado. A defesa era separar empresas regulares das que praticassem irregularidades, em vez de simplesmente acabar com todo o setor.
Agora, em plena campanha eleitoral, o governador apresenta as bets quase como uma ameaça nacional.
A mudança não é pequena.
Agora, a frase escolhida para marcar posição é: “ou o Brasil acaba com as bets ou as bets acabam com o Brasil”.
É uma transformação conveniente — e acontece justamente quando Tarcísio inicia oficialmente sua campanha pela reeleição.
A coincidência eleitoral
Não é segredo que a comunicação de Tarcísio está sendo cuidadosamente preparada para a disputa de 2026.
O Republicanos contratou o publicitário Pablo Nobel, responsável pela campanha vitoriosa de Tarcísio em 2022, para trabalhar na estratégia eleitoral. O contrato foi firmado em 2025, inicialmente para análise de cenários e definição de prioridades.
Em julho deste ano, Tarcísio se reuniu com sua equipe de campanha e com o próprio Nobel para discutir prioridades, comunicação e propostas destinadas a públicos específicos.
Portanto, há uma mudança de discurso, há uma campanha eleitoral em curso e há um marqueteiro trabalhando na definição da estratégia.
O que não está comprovado é que Nobel tenha determinado especificamente a mudança de posição sobre as bets. Essa afirmação, sem documento ou fonte, seria especulação.
Mas a pergunta jornalística é inevitável: por que Tarcísio só agora resolveu transformar as bets em uma de suas principais bandeiras?
O problema que ficou para trás
A contradição fica ainda mais evidente quando se olha para o episódio da MP.
O texto original enviado pelo governo federal previa elevar a contribuição das bets de 12% para 18%. O objetivo era aumentar a arrecadação e corrigir distorções tributárias.
A resistência política foi enorme.
Reportagens da época apontaram que setores atingidos pela medida fizeram forte pressão no Congresso e que políticos do Centrão resistiram ao aumento. Tarcísio foi citado como um dos protagonistas da movimentação política contra a proposta.
No fim, a MP caducou.
As bets, portanto, não tiveram sua tributação elevada de 12% para 18% naquele processo.
E agora, menos de um ano depois, o mesmo governador aparece diante das câmeras dizendo que as bets podem destruir o Brasil?
É difícil não perguntar: o que mudou — as bets ou a eleição?
O eleitor merece uma explicação
Não há problema algum em um político mudar de opinião. Democracias permitem — e até exigem — que governantes revejam posições diante de novos fatos.
O problema surge quando a mudança acontece sem explicação.
Se Tarcísio realmente passou a considerar as bets uma ameaça de saúde pública, deveria explicar quando mudou de opinião, por que mudou e o que pretende fazer concretamente.
Vai defender o aumento da tributação?
Vai defender a proibição?
Vai restringir publicidade?
Vai pressionar o Congresso por uma legislação mais dura?
Vai apoiar medidas contra as empresas que operam legalmente?
Ou a frase “ou o Brasil acaba com as bets ou as bets acabam com o Brasil” é apenas mais uma peça de comunicação eleitoral?